Aprendendo empatia com o sofrimento do outro!

O relato abaixo não é ficcional. A pessoa que relatou isso, é uma das inúmeras que passam por isso todos os dias. Alguns sofrem mais, outros menos… Sou apenas canal entre uma história real e você, querido leitor. Abra seu coração, deixe seus preconceitos um pouco de lado, e tente ao menos hoje, sentir empatia por alguém que não escolheu passar por isso. E leia até o final, antes de xingar nos comentários.

Para quem é gay a vida, na verdade, não é nada colorida. Desde criança você aprende que se revelar implica automaticamente em perseguições, surras, exclusão. Isso, você aprende cedo na escola. Se for em algumas casas por aí, pode resultar em “momentos de cura” regados a dor e sangue e até mesmo a morte. Aprendi a “me conter” ainda criança. Pra não apanhar no banheiro ou no corredor, não levar cusparadas (sim, eu passei por isso), e não ser isolado de toda a escola, ninguém poderia saber de nada. E haja esforço pra explicar porque você não joga futebol nas aulas de Educação física, ou não sente vontade de ficar vendo por baixo das saias das meninas.

Por um tempo, você até consegue lidar bem com o silêncio. Fingir se torna uma habilidade tão bem trabalhada, que você percebe que mereceria um Oscar, sem falsa modéstia. Na adolescência a coisa complica. Os hormônios atrapalham tudo. Sua cabeça começa a virar uma bagunça, você não consegue entender o que sente. E se você crescer em uma família cristã, como a minha, só vai haver um sentimento maior que o medo: A CULPA.

Você passa a ouvir o que os padres/pastores e os “irmãos” da igreja pensam sobre gays e começa a se sentir a pessoa mais suja do mundo. Eu já ouvi um padre falando, inclusive, que a culpa dos tsunamis na Ásia, que mataram milhares de pessoas, era dos gays. Pense como um adolescente se sente com isso. Mas aí você ouve também que Deus pode te curar, e começa a perseguir essa “cura” com todas as forças do mundo.

Me confessei com muitos padres, que mais me atrapalharam do que ajudaram. O conselho de todos era: “arrume uma namorada, assim Deus tirará essa podridão do seu coração!”. E assim o fiz. Magoei muitas garotas bacanas e que serão ótimas esposas, para os caras certos, durante a minha busca pela “cura”. E aqui abro um parêntese: nunca tive coragem de pedir desculpas a nenhuma delas por tê-las feito sofrer, ou mesmo usar elas, neste processo. Sinto tanta vergonha desta fase.

Entrei, então, em um grupo de Jovens, e achei que ali encontraria a redenção. Quando você se foca na igreja, por um tempo até consegue viver na ilusão de que será curado, e que Deus está transformando seu coração. Passei, inclusive a criticar gays. Freud, explica, dirão meus amigos psicólogos. Participei de tantos encontros e acampamentos de cura e libertação que não consigo nem contar. Chorava, suplicava, implorava por misericórdia. Deus parecia ter desistido de mim. Talvez eu não merecesse sua cura. Eu era apenas um gay, devasso e podre, que merecia apanhar pra virar homem. Comecei a achar que Deus devia me odiar!

A única coisa que eu carregava comigo desde a adolescência era o medo de alguém descobrir, e a vergonha e culpa por ser alguém tão desprezível, como muitos na igreja diziam. Lá você aprende que até assassinos e outros bandidos em geral, são melhores que gays. Ouvi muitos falarem que preferiam um filho bandido do que “viado”. O próprio Bolsonaro já grita e é replicado por muitos papagaios, dizendo que preferia o filho morto em acidente do que gay. Como eu poderia ter coragem de falar pra alguém sobre isso? Acontece que por mais que você ore, peça, suplique, jejue e até use cilício (um mini torturador que alguns católicos usam), os desejos e vontades continuam do mesmo jeito. E a culpa é cada vez maior, por continuar gostando de homens, mesmo “Deus sendo tão misericordioso e oferecendo a ‘cura’ pra esse mal”.

