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A farsa da “Ideologia de Gênero” e o real perigo por trás disso.

Primeiro, devo começar pedindo para que você leia o texto, antes de ir xingar nos comentários. Segundo, leia o texto antes de xingar nos comentários. E terceiro, leia o texto antes de vomitar preconceito ou reproduzir discursos de ódio de alguém nos comentários. Dito isso, vamos ao motivo deste texto: Como os vereadores de Anápolis estão sem nada pra fazer, a cidade está 100% perfeita e a população tem sido atendida em todas as demandas, em que os legisladores nos representam, um deles, achou por bem realizar uma audiência pública pra discutir a famosa (e inexistente) “Ideologia de Gênero” em Anápolis e o perigo dela ser adicionada na Base Nacional Comum Curricular, que sequer está sob a governabilidade dos legisladores municipais. Foi só mudar o plenário da Câmara para um lugar melhor, eles já acharam que estão no Congresso Nacional.

De um tempo pra cá, a humanidade, como um todo, tem evoluído, e passado a tratar os diferentes com dignidade e respeito. Porém, no Brasil, temos caminhado à passos largos, para trás. Alguns fanáticos religiosos (perceba que falei “alguns” e não todos os religiosos) conseguiram chegar ao congresso, e provar que é possível viver no Século XXI, com valores da Idade Média.

Enquanto diversos países já legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e facilitaram a adoção de crianças abandonadas por casais heterossexuais, no Brasil, apesar dos esforços contrários da bancada evangélica, desde 2011 era permitida a união civil entre pessoas do mesmo sexo, e em 2013 o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) regulamentou, por meio de uma portaria o casamento entre homossexuais em todos os cartórios do país. Os cartórios que se recusarem a realizar os casamentos podem, inclusive, ser punidos.

Essa decisão do CNJ foi o estopim que faltava para acirrar ainda mais a perseguição contra gays. Como estava ficando feio atacar casais gays e seu direito constitucional de se casarem, a bancada evangélica partiu para outras frentes, como o Estatuto da Família, que corre a passos largos no congresso, criado exclusivamente para definir família como a união entre homem e mulher, e assim invalidar a decisão do CNJ.

Como ser homofóbico está ficando feito, e qualquer pessoa com mais neurônios que um comentarista de portais de notícia já entendeu que ninguém escolhe ser gay, e nem é possível transformar héteros em gays, ou vice-versa, foi preciso inventar um novo inimigo pra justificar sua perseguição descerebrada por gays, afinal o maior problema do país são casais homossexuais querendo viver suas vidas sem medo de serem mortos. Corrupção e bandidagem? Isso não é nada perto da ousadia de um casal gay querer viver junto.

Assim a bancada fundamentalista criou a “Ideologia de Gênero”. Sim, isso não é invenção de gays que querem transformar o mundo em uma versão estendida de “Priscila a rainha do deserto”, com todas as crianças usando rosa e adorando Madonna como presidenta do universo. Sim, não existe nenhum, (isso mesmo, NENHUM), estudo, livro, material, artigos ou teses sobre “Ideologia de Gênero” no mundo científico. Nenhum! Aproveitando-se da ignorância de seus seguidores, esses líderes fanáticos, sedentos por poder, criaram uma nova ferramenta pra alimentar a homofobia pelo país. As únicas referências que você vai encontrar sobre esse tema na internet são em sites fundamentalistas e páginas de líderes religiosos, que coincidentemente, ganham rios de dinheiro explorando a ignorância alheia. Nenhuma pessoa séria no mundo científico sequer usa este termo.

O primeiro ato neste grande circo, aconteceu durante a votação do PNE (Plano Nacional de Educação) que aprovado, com quase quatro anos de atraso, em 2014, com veto ao artigo que falava de combater discriminação. O texto vetado colocava como meta “a superação de desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual“. Sim, era apenas isso que estava no PNE: superação de desigualdades, com ênfase na promoção de igualdades, entre elas a de gênero e de orientação sexual. Sequer usaram a palavra “homossexual”. Quando falamos de gênero estamos falando, inclusive, das desigualdades entre homens e mulheres, mas o foco aqui são os gays, né? Afinal, mulheres ganham o mesmo que homens e são respeitadas em todos os lugares.

