Apoie mais e condene menos quem luta contra a depressão

Se quer ajudar alguém com depressão não acrescente mais peso ou mais culpa, apenas acolha, ouça, faça companhia, chame pra tomar um café, um chá, um suco, fazer uma caminhada

No fim de semana, pelas facilidades proporcionadas pelas Redes Sociais eu me reencontrei com uma amiga de adolescência via Facebook e conversa vai, conversa vem ela me relatou estar lutando contra uma depressão recorrente muito forte que desta vez vinha acompanhada de episódios de pânico.

Nossa conversa enveredou sobre o tema dos tratamentos, da luta diária que é se manter vivo e ativo com uma doença que suga todas as suas energias e em como encontrar objetivos para alcançar e forças pra lutar quando tudo parece perder o significado.

Algo que me deixou impressionada e que me fez pensar muito foi o quanto ela se desculpava por estar assim, como volta e meia dizia que “se pudesse não seria desse jeito”, que ela sabia que tudo aquilo era “falta de se esforçar e de ter fé”. Parecia um confessionário aonde a enfermidade era o pecado a ser confessado para a obtenção do perdão afim de se eximir de toda aquela culpa.

Quando uma pessoa desenvolve gota, diabetes, hipertensão, psoríase, dermatite, hepatite, sarampo ou mesmo um resfriado ninguém aborda a pessoa dizendo que seu estado é causado por falta de fé ou por não se esforçar o suficiente para ficar bom. Entretanto é impressionante o quanto as pessoas com depressão síndrome do pânico, estresse pós traumático e outros diagnósticos ligados ao funcionamento mental são julgadas e cobradas como se o seu quadro não fosse uma doença e sim uma consequência da sua preguiça, da sua má vontade e até mesmo (pasme) dos seus “pecados”.

Isso gera uma culpa torturante em quem está doente. Ou seja, além das consequências terríveis da doença a pessoa ainda tem que lutar com o tormento da culpa de achar que SE fosse uma pessoa melhor, SE não “tivesse pecado”, SE tivesse feito isso ou aquilo poderia ter se livrado da doença. O pior é que este tipo de raciocínio gera algo perverso e perigoso, a pessoa decide que vai se curar se tornando “um ser humano melhor” e para de tomar a medicação indicada. Aí as crises se tornam recorrentes e cada vez mais fortes.

É preciso fazer uma campanha sistemática e séria contra esta prática porque sabe o que estas disfunções são? São o funcionamento cerebral alterado, em muitos casos são distúrbios químicos do cérebro que tem que produzir “x” substâncias para funcionar direito mas produz só a metade, ou nada, ou só um pouco do que deveria.

O mau funcionamento cerebral não tem nada a ver com falta de fé, com falta de esforço, com má vontade. É química, é o corpo falhando, é humano.

Se você tem algum destes diagnósticos pare de se culpar por sua “falta de fé” ou por sua “preguiça” e comece a estudar como (além de tomar medicamento) você pode ajudar seu corpo a produzir mais serotonina e mais endorfina.

Se você é um dos críticos de plantão que demoniza estes diagnósticos, pare já com esta sandice. Se quer ajudar alguém com depressão não acrescente mais peso ou mais culpa, apenas acolha, ouça, faça companhia, chame pra tomar um café, um chá, um suco, fazer uma caminhada.

Amor, empatia e tempo disponível são muito mais eficazes que esta demonização indiscriminada que só acrescenta sofrimento.

Eva Cordeiro é economista e professora universitária. Escreve todas as terças-feiras.

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