Você passa a viver uma vida de bandido. Se encontrando com caras às escondidas, como se estivesse cometendo o pior de todos os crimes. O medo de ser descoberto te faz procurar por caras “discretos” e “fora do meio”, para encontros vazios que não poderão virar um namoro jamais. Mas a sociedade não entende isso. Pra grande maioria, todo gay é promíscuo e só pensa em sexo sem compromisso. Mas experimente começar um compromisso pra ver se eles irão aceitar. O gueto é o refúgio dos excluídos.

Meu maior medo na vida era que meus pais descobrissem algo. Vivia em função de esconder esse segredo. E nessas idas e vindas, fiquei com um cara, que não aceitou o fato de eu ter terminado com ele. Passou a me perseguir, ameaçar a contar pros meus pais e meus amigos. ele queria me expor de qualquer jeito. Contou pra minha irmã em uma festa. Encontrou uma ex minha no falecido Orkut, e contou pra ela também. Tive que sair do único (apesar de não saudável) sustento emocional que eu tinha, o grupo de Jovens. Eu não suportaria o olhar de reprovação e desprezo de todos que estavam ali.

Cheguei a tentar me matar. Saí para a rodovia decidido a jogar meu carro de frente com a primeira carreta que aparecesse. O desgosto de ter um filho que se matou seria menor que o desgosto de ter um filho gay, para a minha família. Assim eu pensava. Não consegui jogar o carro, pois passei por um dos momentos mais místicos na vida (ou talvez fosse apenas a força da aleatoriedade): a música “muitos choram”, da banda Rosa de Saron, começou a tocar no rádio do carro, eu chorei e não desisti de viver.

Como bom covarde que aprendi a ser, desde novinho, eu fugi. Arrumei um emprego no Estado vizinho. Assim, não poderia ser achado por esse sujeito mais, e talvez, ele pudesse me deixar em paz. Longe da pressão da família, e sem ninguém por perto pra dar satisfação eu consegui me conhecer melhor. E, finalmente, com 24 anos de idade, me aceitar, e perceber que nunca estive doente, pra precisar de cura. Foi libertador, entender que eu havia nascido assim, que nada poderia mudar isso, agora eu poderia tentar ser feliz.

É engraçado, que depois que você entende que Deus te fez assim, e que não há nada que possa fazer pra mudar isso, a vida começa a ter mais cor. Não importa com quem você dorme. Importante é o que você faz como humano. E nisso, eu estava tranquilo. Meu pai sempre me ensinou a ser um homem íntegro, honesto e que respeita os outros. Ser gay não me definia como pessoa, é apenas uma parte de quem eu sou de verdade.

Depois de dois anos fora, fui chamado para um emprego na cidade em que nasci, e sempre vivi. Estava voltando para a casa dos meus pais. O medo estava voltando. Mas agora eu havia aprendido que a gente pode escolher sentir medo, ou não. Eu escolhi não sentir medo mais. Antes de voltar, eu decidi contar à minha mãe. Assim, se meus pais não me aceitassem, eu continuaria minha vida onde já estava.

O choque quase derrubou minha mãe, coitada. Eu senti o desapontamento no olhar dela. Me arrependi de ter aberto o jogo, naquele momento. Ela passou mal, chorou. Não conseguiu trabalhar. E eu senti meu coração apertado de um jeito que nunca havia sentido antes. A decepção dela não era a mesma de um boletim com uma nota baixa. Era muito maior. Pedi que ela não contasse ao meu pai. A decepção seria ainda maior. Seu único filho homem, era um viado! Voltei para a cidade que estava morando sozinho, decidido a ficar ali.

Óbvio que minha mãe não escutou meu pedido. Contou pro meu pai assim que teve a chance. E entrou no Facebook no outro dia, me falando pra voltar pra casa. Que ela e meu pai queriam o filho deles com eles. Chorei primeiro de desespero. Como ela podia ter contado pro meu pai? Ele vai querer me matar, pensava eu! Depois chorei de soluçar, mas de emoção. Minha mãe me vira e fala que meu pai não é nenhum monstro. Que ele imaginava o quanto eu estava sofrendo, e que eles jamais iriam virar as costas pra mim. Meu lugar era aqui, ao lado deles.