Esse artigo foi suficiente para alguns líderes fanáticos, cheios de má fé, e uma fúria ensandecida, começassem uma nova inquisição contra a fictícia ideologia de gênero. De acordo com esses servos do “Deus do amor”, os gays malvados que querem dominar o mundo e transformar todos em gays, criaram uma ideologia que transformaria todas as crianças do mundo em mini-gays que sairiam por aí gritando “lacrou”, “berro” e “Viva a Lady Gaga!”. Acontece que na vida real a coisa é bem diferente do que este discurso de ódio gratuito tenta fazer você acreditar.

Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que tudo não passa de lorota, como pano de fundo para discurso homofóbico. Diversas pesquisas mostram que homossexualidade não pode ser ensinada ou “influenciada”, como estes líderes mal intencionados querem que você acredite. Hoje existe um consenso no meio científico que estabelece a orientação sexual como fruto de um mix de fatores, sendo eles genéticos, biológicos, sociais e ambientais. Isso vale tanto para a homossexualidade quanto para a heterossexualidade.

Portanto, assim como ninguém te ensinou a ser hetero, nenhum gay no mundo vai conseguir transformar seu filho em um ser purpurinado e seguidor de Santa Cher, apenas por falar de igualidade de gênero nas escolas. Tanto que isso sequer estava previsto no texto original do PNE, que dizia apenas ter como meta acabar com essas diferenças em razão de sexo ou orientação sexual.

Num país, onde um gay morre a cada 28 horas, vítima de homofobia, era no mínimo decente, se acrescentar como metas para a educação o fim da perseguição de crianças em escolas por serem gays. Logo na Escola, onde a criança começa a se desenvolver socialmente, onde ela aprende a lidar com o diferente, e onde também reproduz os preconceitos aprendidos em casa. Ninguém vai ensinar sobre sexo para crianças, como esses mau caráteres querem te fazer acreditar. O objetivo era apenas ensinar respeito ao diferente.

Afinal, As crianças, por não terem ainda adquirido alguns filtros sociais, como nós adultos deveríamos ter, acabam sendo cruéis. O que se pretendia era justamente ensinar a essas crianças que ninguém merece apanhar ou ser tratado mal por ser gay ou mulher. Retirar esse artigo do PNE, levou o Brasil a um enorme retrocesso no campo social, nos fazendo ser comparados com países fundamentalistas do nível do Irã e Arábia Saudita, onde ser gay é crime, e que mulheres devem ser submissas e obedientes, tendo menos direitos que um robô.

Como muitos educadores não são fantoches destes líderes homofóbicos, questões como estas de bullying contra crianças gays, continuaram sendo trabalhadas nas escolas, ignorando a ausência deste assunto no PNE, que é apenas um norteador e não um livro de regras engessado. Isso deixou a bancada fundamentalista ainda mais irada, afinal como alguns professores tinham a ousadia de enfrentar os bastiões da verdade e do amor que estavam decidindo o que devia ser feito no país?

Não bastava não terem nenhum fundamento científico para justificar o ódio pela tal ideologia de gênero. Aliás, não bastava nem conseguirem provar a existência de tal ideologia, já que a ciência diz que ninguém se torna gay ou hétero, simplesmente nasce assim. A bancada evangélica decidiu então, que sua homofobia doentia precisava dar um passo a diante e o Senador Magno Malta, aquele exemplo de cristão (Indiciado em operação da PF, que tem emails indicando repasses de dinheiro, que fez viagens suspeitas com nosso dinheiro à Dubai e que tem uma família envolvida em coisa errada), criou o projeto Escola sem partido.

O projeto, tinha como pretexto proteger as pobres crianças brasileiras da doutrinação comunista que tem sido feita há anos no país. Prova disso é o tamanho das bancadas do PSTU e do PC do B no Congresso, os comunistas dominaram o Brasil. Não, pera! O projeto em si é tão absurdo que até o Ministério Público Federal já se pronunciou contra, dizendo que é inconstitucional.

