Homofóbicos em nome de Deus!

Eu havia preparado outro artigo para ir ao ar hoje. Mas o que aconteceu neste domingo, me deixou tão perplexo e assustado que senti uma urgência em voltar a este tema: Homofobia! Eu sei que alguns leitores vão dizer que estamos de mimimi, ou mesmo fazendo propaganda gayzista, como um leitor disse em outro texto meu. Acontece que quem é minoria precisa realmente ser defendido. Não a maioria dominante que não sofre nenhum tipo de opressão. Mas vamos aos fatos.

Algumas estatísticas dizem que um homossexual é morto a cada 28 horas no Brasil, vítima de homofobia. Isso quer dizer que temos 785% casos a mais de crimes contra homossexuais do que os Estados Unidos, onde aconteceu um massacre esta semana. Os Estados brasileiros com maior índice de crimes contra homossexuais estão no Nordeste, onde um gay tem 80% mais chance de ser agredido que no Sudeste, e onde, coincidentemente, percebe-se uma explosão de igrejas protestantes fundamentalistas.

Claude Lévi-Strauss, já dizia que “O leque das culturas humanas é tão vasto, tão variado (e de fácil manipulação) que, sem dificuldades, encontramos argumentos que sustentam toda e qualquer hipótese”. E isso é perceptível no discurso de ódio presente tanto na fala de líderes cristãos como de muçulmanos. Para estes fundamentalistas, os gays são o maior problema da humanidade. Crimes, Estupros, Roubos, Corrupção? Ah, isso é fichinha! O problema são os gays!

Mas, resumindo os fatos, Omar Mateen, um norte-americano, nascido e criado nos EUA, entrou em uma das maiores e mais tradicionais boates gays de Orlando. Com armas de grosso calibre ele matou 50 pessoas e feriu outras 53 antes de ser morto pela polícia. Foi o maior ataque com armas de fogo na história do país, e o maior atentado terrorista depois dos ataques de 11 de setembro, em 2001. No mesmo dia, ainda foi preso um outro sujeito com armas e explosivos, que se dirigia para a parada gay que aconteceria em Los Angeles.

O pai do Atirador disse em uma entrevista que o que pode ter motivado o ódio irracional de seu filho por gays, foi ter presenciado um casal gay se beijando em Miami, semanas atrás. Apesar do Estado Islâmico ter reivindicado a autoria dos ataques, o FBI adiantou que não foi provado ligação do atirador com o grupo fundamentalista e o próprio pai disse que o filho não tinha ligação forte com o Islã.

A resposta mundial foi imediata. Diversas autoridades e celebridades manifestaram apoio às vítimas e seus familiares. O presidente Barack Obama se emocionou. Papa Francisco disse que os ataques contra inocentes eram motivados por um ódio sem sentido. Porém alguns fascistas aproveitaram-se do sofrimento de tantas famílias para mostrar que existem pessoas que usam a boca como aparelho excretor!

Donald Trump, o Bolsonaro americano, como alguns no Brasil o chamam, derramou sua xenofobia, incitando mais ódio. Já por aqui, Feliciano, o pastor homofóbico e racista mais “querido” do país, aproveitou o sofrimento de tantas pessoas para mostrar que nada é tão ruim que não possa piorar. O famoso pastor do cabelo escovado, disse que “era triste a tentativa de grupos LGBTT de usar a tragédia para se promover, como se a razão do ataque fosse apenas homofobia”. Já ele se aproveitar do sofrimento de tantos para ganhar dinheiro é totalmente aceitável.

Esqueçamos o fato de o pai do assassino ter dito que foi homofobia. Muitos agora estão tentando achar outros motivos para o ataque, já que são claramente Homofóbicos e caso fique provado que esta foi a causa do ataque, eles terão algo em comum com um assassino tão deplorável. Consideremos, então, que o ataque foi motivado pelo Estado Islâmico, como eles querem! Isso não apaga a causa homofóbica para o ataque, já que o EI é famoso por usar o Corão como ferramenta para justificar a homofobia, e atirar gays do alto de prédios. Assim como cristãos usam a bíblia para justificar seu preconceito.

Como queremos ser imparciais, vamos partir para outro lado, considerando que o atirador não tivesse religião, o ataque não deixaria de ser homofobia, como a alimentada pelo Trump brasileiro, o famoso defensor de torturadores, Bolsonaro. Ele, apesar de se declarar cristão, não é tão ligado à religião, o que não o impediu de ser homofóbico, dizendo que filho gay é falta de surra e que preferia o filho morto em um acidente, do que homossexual.

