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Sobre Temer, a votação e reação do mercado: não foi apoio, foi cansaço

Michel Temer, presidente do Brasil. (Foto: Reprodução)

“O Brasil está envolvido em duas agendas: reformar o gasto público e combater a corrupção. Não pode abrir mão de uma delas em nome da outra, pois a corrupção torna o saneamento financeiro impossível através das propinas e dos bilionários desvios”

O mercado reagiu positivamente ao arquivamento da denúncia contra Michel Temer com o dólar recuando e a bolsa de valores subindo. A internet explodiu em memes que diziam basicamente “não importa a corrupção se o mercado está em alta” e outras frases similares.

Na verdade, o movimento do mercado não significa apoio e sim uma desesperada necessidade de um mínimo de estabilidade política e governabilidade. O mercado assumiu uma posição em que entende que “ruim com ele, pior sem ele” em relação a Temer e o fato da denúncia ser arquivada significa menos solavancos na política para a economia continuar se recuperando ainda que a passos pequenos e lentíssimos.

Muitos governistas votaram afirmando que era preciso manter o presidente Michel Temer no cargo porque o governo está tocando uma agenda de reformas econômicas. Entretanto, os votos foram em sua maioria uma troca de favores por maior espaço no governo e também para preservação da própria pele, pois ao impedir a investigação contra o presidente muitos pensam estar se preservando de futuras investigações. Ou seja, o sistema funciona totalmente em autodefesa, já não tem mais nenhuma relação com representação.

Veja a que ponto chega o Brasil: temos um sistema político tão caótico, fisiologista e endogâmico que o mercado se vê diante da falácia aonde a recuperação econômica parece só ser possível com a tolerância do arquivamento de uma denúncia de corrupção.

A reação do mercado não significa apoio a Temer, significa cansaço da nossa gritante instabilidade política.

Desde 2015 estamos mergulhados em uma grave crise econômica causada por políticas internas e externas irresponsáveis e insustentáveis que jogaram o país num tsunami de recessão, arrocho e desemprego agravadas imensamente pela queda do preço das commodities. O suspiro de alívio do mercado é muito mais em relação à continuidade da equipe econômica e à esperança que os gastos públicos sejam equalizados do que qualquer outra coisa.

Por outro lado, a situação dos cofres públicos é dramática. Sem condições de cumprir a meta fiscal deste ano, de déficit de até R$ 139 bilhões, o Tesouro Nacional está suspendendo uma série de pagamentos e cortando o que pode de despesas. Henrique Meirelles já sinaliza aumentar a meta para R$ 150 bilhões e há uma dicotomia entre o que diz a equipe econômica e o que faz o Planalto.

O Brasil está envolvido em duas agendas: reformar o gasto público e combater a corrupção. Não pode abrir mão de uma delas em nome da outra, pois a corrupção torna o saneamento financeiro impossível através das propinas e dos bilionários desvios. Não é para escolher entre uma ou outra agenda. Sair da crise será mais fácil combatendo-se os desvios que minaram a economia e contaminaram a política.

Eva Cordeiro é economista, professora universitária e diretora de Indústria e Comércio do município de Anápolis.

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