O ponto principal da lei é justamente o trecho em que diz que “O Poder Público não se imiscuirá (se intrometerá) na opção sexual (ninguém no mundo além desses fundamentalistas tratam orientação sexual como opção!) dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

Olha aí a danada da Ideologia de Gênero de novo. E, sim! Eles conseguiram enfiar ela num projeto de lei que tratava de doutrinação política em escolas. Querem proibir a aplicação de algo que eles sequer têm como provar a existência. Não vou repetir mais uma vez que a ideologia de gênero não existe, pois já está repetitivo. Mas repetitiva também, está a obsessão desses líderes religiosos pelo aparelho excretor alheio. Este tipo de movimentação política apenas alimenta o ódio e a homofobia. Não por acaso é comum ler manchetes mostrando jovens que apanharam ou foram perseguidos, e até mesmo mortos, por serem gays.

Em Anápolis, devido à tradição cristã da cidade, é comum surgirem fundamentalistas se achando representantes das “pessoas de bem” da cidade. Inclusive, um político fundamentalista, que se acha o Bolsonaro do Cerrado, e possui uma mania de grandeza incrível, achou que o preço de um sabão em pó, de promoção em apenas um supermercado da cidade, foi devido à desvalorização que a marca sofreu depois que ele incitou os seus alienados, digo, seguidores a boicotar a marca.

E se é para boicotar empresas que apoiam a inexistente “ideologia de gênero”, senta que a lista é grande: Primeiro, comecem excluindo o perfil no Facebook, Instagram e Whatsapp. Coca-cola e mesmo Pepsi nem pensar! Trate de jogar fora seu smartphone. Não importa a marca. Pois Google (criadora do Android), Microsoft e Apple também apoiam o casamento gay. American Express, Visa e Mastercard também estão na lista, portanto, quebre seus cartões de crédito e do banco agora. E nem adianta xingar muito no Twitter, pois a empresa também apoia a causa gay. A lista é enorme, e aqui nesse link você pode ver como voltar a morar em uma caverna depois de boicotar praticamente tudo.

É triste ver cristãos usando a bíblia como justificativa para ódio e perseguições. Só faltam as fogueiras para voltarmos de vez para a Idade Média. O engraçado é que os livros da Bíblia que servem de base para alimentar o preconceito, também apresentam a permissão para vender uma filha (Ex 21, 7), ou condenar à morte os que trabalham no sábado (Ex 35, 2). Lembrem-se também que a mesma Bíblia proíbe comer carne de porco, ou mesmo tocar em um (Lev 11, 7-8), ou seja, Bacon te leva para o inferno! Moluscos também, está lá no versículo 10, do mesmo capítulo. Você pode ter escravos, e quem planta vegetais diferentes alinhados ou usa roupas com tecidos diferentes deve morrer. Nunca vi ninguém protestando contra a ideologia do bacon, que é pecado!

Esse vereador, e outros líderes fanáticos deveriam repensar sua missão, pois Jesus é claro em João 13, 34-35 quando diz: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.

Amor ao próximo é justamente o que está em falta. Ao pregar ódio e perseguições de pessoas que querem apenas o direito de viverem suas vidas sem serem agredidas ou mesmo mortas, essas pessoas ficam mais próximas do diabo do que de Cristo, afinal é impossível ver Jesus, que andava com prostitutas e “bandidos” excluídos pelos líderes religiosos da época, refletido nessas pessoas.

É absurdo que em pleno século XXI, tenhamos que combater pensamentos e preconceitos que parecem ter saído de um livro da Idade Média. Não existe ideologia de gênero, não existe uma conspiração global para transformar todas as crianças do mundo em gays e não existe motivo para não se falar de preconceito e discriminação na escola. Não podemos deixar que esta teocracia absurda seja implantada em nosso país que, pelo menos em teoria, continua sendo laico. Talvez precisemos menos de vereadores homofóbicos e mais de Franciscos, que ensinou a todos uma oração maravilhosa que nos lembra como ser uma pessoa melhor, nos mostrando que devemos levar o Amor onde há o ódio, o perdão onde há ofensa e união onde há discórdia. Que procuremos mais consolar que ser consolados, compreender que ser compreendidos e amar que ser amados. Quem sabe possamos ainda viver em um mundo melhor.

 

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