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O passado macabro de atravessador que coloca medo em gente poderosa de Anápolis

Edmilson Neves de Souza. (Foto: Facebook)

Mesmo condenado a 21 anos de prisão, e com pouco tempo na cidade, ele construiu relações suspeitas com políticos, médicos e até mesmo hospitais e instituições filantrópicas

No mundo da política anapolina não é pequeno o número de pessoas que torcem para que o caso do ‘atravessador da saúde’, revelado à imprensa pelo prefeito Roberto Naves (PTB) na última quinta-feira (29), caia no esquecimento.

Porém, as minúcias dessa história têm radioatividade suficiente para desembocar em um grande escândalo na cidade e criar um inferno astral entre servidores públicos, médicos, vereadores, deputado e até mesmo executivos de hospitais privados e associações filantrópicas com personagens envolvidos até à medula em caridades com o dinheiro alheio.

A partir desta segunda-feira (03), o Portal 6, após sistemática apuração e investigação própria ainda em curso, passa a noticiar de forma agendada detalhes espinhosos que partem dessa ponta do novelo exposta na semana passada.

A ligação

No final da manhã do dia 19 de novembro, uma segunda-feira, “Valmir du Couro” estava na Praça James Fanstone, no Centro de Anápolis, quando ligou para Roberto Naves. Vereador eleito pelo PTB no pleito de 2016 em Porangatu, o comerciante ficou furioso quando soube que apenas um stent foi colocado no pai dele, Nilson Ribeiro, durante uma cirurgia no Hospital Evangélico Goiano (HEG).

O idoso necessitava de duas endopróteses no corpo, mas apenas uma foi autorizada pelos SUS no dia 15. Foi quando Valmir recorreu a Edmilson Neves de Souza, ex-morador de sua cidade, que atualmente vive em Anápolis e esconde um passado tenebroso.

Ligado a muitos políticos, o rapaz vive a pouco tempo por aqui. Desde dezembro de 2017, um habeas corpus permitiu que ele recorresse em liberdade à condenação de homicídio duplamente qualificado por ter matado envenenado, no ano de 2006, Manoel Luiz Pereira Gualberto para ficar com o dinheiro de um seguro.

Dinheiro, aliás, é o que parece mover Edmilson. Foi entregando R$ 10 mil em espécie nas mãos do homicida que o vereador Valmir pensou que conseguiria garantir a colocação dos dois stents que o pai precisava.

Conforme Boletim de Ocorrência registrado na Polícia Civil, Edmilson disse ter repassado o dinheiro para o cardiologista Alexandre Henrique Ribeiro, médico lotado na Regulação da Prefeitura de Anápolis e responsável por autorizar os procedimentos cirúrgicos custeados pelo SUS na rede privada de hospitais conveniados.

Cardiologista citado como recebedor dos R$ 10 mil de vereador trabalha na Regulação da Prefeitura de Anápolis. (Foto: Reprodução/ Polícia Civil)

Porém, após o término da cirurgia, ao questionar o cirurgião cardiologista Flávio Canedo, Valmir soube da boca do médico que apenas um stent foi implantado. Quando colocado a par do ‘combinado’, o médico teria dito ao vereador que ‘não tinha nada a ver com isso’.

Surgiu daí a irritação de Valmir e a iniciativa dele em ligar para Roberto contando que havia sido passado para trás.

Segundo o prefeito, para não prevaricar e ser envolvido na história, decidiu acionar a polícia e pedir que Edmilson fosse localizado e levado juntamente com o vereador para a delegacia.

Ao delegado plantonista William Martins, Edmilson confessou ter recebido os R$ 10 mil e repassado a grana ao ‘Dr. Alexandre’. Remetido ao 1ºDP, o caso está sendo investigado como estelionato, mas a evidente corrupção não deve passar ilesa ao Ministério Público.

O mais provável é que o caso passe a ser acompanhado pela 11º Promotoria Pública, cujo o titular é Arthur José Jacon Matias, mesmo promotor que conseguiu bloquear na Justiça os bens dos ex-prefeitos Antônio Gomide (PT) e João Gomes (ex-PT), acusados de improbidade administrativa na faraônica e defeituosa obra da Câmara Municipal de Anápolis.

Enquanto isso, “Valmir du Couro” aproveita os quase 400 km que separam Anápolis de Porangatu para esconder o que fez. Se algum colega vereador de lá quiser acioná-lo por falta de decoro terá primeiro de criar uma comissão de ética, instância ainda não implantada nessa legislatura na Câmara daquela cidade.

Já Edmilson, se quiser abrir a boca, terá muito mais o que contar. Ativo nas redes sociais, o moço foi ligeiro em trocar o número de celular e não dar mais as caras na ‘Casa de Acolhida’ da Prefeitura de Porangatu, localizada na Rua Brasil, nº 312, na Vila Santa Isabel, região Nordeste de Anápolis.

Casa de Acolhida da Prefeitura de Porangatu, em Anápolis, é local onde Edmilson pode ser visto com frequência. (Foto: Danilo Boaventura)

É lá, conforme os próprios hóspedes, que ele ‘ajuda quem precisa de internação, remédio e cirurgia’.

“Aqui, quem encontra dificuldade pede ajuda ao Edmilson”, afirmou uma senhora ouvida pela reportagem.

Julgamento

No próximo dia 11 de dezembro, ele será julgado em segunda instância pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás. Se sair de lá com a condenação confirmada, Edmilson voltará para atrás das grades e a Vara de Execução Penal de Porangatu poderá solicitar a transferência dele para o presídio da cidade.

Será um alento para a família de Manoel, que enfim poderá vê-lo cumprir integralmente os 21 anos e nove meses em regime fechado pelo qual foi condenado.

Estão na mesma torcida pelo menos dois parlamentares de Anápolis, que já teriam recorrido aos serviços de Edmilson e que agora querem distância dele.

Silêncio

Procurado pelo Portal 6, o vereador “Valmir du Couro” preferiu não falar, mas ainda se vê como vítima do episódio. “Não tenho nada para pronunciar. Vou aguardar as investigações”, disse por meio do WhatsApp.

O HEG também foi procurado para confirmar o diálogo entre o vereador e o médico. No entanto, o hospital preferiu o silêncio e não quis responder se o profissional reportou o caso à direção.

Os cardiologistas Alexandre Henrique e Flávio Canedo não foram localizados para falar dentro da reportagem.

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