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Escola no canteiro de obras: conheça a história de operários que terminaram o ensino médio no próprio trabalho

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Educação, trabalhadores das obras chegam à porta da universidade. Antes, conquista era uma utopia

Aos 19 anos, o trabalhador da construção civil Amadeus Alves de Oliveira é um jovem com uma história que pode ser descrita através de uma equação matemática. Para ajudar a família de origem humilde, assistiu a vida lhe subtrair direitos essenciais, como o de estudar, já não conseguia conciliar o estudo com o trabalho. Por outro lado, adicionou conquistas, graças a seu esforço de não se acomodar às circunstâncias. Juntamente a outros 12 colegas de trabalho, ele recebeu o diploma de conclusão do Ensino Médio na última quarta-feira , no mês em que se comemora o Dia Internacional da Educação (28 de abril).

Amadeus Alves de Oliveira fez parte do Programa Educacional no canteiro de obras da Dinâmica Engenharia, que começou este projeto nos anos de 1980 e já ajudou a formar mais de oitocentos alunos. Quando chegou na empresa, há pouco mais de 2 anos, viu uma oportunidade de mudar, ao voltar para a sala de aula, algo que ele havia desistido em razão da dificuldade de conciliar o trabalho desgastante com a rotina estudantil. “Chegava no fim do dia, eu estava muito cansado. Mas com a escola dentro do canteiro, facilitou bastante”, conta.

A motivação inicial para voltar ao estudo foi a possibilidade de crescer na empresa. Sua função era de servente e, para ser classificado num novo cargo, precisaria do Ensino Fundamental. “Depois que eu peguei esse diploma, fui promovido a operador de elevador, o que trouxe um incremento de 50% no meu contracheque”, lembra. Agora, ele dá mais um passo, com a formatura no Ensino Médio, e já faz planos: quer chegar à universidade, onde pretende cursar Ciências Contábeis “O que minha mãe mais queria é que eu continuasse os estudos”, comemora.

Para concluir o Ensino Médio, os colaboradores frequentaram as aulas de português, matemática, geografia, história, dentre outras, diariamente, por cerca de dois anos, através do projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA), sempre com aulas presenciais. Foram seis meses de estudo para cada um dos quatro anos do Ensino Médio. Tudo custeado pela empresa onde ele trabalha.

Para a técnica em segurança do trabalho Marta Vilela, além do crescimento profissional, a elevação da autoestima do trabalhador é outro efeito positivo da medida. “Ele se sente um cidadão dignificado. Apesar da origem humilde e da trajetória sofrida da maioria, estas pessoas passam a ter acesso ao curso superior, que outrora parecia uma utopia”, observa.

O acesso de pessoas da classe social menos favorecida às universidades públicas aumentou significativamente entre 2004 e 2013, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE, divulgada no final do ano passado. O levantamento mostra que dos 20% jovens mais pobres do país, apenas 1,4% estavam matriculados na universidade pública. Em 2013 esse número subiu para 7,2%. Já nas faculdades particulares, o número de pobres que representava 1,3% em 2004, agora corresponde a 3,7%.

A pesquisadora do IBGE, Betina Fresneda, aponta vários fatores para o fenômeno, dentre eles, a criação de políticas de ampliação de vagas e de acesso à universidade, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e as cotas. Outro fator foi o aumento da renda e da escolaridade média do brasileiro.

“A escola nas obras é uma contribuição para o aumento desta escolaridade dentro de segmento da construção civil, pois, para estes trabalhadores, é muito mais difícil permanecer na escola convencional”, explica Mário Valois, diretor da empresa. Geralmente, o intervalo de tempo entre a saída do trabalho ao horário de entrada nas aulas não é suficiente para o trajeto, o banho e a janta necessários antes da aula.

“Quando param, a maioria é vencida pelo cansado, que bate quando param de trabalhar”, complementa o diretor. Na escola das obras, eles recebem o lanche e tomam banho após o trabalho. As aulas acontecem em sala de aula instalada dentro do canteiro, eliminando a necessidade de deslocamento. As aulas acontecem das 18h às 20h, de segunda à quinta-feira.

Dia Internacional da Educação

No Brasil, não há muito o que comemorar no dia 28 de abril. Enquanto as principais potências mundiais concordam que o professor tem uma posição estratégica para o desenvolvimento de uma nação, no País o profissional não é valorizado: os salários são baixos e as condições de trabalho são precárias.

Goiás detém hoje a maior nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Ensino Médio na rede estadual, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). No entanto, conseguiu tal posição com 3,8 pontos, cuja avaliação varia de 0 a 10 pontos. Especialistas da área consideram tal resultado um alerta para aumentar os investimentos em educação, já que a melhor nota do País não alcançou sequer 5 pontos.

Outro dado preocupante é a taxa de analfabetismo. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de brasileiros com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever é de 8,3%, o que representa mais de 16 milhões de pessoas.

A iniciativa da construção civil, em adotar a escola nas obras e proporcionar a retomada dos estudos aos trabalhadores, é um gota no oceano, mas revela-se como uma contribuição na contramão desta triste realidade educacional do País. Amadeus e outros 12 colegas de trabalho receberam o diploma de conclusão do Ensino Médio durante solenidade realizada pela empresa Dinâmica Engenharia.

Com Comunicação Sem Fronteiras

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