Levei 25 anos (quer dizer, essa era a minha idade, na verdade eu descobri que era gay já com uns 12 ou 13 anos, ou que me faz ter levado apenas uns 12 anos…) pra descobrir que eu deveria ter falado pra eles há muito tempo atrás. O medo e o terror psicológico que a escola, igreja e sociedade colocaram em mim, me fizeram acreditar que seria colocado pra fora de casa assim que soubessem que sou gay. E isso, infelizmente, acontece com muitos por aí. O primeiro obstáculo eu havia superado. Mas isso era apenas a ponta do iceberg.

Falar que aceita no momento de emoção é fácil. Depois na prática a coisa complica. Você precisa encarar familiares, amigos. Explicar que tem um filho gay, e aceita isso, não é uma tarefa fácil. A fé ainda continua influenciando, mesmo inconscientemente eles continuam sendo homofóbicos. Aprenderam que gays queimam no inferno. Ninguém quer isso para seus filhos. E nisso, continuam com as orações para que Deus nos cure. Um dia, talvez a ficha deles caia, como a minha caiu, e entendam que orações, nesse caso, não resolvem.

Mesmo que meus pais não me aceitassem, eles eram obrigados, ao menos em teoria, em não me virar as costas. Os amigos já não têm essa obrigação. A maioria não iria querer ser amigo de um gay. Um sujeito que é pior que ladrões e estupradores. Um tipo de gente que pastores gritam que devem queimar no inferno, por serem diferentes, mesmo não tendo escolhido ser assim.

Ninguém é idiota ou burro ou mesmo masoquista, o suficiente, pra escolher ser gay. Escolher viver escondido e com medo. Viver sem poder andar de mãos dadas com quem você ama, porque um babaca qualquer que não sabe educar os filhos, não vai conseguir explicar pra uma “criança” porque dois homens estão de mãos dadas, apesar de ser de boa, deixar assistir novelas com cenas de sexo. Para quem não sabe o que é, sequer, amar o próximo, como Jesus ensinou, deve ser realmente, um grande desafio explicar o amor. Eu não havia escolhido ser gay. Mas nasci assim. Sou assim.

Até então, eu só tinha tido coragem de contar pra duas amigas, sobre “minha situação”. A acolhida delas, e a forma de me tratar me fizeram muito feliz, mas não corajoso o suficiente para contar para todos os amigos. Alguns que eu considerava tanto, que tinha medo de perder suas amizades, se descobrissem quem eu era de verdade. Nessa época o amor próprio estava meio em falta, eu reconheço!

O mais incrível de tudo, é que eles ficaram sabendo. E uma coisa que aprendi foi: seus amigos verdadeiros vão continuar do seu lado. Se algum se afastou, nunca foi amigo de verdade (eu sei que isso é muito clichê! Mas o amor, em suas diferentes formas, é clichê). A amizade, com a maioria, inclusive, ficou muito mais forte. Meus amigos chegaram a dizer que fiquei mais gente boa, agora que não vivo mais estressado tentando esconder algo. Se sentiram bem por mim, e perceberam que estou mais feliz. Agradeço a Deus por ter os melhores amigos do mundo!

Minha vida nunca foi fácil. A cidade em que vivo é a capital evangélica do País. Por isso, em muitos ambientes, é preciso ainda se manter “no armário”, já que a saída implica em perca de emprego, ou mesmo perseguição política e religiosa. Mesmo que sua família te aceite, ou teus amigos, você ainda corre o risco de sofrer bastante por ser gay, nesta cidade “abençoada”, onde o amor cristão deveria imperar. Mas, o que esperar de um povo que cospe em direção a outra em igreja, por não ser da mesma denominação, durante a “Marcha pra Jesus”?

Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando: Por que este desabafo? Por que agora? O que mais existe nesta história? Bem, digamos que existem motivações políticas neste texto. Sempre me interessei por política. Gosto de ler e estudar sobre, porém sempre tive dificuldade de me encaixar em um partido.

O motivo do desabafo, porém, foi em razão da postura de membros da juventude, políticos e até mesmo pseudopsicólogos, que tem apresentando opiniões assustadoras. Estou voltando a sentir medo, e não quero passar por isso mais! Eu pensava que jovens teriam a mente mais aberta e teriam maior aceitação à diferenças. Acreditava que os jovens não fossem como Bolsonaros e Felicianos que espalham discursos de ódio em nome de Deus e das famílias. Começaram uma caça aos gays, como se fossem as piores pessoas do mundo. Inventando absurdos imensos.

