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O silêncio como arte de ouvir a si mesmo

Nunca se falou tanto, nunca antes as pessoas se sentiram tão livres pra expressar o que pensam e o que sentem, com opiniões cheias de palavras rebuscadas, ao passo que nunca se gerou tantos seres insatisfeitos apesar de seus desabafos, pessoas com esgotamento profundo, inseridos numa sociedade barulhenta que não sabe escutar.

Estamos como bichos adestrados num século que forma milhares de cidadãos com eloqüência na fala, ganhando sempre aquele que convence pelos argumentos aos montões, esbravejando sua persuasão como se esse fosse resultado de uma inteligência incontestável. O barulho está desde o momento que acordamos com o despertador até o momento de dormir; e acostumamos absorvendo essa realidade como algo natural, já que pouco se pode mudar no mundo exterior além da minha alçada.

É o despertador que toca com seu barulho irritante, é o barulho da TV que logo ligamos para ouvir o jornal e ficar atualizado com as últimas notícias, é o barulho do trânsito para o trabalho, é o telefone que nunca pára de tocar no escritório, é o som automotivo do vizinho às onze da noite que insiste em deixá-lo ligado sem o mínimo de respeito com o outro do lado, mesmo sabendo da labuta e que ao raiar do sol é mais um novo dia barulhento a cumprir – e isso é resultado de nossa inquietude interior que é estrondosa, aflita, ruidosa, e, esses cochichos interiores são como o barulho que se ouve a noite da eletricidade sob fios de alta tensão: invisíveis, porém reais e destrutivos. E nesse ritmo vamos nos entregando e sentindo-nos no direito de também exercer o máximo de barulho que pudermos, afinal esse é nosso contexto, e quem não se encaixar acaba ficando taxado de chato. A pessoa calada, silenciosa e observadora nesse caso é quase sempre mal vista ou taxada de introvertida e anti-social.

Na verdade o silêncio é algo que foi deixando de ser respeitado e levado em consideração, inclusive foi quase que totalmente ignorado, não o relacionamos mais à saúde. As pessoas não se sentem mais à vontade em silenciar, afinal, é nesse momento em que elas começam a se escutar e isso de certa forma as deixam atordoadas.

A situação de adestramento nos coloca numa zona de conforto que não queremos mais nos ouvir, nos basta opiniões e pensamentos prontos, infelizmente a necessidade pela busca de nossa verdadeira essência tem sido alimentada com toda a carga de barulhos diversos.
A mente ruidosa trabalha correndo atrás daquilo que abafa propositadamente seus pensamentos, angustiada por não saber o que reserva o amanhã. Assim, quanto mais energia dedicada, mais insaciável ela se torna, e mais fraca a pessoa se sentirá em relação ao que a cerca. Por isso, a necessidade de sempre falar e falar é um desespero disfarçado de argumentos.

Silenciar-se favorece a meditação e o autoexame. Nossa busca pelo barulho será sempre fatal, não somente no âmbito espiritual, mas emocional e físico. A importância do silêncio é muito mais do que dar ao outro a oportunidade de falar, mas, muito mais, a de ouvir-se a si mesmo; sendo essa uma tarefa vital – é crescimento.
Quando foi a última vez que em silêncio se ouviu, se auto examinou e obteve respostas concisas para as tantas perguntas interiores que insistem em lhe interrogar?

Gente boa, obrigada por reservar seu tempo para leitura desse texto. Até a próxima segunda-feira à tarde. Por enquanto, ficarei em silêncio. Por mim e por quem precisa…

Deniza L. Zucchetti é escritora nas horas vagas e mãe em período integral.

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