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Chatos de Facebook ajudariam muito se ficassem mais calados

Coisa linda é uma pessoa autêntica, sim de fato mostra a verdade do ser.

Mais ainda quando esse alguém além de autêntico investe sua verdade em algo válido.

Achei muito interessante um desafio que foi lançado nas redes sociais, do qual incitou muita curiosidade e ao tempo que fez despertar a consciência a respeito do câncer de mama e sua prevenção.

A sugestão era postar uma foto em preto e branco com a frase desafio aceito. Porém, logo após vieram outras postagens refutando o desafio. Muitos não gostaram e tantos outros não aceitaram o desafio, então sugeriram àqueles que aderiram que fossem visitar hospitais, que doassem sangue e medula, que fizessem doações Às ONGs, que pesquisassem e compartilhassem informações sobre o câncer e muitas outras recomendações.

O fato é que a foto em preto e branco conseguiu alcançar o objetivo que era chamar a atenção de todos e nisso teve sucesso, inclusive gerar debate sobre o assunto – independente de quem aceitou participar ou não.

O que me deixou perplexa foi algumas pessoas entenderem o desafio como um aspecto negativo, como se os que tivessem aderido fossem hipócritas, sem o senso de solidariedade, sem empatia, sem disposição para colocar em prática as sugestões das quais citaram, sem consciência da importância da questão relacionada à saúde, como se todos fossem apenas burrinhos de presépio que confortavelmente em suas cadeiras postaram uma foto em preto e branco e nada mais.

Quem teve câncer e que já sentiu na pele a luta contra essa doença (e muitas delas não conseguiram vencê-la) quem teve alguém conhecido ou da família que passou por isso sabe da importância que é estar sempre lembrando outras de se cuidarem, de tirarem um tempo pra fazer o auto-exame, de ir ao médico, pois prevenir é melhor que remediar, ainda mais nesse caso.

A fitinha rosa é comum encontrarmos todos os anos nas campanhas de conscientização, é uma maneira simpática e criativa de chamar a atenção das pessoas para uma questão relevante, que alerta para exames preventivos que detectam em tempo de haver cura.

Engraçado que nunca vi polêmica em relação a fitinha rosa, e geralmente ela passa batida nas campanhas pois todos já se acostumaram com a presença dela. A foto em preto e branco foi muito criativa, mas polemizaram e categorizaram os participantes de inertes e alienados, como se nada disso fosse colaborar no combate ao câncer de mama.

Todos nós temos a liberdade de decidir participar ou não –  isso não nos torna melhor nem pior que ninguém. Afinal, participar do desafio não feriria a dignidade nem integridade de alguém, nem mesmo a própria.

Acredito que antes da caridade e da solidariedade o chão do nosso coração necessita estar úmido, fecundo, criativo e cheio de humor. De fato o humor é uma atitude fértil, rica e aberta à vida – algo que somente o humor traduz em nós e nos torna capazes de colocar em prática aquilo que chamamos de vivência.

Sem o húmus no chão do coração, qualquer atitude por mais bem intencionada que aparentasse, seria árida, empedrada e espinhosa, que rejeita tudo o que apesar de simples também é válido. Caridade e húmus não existem separados, seria qualquer outra coisa, menos a prática do amor de fato. Afinal, somente um coração tratável é proativo, criativo, acolhedor, receptivo e bem humorado.

Devemos sim nos levantar em prol daqueles que sofrem e que estão morrendo nos leitos de hospitais sem atendimento digno, fazer visitas, abraçar a causa e dar nosso apoio moral, emocional, psicológico e prático – não somente relacionado ao câncer, mas em qualquer situação. O que não podemos esquecer é que a prática da caridade não exige holofotes, caso contrário seria propaganda, marketing e exibicionismo.

Sou testemunha de muitos que praticam a solidariedade em silêncio, que estendem a mão ao que precisa em muitos outros aspectos, e nem por isso deixaram de participar do desafio por achar que “beirava” a futilidade e banalidade – e muito menos se auto engrandecem postando seus feitos nas redes sociais.

Você que aderiu ao desafio e que achou importante a conscientização em relação a uma doença tão impiedosa, e compreendeu que a foto instigaria o interesse na questão, muito bem! Você que não aderiu, bom também! Afinal, quem não aderiu já nos disse o que faz e como todos também devem fazer.

Não cabe a ninguém questionar as atitudes e motivações do coração de quem sim e de quem não, o importante é ser autêntico e usar sua verdade na vivência das coisas realmente essenciais e inadiáveis. Cada um sabe de si! Madre Tereza de Calcutá quem o diga…

Deniza Zucchetti é professora por vocação, quase Relações Internacionais, escritora por amor nas horas vagas e mãe de dois lindos filhos em período integral. Escreve todos os sábados.

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