São esses discursos de ódio, baseados ou não na bíblia, que “legitimam” a homofobia nossa de cada dia. No site do G1, os comentários sobre o atentado em Orlando chegam a causar náuseas. Apareceu de tudo por lá, a maioria representantes da família tradicional brasileira, dizendo que o cara merecia ganhar uma medalha, ou que os policiais deveriam esperar o sangue secar para não pegarem DSTs, ou que eram 50 pessoas a menos no mundo para transmitir HIV. Teve até um pastor comentando que “tiverão (sic) ou que merecerão (sic)”! Aprender português para que? Nesse caso só é importante saber somar, para contar o dízimo no fim do mês.

Sinceramente, é difícil de entender a obsessão de alguns líderes religiosos pelo sexo de pessoas que sequer são seus fiéis. O pior é que disseminam essa obsessão para seus seguidores, pegando trechos da bíblia e se esquecendo de outros. A bíblia proíbe comer bacon ou frutos do mar, por exemplo, mas nunca vi protestos contra açougues que vendem porco ou camarões! Nunca vi nenhum religioso protestando contra mulheres pastoras, mesmo com Paulo tendo dito que elas deviam ficar caladas na igreja.

O discurso de ódio é tão fundamentado que criam termos até então inexistentes. Com ajuda de pseudopsicólogas, criaram a famosa ideologia de gênero para justificar sua homofobia (e vender livros para fiéis manipulados, afinal, dinheiro nunca é demais!). Termo este que não existe em lugar nenhum a não ser no discurso vazio destes “homens e mulheres de Deus”. De acordo com esses doentes, existe uma aliança global para transformar toda criança em gay.

Seria cômico se não fosse trágico. A ciência já provou há tempos que não há como transformar hetero em homo ou o contrário.

O próprio Freud, em 1905, já dizia: “a homossexualidade não é algo a ser tratado nos tribunais. (…) Eu tenho a firme convicção que os homossexuais não devem ser tratados como doentes, pois uma tal orientação não é uma doença. Isto nos obrigaria a qualificar como doentes um grande número de pensadores que admiramos justamente em razão de sua saúde mental (…). Os homossexuais não são pessoas doentes”. Mais tarde em 1935, ele reafirmou isso à mãe de um homossexual: “A homossexualidade não é, certamente, nenhuma vantagem, mas não é nada de que se tenha de envergonhar; nenhum vício, nenhuma degradação, não pode ser classificada como doença; nós a consideramos como uma variação da função sexual”.

Como nem a medicina e nem a psicologia iriam ajudar os fanáticos nesta perseguição contra os gays. Surgiram os curandeiros espirituais, se intitulando terapeutas. Um dos mais famosos eram William Masters e sua esposa Virginia Johnson que diziam ter curado mais de 70% dos casos que chegaram em seus consultórios, mas nunca provaram uma cura sequer. Em artigo publicado no Scientific American, Thomas Maier entrevistou Lynn Strenkofsky, secretária do casal e ela disse nunca ter visto nenhum caso de conversão que tivesse dado certo.

Em 2014, o médico Dr. Christian Jessen, passou por três tratamentos de “cura gay” indicados por líderes religiosos. Obviamente, nenhum dos três curou a homossexualidade do Dr. Christian. E o mais assustador, é que em um dos casos, o pastor se dizia médico, e não possuía registro. Esses processos terapêuticos, baseados na fé são comuns no meio protestante americano, e frequentemente são desmentidos.

John Smid, um pastor que defendeu a cura gay por muitos anos, em 2014 se revelou homossexual. Até 2007, quando finalmente aceitou a própria homossexualidade, Smid submetia homossexuais à reabilitação, isolando totalmente o “paciente” de seu “vício”, num processo de cura espiritual doentio e que, como ele mesmo reconheceu, só trouxe sofrimento à suas vítimas. No Brasil temos o caso do ex-pastor Sergio Viula que fundou um movimento para propagar a cura gay, e que depois de 14 anos casado, percebeu que não era possível se curar, e resolveu “sair do armário”, reconhecendo que seu movimento, criado em 1997 nunca transformou nenhum gay em hetero! Ele dizia que era uma zebra pintada de branco, e um de seus maiores arrependimentos foi acreditar que podia ser curado.

Mas a ciência não é o suficiente para a horda de Homofóbicos, que usam Deus como desculpa para vomitar preconceito e que agora criaram até o crime de Cristofobia, onde os pobres cristãos perseguidos e assassinados todos os dias por causa da sua fé, precisam ser protegidos destes gays malvados que querem a todo custo transformar a Terra em um planeta cor de rosa, cheio de unicórnios e com a Madonna como presidente.

Talvez estes cristãos exemplares precisassem de umas aulas com Papa Francisco, que mesmo preso às doutrinas católicas, nos ensina que é possível ser tolerante. Ele diz que “A pessoa homossexual “deve ser respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, com o objetivo de evitar ‘qualquer marca de injusta discriminação’ e, particularmente, toda forma de agressão e violência”.

