Portal 6

Inveja: a prisão que desfigura o ser

Conhecemos bem os sete pecados capitais, mas especificamente falaremos de um que tem se tornado uma epidemia nesse processo de uma sociedade consumista e frenética. Muito equívoco tem tomado conta do discernimento das pessoas, levando-as a confundir o que é sucesso, e a exposição da vida das pessoas cada vez mais manipulada nas redes sociais tem crescido esse flagelo.

A inveja é um mal que tem assediado e incomodado, sendo um dos apetites mais animalescos do ser humano, do qual a pessoa que a manifesta mostra a amplitude do seu lado bicho. A classificação dos sete pecados capitais nos serve como base para avaliarmos nosso processo de humanização, no sentido de nos tornarmos cada dia mais pessoas do bem e de bem, educando a nos enxergar, impulsionando-nos na busca de um coração puro, pois essa é nossa vocação para virmos a crescer e nos transformarmos em gente.

O invejoso tem o hábito de olhar as pessoas de baixo para cima. Quer ser o que o outro é. Quer ter o que o outro tem, conquistar o que o outro conquistou, ter a aparência do outro criando na mente do invejoso uma necessidade, uma falta não ajustada, não apenas no sentido profissional ou material, mas também sentimental, emocional, intelectual ou qualquer outro que o faz sentir ofendido – mas não somente isso, ele deseja que o outro não tenha, não seja, não conquiste.

A inveja se hospeda quando vemos alguém que está acima de nós e perguntamos: porque ele e não eu? E acaba chegando à conclusão de que nunca terá e nunca será como a pessoa que admira com ódio. Então, o invejoso começa a se comparar, se coloca numa balança na qual ambiciona maldosamente a medida do outro em detrimento da sua, convivendo com essa diferença que o oprime até ao âmago da alma. Sendo assim, a pessoa tenta acabar com esse saldo devedor do qual se mede. Se ele não pode chegar ao nível que ele considera o auge, ele traz a pessoa para o nível dele, desejando o mal para pessoa que é seu alvo, se comprometendo ardentemente em destruí-lo.

A inveja traz como consequência a obrigação de viver sempre na contramão da vida, sofrendo um vazio infernal ao invés de usufruir o que tem. A pessoa vai se consumindo e admirando odiosamente o que o outro é e tem, ao invés de se esforçar na direção de amadurecer para vida, de crescer, de fato o invejoso emprega toda sua força em nivelar o outro por baixo, colocando sempre defeitos, perdendo a capacidade de admirar o que é belo e meritório, vai se tornando um expert em depreciar, equiparando o outro sempre para o lado negativo. O invejoso trilha o caminho da autodestruição, pois o seu objetivo é fazer o outro sofrer e infernizando-o ao invés de ser feliz. Sendo assim a pessoa cultiva a repulsa pelo seu alvo, fica observando de forma velada e recalcada, mata o outro com palavras, difama, desmerece, calunia, dissimula, deprecia, menospreza, desvaloriza. E nesse percurso ele vai fazer de tudo para chegar lá, atropelando, pervertendo a verdade na tentativa de “tomar” o lugar que não é dele, chamando a atenção para si de todas as formas e expondo ao ridículo a pessoa que ele inveja, pagando qualquer preço desde que o holofote esteja para si. No final, quando consegue (e se conseguir) seus feitos, ele com aquela alegria execrável faz sua festinha particular para “comemorar” a desgraça alheia com sorriso no cantinho dos lábios – o que considero o nível mais podre do qual a pessoa pode chegar.

A questão é que o invejoso é um ingrato para vida, pois um coração que é grato recebe todas as dádivas que a vida reservou apenas a ele, agradece por tudo não de forma demagoga fazendo seu teatro disfarçado para os observadores de plantão, mas sincera. Não fica se comparando, não sente necessidade de escarnecer e ironizar seu semelhante para “comprar” discípulos fiéis para suas dissimulações e mentiras.

A pessoa que fica ocupada demais observando a vida do outro perde o prazer de amar a aproveitar aquilo que a vida ofereceu somente a ele, pois está preocupado demais olhando o que o outro tem e é.

Liste detalhadamente todos os dias as razões que tem para agradecer pela vida e por tudo que ela tem lhe proporcionado que seu olhar será convertido ao agradecimento, e não somente isso, começará a bendizer a vida pelo bem que foi presenteado ao outro também. Esse é o remédio que nos humaniza e anula o efeito do veneno que a inveja produz no ser daquele que se submete a essa prisão.

Deniza L. Zucchetti é escritora nas horas vagas e mãe em período integral. Escreve todas as segundas-feiras.

Quer comentar?

Comentários

Comente

Nosso Facebook





Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.