Na minha época de alienado, cheguei a manter o discurso conservador falando que parada LGBT é “coisa de gente sem vergonha”. Mas como psicólogo, me toquei que o problema deveria estar em mim, então fui pesquisar. O evento surgiu em Nova Iorque em 1969, depois que alguns homossexuais foram espancados apenas por serem gays. A grande ironia é que o mundo que hoje condena os gays ao inferno, condenava as divorciadas, 50 anos atrás, e dizia que os negros não tinham alma, menos de cem anos atrás. Hoje, percebo que o evento é importante sim, mesmo que eu não sinta a menor vontade de participar, ele não deve ser proibido.

Muita gente, porém, não percebe que comentários do tipo “até tenho amigos gays” soa ofensivo do mesmo jeito que o “não sou racista, tenho até amigos negros!”. O preconceito está já na fala. Só serve para ser amigo dessas pessoas se for gay, mas viver de acordo com a visão de mundo deles. Dane-se o que o outro sente. Não é porque um ou outro extrapolou os limites na parada LGBT, por exemplo, que todos que estavam lá não prestam. Assim como nem todo político é ladrão e nem todo pastor, mercenário, ou padre pedófilo.

Uns se revoltaram ano passado porque a Parada LGBT deu 2.000 pessoas e o protesto contra a Dilma, apenas 200. Ao invés de avaliar o movimento e investigar o que deu errado no protesto, é mais fácil desqualificar outro grupo. É tão difícil entender que ao dar direitos a um grupo, você não tira de outros? Ao permitir que gays se casem no civil, por exemplo, ninguém está proibindo os casais héteros de se casarem. Nem obrigando igrejas a realizarem casamentos gays. Mesmo porque nenhum gay quer se casar na igreja. Justamente a igreja, que mais os perseguem e fazem se sentir mal.

É no mínimo hipócrita xilicar porque um gay estava de tapa-sexo e deixar, de boa, mulher de tapa-sexo de 10cm no carnaval que é assistido por muito mais crianças do que uma parada gay de uma cidade como Anápolis. E por falar em crianças, lhes asseguro com certeza científica que nenhuma vai “virar gay” por ver um gay. Além disso, elas sequer entendem o que está se passando, pois ainda não tem um comportamento erotizado. Só na adolescência vão entender o que é sexo e putaria, e garanto para vocês que já terão visto coisas muito mais pesadas do que um “viado” que estava só com o pinto tampado.

Por fim, me desculpe pelo texto enorme, e pelo “pequeno” desabafo. Como disse, fiquei com medo do que li. Como gay, sei como é horrível ser discriminado por algo que você sequer escolheu ser. Passei anos indo em momentos de oração e acampamentos de cura e libertação até entender que não estava doente. E essa é visão de muitos. Um dos membro no grupo, disse que os gays devem ser tratados como doentes. E que não existe “homossexualismo” no mundo animal. Não sei em que mundo ele vive, pois na Terra, mais de 1500 espécies de animais praticam algum tipo de ato homossexual. 10 segundos no google e você vai encontrar esses dados.

Tentei suicídio pra não ser motivo “de desgosto” pra minha família e não desapontar meus pais, e sofri calado pois tinha medo de contar pra alguém e apanhar ou passar a ser odiado por isso. Nem todo gay é devasso como alguns insinuaram. Nunca faltei com respeito com ninguém, nunca me comportei de maneira vulgar ou sequer dei motivos pra alguém questionar minha moral e integridade.

Não falem de algo sem entender. Ninguém escolhe ser gay. Quem iria escolher viver escondido e com medo? Se seu filho se assumir homossexual, a primeira coisa que você precisa entender é que não foi escolha, que ele não está doente, que não é só uma fase, e que não existe cura para isso. Assim como milhares de gays pelo nosso país, não quero mais sentir o mesmo medo que sentia na escola, onde tinha que ficar calado para não apanhar, porque é isso que viado merece. Eu não sou doente, eu não mereço apanhar, eu não mereço queimar no inferno. Eu sou apenas gay, e isso não me faz melhor, nem pior que ninguém!

Bruno Rodrigues Ferreira, Jornalista, Psicólogo, Especialista em Tecnologia e Educação e Gestão em Saúde. Twitter: @ferreirarbruno

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