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Como a idealização da maternidade é um desserviço para as mulheres

Lembro como se fosse hoje: era por volta de 3h da manhã e escutei o choro do bebê. Pensei: “Mas já”? Como eu estava com menos de 24h de operada não consegui sentar na cama e pegar meu próprio filho e amamentá-lo. Entretanto, logo vieram enfermeira e o pai para me  ajudar a encontrar uma posição, meio sentada, meio deitada… Espera, aí, ui, pronto, pegou.

Eu fiquei ali vendo o menino mamar e pensei: então ser mãe é isso? Onde estão os sinos tocando? Onde está a alegria sem limites? Então vai ser assim de agora em diante? Como eu vou cuidar deste bebê se mal consigo me abaixar pra tomar um banho? E, confesso, fiquei em choque com a minha nova realidade: ser mãe.

Sei que ao tocar no sacrossanto assunto da maternidade estou mexendo em um vespeiro e posso desagradar muita gente, mas acredito mesmo que é necessário falar sobre a maternidade real, sobre acordar à noite, sobre se sentir sozinha, sobre sobrecarga de trabalho e como a sociedade parece possuir um consenso silencioso no qual todos consideram que as mães sabem cuidar automaticamente dos filhos tão logo eles nascem.

A idealização da maternidade não vem de hoje, é coisa antiga, de antes da Idade Média, quando se via a possibilidade de salvação da alma da mulher através do seu abnegado e heróico papel de mãe, aquela que “padece no paraíso”.

A bonita imagem da mãe sempre radiante e sorridente com um bebê limpo e feliz nos braços que é bombardeada em nossas mentes desde muito cedo e de certa forma define o inconsciente coletivo sobre a condição materna, MAS pode muitas vezes estar distante da realidade de diversas mulheres. Mães recentes, mães de primeira, de segunda e qualquer viagem podem frequentemente não se sentirem felizes o tempo todo ou não se sentirem capazes de cuidar daquele bebê ou ambas as coisas.

Sheila Kitzinger, uma grande escritora e ativista inglesa diz que  “a maior transição da vida de uma mulher muitas vezes é feita com inacreditável dificuldade, sobrecarga de trabalho e isolamento social.”

A questão é que o silenciamento sobre estas questões faz um desserviço à muitas mulheres que diante das dificuldades de criar um bebê/criança e se deparando com os relatos perfeitos, sem dor e sem dificuldades propagados e validados pela mídia e sociedade acabam se achando uma péssima mãe, tem sua auto estima e confiança tão diminuída e duvida da sua própria capacidade como mulher/mãe. Diante disto geralmente esta mulher acaba concluindo que ela mesma é uma exceção tão exceção que é melhor nem tocar no assunto.

Eu quero dizer a você que não tem filhos que ser mãe é maravilhoso, é uma experiência rica e sem igual, é um amor que não tem comparação mas que mesmo sendo WOW  e verdadeiramente fantástico tem momentos tão difíceis nos quais  você pensa: Deus do céu, no que foi que eu me meti?

E a você, querida mulher mãe que teve dificuldades no puerpério, recuperação com dores, adaptação difícil na amamentação, que se sentiu sozinha na licença maternidade, que acha difícil educar, ensinar tarefas, lidar com choro, lidar com este pequeno ser humano tão voluntarioso e independente que não lhe obedece como você gostaria e que parece não precisar dormir nunca quero dizer que é assim mesmo amiga! Você não é a única: Toca aqui e tamo junta nessa!

Bebês não dormem 10h por noite com 2 meses de idade, às vezes nem com 12 meses! Crianças maiores descobrindo o mundo não entendem que brincar  com água gelada em dia frio não é uma boa idéia, que subir na mesa de vidro  pode resultar em um tombo e muito sangue  porque a tônica dos primeiros dois anos, aliás, da primeira infância é a dependência, sim, esta criança vai ser dependente física e emocionalmente de você por um bom tempo, então respira, lava o rosto, toma uma água and go ahead!

Outra coisa importantíssima é desvincular a culpa materna. Em alguns meios parece um pecado mortal dizer que está muito cansada ou que não sabe como lidar com o desfralde, brigas entre irmãos ou alfabetização. É como se ao externar suas angústias a mãe estivesse dizendo que não ama o suficiente. Ora, quando você fala que seus primeiros dias ou meses como mãe foram difíceis, que o dia do nascimento não foi como você sonhou, que tudo que você queria era dormir uma noite inteira novamente isso NÃO significa que você ama menos o seu filho(a), isso significa simplesmente que você é humana e se sente cansada, como qualquer outro ser humano.

A sociedade precisa aceitar, dar visibilidade e validar a fala das mães reais como mulheres que amam seus filhos mas que se sentem cansadas, como mulheres sobrecarregadas já que existem famílias onde elas recebem pouca ou nenhuma ajuda do companheiro pois muitos ainda vivem dentro do sistema machista onde “cuidar dos filhos é dever da mãe”.

Quando uma mulher fala e é ouvida, acolhida e respeitada no grupo social onde vive provavelmente sua fala vai reverberar em outra mulher que vai se identificar e se sentir validada, sentir que suas angústias são reais e verdadeiras, que ela não é única no mundo a enfrentar estes desafios. Este ciclo que “ouvir – validar- identificar-se” traz representatividade às mães que são tão homenageadas, enaltecidas e tão pouco ouvidas.

E sobre aquele bebê que chorou às 3h da manhã? Bem, nossos primeiros dias não foram fáceis mas fomos nos conhecendo, criando rotinas, ensinando um ao outro essa linda coreografia da vida e hoje ele se tornou um lindo e doce menino de seis anos cheio de perguntas e questionamentos. O amor foi sendo lapidado, acrescentado de doses cada vez maiores de alegria e afeto e as dificuldades foram sendo apenas parte do caminho mas não O caminho.

Sim, ser mãe é trabalhoso, requer dedicação, atenção, auto controle, requer que nasça uma mãe mas também é maravilhoso! A maternidade é um vau de jaboque, um divisor de águas, um rito de passagem supremo e árduo que nos presenteia com forças que não imaginávamos ter, com um amor que desconhecíamos possuir e com aprendizados tão grandes que todo o processo vale a pena e faz com que alegria seja maior do que qualquer dia difícil.

Ouça uma mãe, apoie uma mãe, ajude uma mãe, abrace uma mãe. <3

Eva Cordeiro é economista e professora universitária. Escreve todas as sextas-feiras.

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