Apesar de ressaltar que o matrimônio cristão “se realiza plenamente entre um homem e uma mulher”, Jorge Mario Bergoglio se abre para os casamentos civis e à convivência, quando não são motivadas “para prejudicar ou para resistir à união sacramental, mas por situações culturais”. “Nestas situações, poderão ser valorizados aqueles sinais de amor que, de qualquer maneira, refletem, o amor de Deus”. E é isso que todo gay quer, casamento civil. Nenhum gay quer casar na igreja, sobretudo as que os perseguem com tanto fervor.

O resultado dessa intolerância e perseguição sem limites, é o sofrimento. Milhares de jovens gays se matam todos os anos por conta da pressão sofrida de familiares, amigos e da igreja. Quem os deveria acolher e amar, acima de qualquer maneira, são os primeiros a lhes atirar pedras, mesmo tendo Jesus dito que para atirar pedras a pessoa não deveria ter nenhum pecado.

Um dos casos mais emblemáticos neste sentido é o de Bobby Griffith, que morava em uma pequena cidade da Califórnia. O jovem, de 20 anos, se matou em 1983, depois de sofrer pressão de seus pais fanáticos religiosos. A história de Mary Griffith, seu fanatismo religioso e a morte do filho virou livro e um filme estrelado por Sigourney Weaver, vencedor de vários prêmios. O filme, inclusive está disponível na íntegra no youtube, e você precisa assisti-lo!

Uma das passagens mais emblemáticas da história de Mary Griffith, foi seu discurso numa reunião do Conselho do condado de sua cidade, poucos meses depois da morte de seu filho. Ao tomar o microfone em uma audiência pública sobre a criação de um dia para celebrar a liberdade gay ela disse: “Homossexualidade é um pecado. Homossexuais estão condenados a passar a eternidade no inferno. Se quisessem mudar, poderiam ser curados de seus hábitos malignos. Se desviassem da tentação, poderiam ser normais de novo. Se eles ao menos tentassem e tentassem de novo em caso de falha. Isso foi o que eu disse ao meu filho, Bobby, quando descobri que ele era gay”.

Quando alguns fanáticos estavam prestes a aplaudi-la, ela continuou: “Quando ele me disse que era homossexual, meu mundo caiu. Eu fiz tudo que pude para curá-lo de sua doença. Há oito meses, meu filho pulou de uma ponte e se matou. Eu me arrependo amargamente de minha falta de conhecimento sobre gays e lésbicas. Percebo que tudo o que me ensinaram e disseram era odioso e desumano. Se eu tivesse investigado além do que me disseram, se eu tivesse simplesmente ouvido meu filho quando ele abriu o coração para mim… eu não estaria aqui hoje, com vocês, plenamente arrependida”.

Em lágrimas ela disse: “Eu acredito que Deus foi presenteado com o espírito gentil e amável do Bobby. Perante Deus, gentileza e amor é tudo. Eu não sabia que, cada vez que eu repetia condenação eterna aos gays… cada vez que eu me referia ao Bobby como doente e pervertido e perigoso às nossas crianças… sua autoestima e seu valor próprio estavam sendo destruídos. E finalmente seu espírito se quebrou além de qualquer conserto. Não era desejo de Deus que o Bobby debruçasse sobre o corrimão de um viaduto e pulasse diretamente no caminho de um caminhão de dezoito rodas que o matou instantaneamente. A morte do Bobby foi resultado direto da ignorância e do medo de seus pais quanto à palavra “gay”.

Por fim, em prantos ela finalizou: “Ele queria ser escritor. Suas esperanças e seus sonhos não deveriam ser tomados dele, mas se foram. Há crianças como Bobby presentes nas suas reuniões. Sem que vocês saibam, elas estarão ouvindo enquanto vocês ecoam ‘amém’. E isso logo silenciará as preces delas. Suas preces para Deus por entendimento e aceitação e pelo amor de vocês. Mas o seu ódio e medo e ignorância da palavra ‘gay’ silenciarão essas preces. Então… Antes de ecoar ‘Amém’ na sua casa e no lugar de adoração, pensem. Pensem e lembrem-se. Uma criança está ouvindo”.

Como bem lembrou o, já citado, Papa Francisco, não podemos julgar ninguém, pois Jesus disse: “Não julgueis para não serdes julgados”. Precisamos parar de usar a bíblia para justificar nosso preconceito doentio e descabido. Não temos o direito de decidir, ou mesmo “aprovar” ou não o que o outro faz em sua vida íntima, principalmente se outro sequer for de minha religião. Parece que estamos vivendo um dejavú da idade média e suas inquisições e cruzadas. Ainda acredito no amor. Acredito que um dia superaremos esses dias negros em que se mata em nome de Cristo ou de Alá.

Bruno Rodrigues Ferreira é jornalista, psicólogo, especialista em Tecnologia e Educação e Gestão em Saúde. Twitter: @ferreirabrod

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