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Foi assim o 1º dia de aula de creche em Saudades após chacina que matou professora e crianças

Secretária, que esteve na creche pela manhã, conta que, apesar da aparência de tranquilidade, há uma percepção de medo na comunidade

Folhapress Folhapress -
(Foto: Reprodução)

Fernanda Canofre, do RS – A sala onde ocorreu o ataque que terminou nas mortes de três crianças e duas funcionárias, no último dia 4 de maio, em Saudades (SC), já não existe mais na creche Pró-Infância Aquarela.

A prefeitura derrubou as paredes e deixou um local aberto, de livre circulação, no antigo espaço, para tentar virar a página do crime que abalou o município de menos de 10 mil habitantes, no oeste catarinense.

Os pais que deixaram as cerca de 15 crianças na creche na manhã desta segunda-feira (24) para a retomada das atividades, 20 dias depois do crime, encontraram um ambiente diferente, reformado.

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“É o marco de um recomeço, de uma comunidade que tenta amenizar a dor, mas também pensando na continuidade do atendimento as crianças, pois essa é a única unidade que atende crianças nesta faixa etária no município”, disse o prefeito Maciel Schneider (PSL).

Funcionários trabalharam desde a semana passada no prédio para preparar o retorno. A prefeitura contou com a ajuda de clubes de serviço voluntários, pais e professores para a reforma do espaço, segundo Schneider.

Com cerca de 80 alunos, a Aquarela já estava trabalhando com capacidade reduzida de público devido à pandemia de Covid-19. No momento do crime, havia 40 pessoas no local -19 crianças e 21 funcionários, entre professores e agentes educativos, de acordo com o Ministério Público de Santa Catarina.

“Esse sentimento de tristeza, de baque, está todo dia junto com a gente. Ainda há o sentimento triste por aquelas que não vão voltar. Mas, por outro lado, um sentimento de alegria de ver as criancinhas voltarem, porque as famílias precisam de nós”, afirma a secretária municipal de Educação, Gisela Hermann.

A secretária, que esteve na creche pela manhã, conta que, apesar da aparência de tranquilidade, há uma percepção de medo na comunidade. A creche atende crianças na faixa em torno de dois anos de idade.

Desde a chacina, que tem como suspeito Fabiano Kipper Mai, 18, todas as escolas municipais passaram a ter segurança física contratada pela prefeitura e videomonitoramento para o retorno às aulas. No dia 12, o governador Carlos Moisés (PSL) anunciou que todas as 1.064 escolas da rede estadual terão vigilância humana.

A mudança é sinal da preocupação que tomou conta do município em que as pessoas não costumam trancar os portões e que registrou oito homicídios e dois latrocínios entre 2008 e 2020, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina.

Em 2021, os únicos assassinatos registrados em Saudades foram os das cinco vítimas da chacina na creche: as funcionárias Keli Adriane Aniecevski, 30, e Mirla Amanda Renner Costa, 20, e as três crianças menores de dois anos.

“Mesmo sendo uma cidade muito tranquila, temos que transformar praticamente nossas escolas num presídio, porque a gente tem essa insegurança”, disse Hermann.

Ela afirma ainda que professores estão recebendo apoio psicológico e que o governo do estado deve contratar em breve 25 psicólogos e cinco agentes sociais para ajudar a população e as famílias pelo tempo que for necessário.

A Polícia Militar diz que está realizando trabalho de inteligência e de ronda locais em todas as unidades escolares do estado.

Na manhã do dia 4 de maio, Kipper Mai invadiu a creche e atacou funcionários e crianças com um facão, matou cinco pessoas, deixou um bebê de um ano e oito meses ferido e tentou tirar a própria vida em seguida, se cortando no pescoço.

Na última sexta-feira, o Ministério Público de Santa Catarina denunciou o jovem por 19 homicídios triplamente qualificados, cinco deles consumados e 14 tentativas, apontando a dificuldade de defesa das vítimas e o motivo torpe.

Em entrevista a jornalistas, a Promotoria afirmou que as investigações conduzidas pelo MP e pela Polícia Civil de Santa Catarina apontaram que o suspeito planejou o ataque por pelo menos 10 meses e que a motivação teria sido a busca por reconhecimento e fama.

O suspeito, de acordo com o MP, participou de fóruns na internet comentando crimes violentos e pesquisou serial killers e armas de fogo durante esse período. Ele também havia feito pesquisas sobre o retorno das aulas presenciais em Santa Catarina, especificamente no município de Saudades e, na véspera do crime, fez buscas sobre a creche Aquarela.

“O que denota que ele vinha planejando há muito tempo esse ataque, não foi nada por acaso. Foi um atentado já antevisto por ele, desde aquele momento que delineou o alvo mais fácil, onde ele poderia ter êxito e garantir sua ação criminosa, vil, abjeta e extremamente covarde”, afirmou o promotor Douglas Dellazari, responsável pelo caso.

A reportagem tentou contato com a defesa do jovem, mas não obteve retorno até a publicação. Kipper Mai segue no presídio masculino de Chapecó, a cerca de 67 quilômetros de Saudades.

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