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Mãe de Luciano Hang recebeu ‘kit Covid’, mas prontuário diz que causa da morte foi pneumonia

O documento relata que a paciente recebeu tratamentos precoces de medicamentos ineficazes contra a doença, como azitromicina

Folhapress -
O empresário Luciano Hang, dono da Havan, durante cerimônia de lançamento da ID Estudantil, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress).

CONSTANÇA REZENDE E RENATO MACHADO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O prontuário médico da mãe do empresário bolsonarista Luciano Hang afirma que ela morreu em consequência de uma pneumonia bacteriana e não cita a Covid-19, motivo pelo qual foi internada na unidade hospitalar Sancta Maggiore (em São Paulo), como causa da morte.

O documento, que tem cerca de 2.000 páginas, foi elaborado pela Prevent Senior, operadora que controla o hospital em que Regina Hang morreu.

Além disso, o prontuário, obtido pelo jornal Folha de S.Paulo, também relata que a paciente recebeu tratamentos precoces de medicamentos ineficazes contra a doença, como azitromicina, hidroxicloroquina, prednisona e colchicina, antes de morrer.

A informação é dada quando médicos afirmam que Regina apresentou uma evolução grave em seu quadro. “Teve piora ontem, realizada outra TC [tomografia computorizada] de tórax com importante piora de extensão das lesões pulmonares (55% para 90%) e surgimento de lesões sugestivas de infarto pulmonar. Já com anticoagulação plena”, diz. Os documentos também estão em poder da CPI da Covid.

A declaração de óbito da mãe do dono da rede Havan diz que ela morreu no dia 3 de fevereiro deste ano aos 82 anos pelas seguintes causas: “disfunção de múltiplos órgãos, choque distributivo refratário, insuficiência renal, pneumonia bacteriana, síndrome metabólica e acidente vascular cerebral”.

Um dossiê assinado por 15 médicos da Prevent Senior e encaminhado à CPI afirma que prontuários médicos da operadora foram fraudados para esconder as causas da morte de diversos pacientes e para ocultar qual tratamento eles receberam. O diretor-executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior, presta depoimento à CPI nesta quarta (22).

Em um vídeo divulgado em suas redes sociais, o empresário dono da rede Havan havia afirmado que sua mãe poderia ter sido salva se tivesse feito o tratamento preventivo da doença.

“Eu sempre falo: não podemos mais cuidar de quem morreu, mas podemos cuidar de quem está vivo. Tome a decisão acertada. Eu me cobro hoje que eu poderia ter salvado a minha mãe, de repente, se eu tivesse feito o preventivo, será que nós não poderíamos ter feito isso? E agora eu fico me perguntando, e se eu tivesse feito, será que ela não estaria viva? Reflita. Obrigado”.

Procurado pela reportagem, ele não se manifestou até a publicação deste texto.

Regina foi internada no dia 1° de janeiro deste ano com Covid-19, segundo seu prontuário, “evoluindo com desconforto respiratório”. Ela também chegou a receber ivermectina, já internada no hospital da operadora, outra medicação sem eficiência contra o vírus.

Houve ainda tratamento de ozonioterapia retal, prescrito por médicos particulares e não vinculados à operadora, segundo relatou a própria Prevent Senior em um processo movido contra médicos que denunciaram à empresa ao Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo).

Um deles foi feito quatro dias após a sua internação, pela médica Maria Emilia Gadelha Serra, que ficou conhecida após aparecer num vídeo publicado no YouTube em que tirou dados de infecções entre vacinados de contexto e citou informações de efeitos adversos pós-vacinação que não tinham confirmação técnica -como que componentes das vacinas causariam demência.

Maria Emilia aplicou ozonioterapia em Regina com ela intubada havia 22 horas, em pronação e sedada. “Realizados procedimentos de Ozonioterapia, sem intercorrências”, “Insuflação retal de ozônio medicinal – 270 mL em 40 mcg/mL”, completa. Ela também recomendou vitamina C à paciente e reavaliação em 24 horas.

O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou nesta quarta que a comissão tem provas de que o empresário Luciano Hang pediu para que os médicos que trataram sua mãe não divulgassem que ela teria sido medicada com o chamado “kit Covid”.

Hang é um dos principais defensores do chamado tratamento precoce, com medicamentos sem eficácia comprovada para tratar a Covid-19.

“Há uma farsa que essa comissão provará que aconteceu. Infelizmente. Porque um filho que utiliza dessa forma a sua mãe, com Covid no hospital com os medicamentos do tratamento precoce. E nós temos comprovação e ele recomendou a médicos ‘olha, escondam que a minha mãe foi tratada com cloroquina para não desmerecer a eficácia do plano”, disse o relator.

Renan em seguida classificou essa situação como “uma coisa macabra, vergonhosa, reprovável, repugnável sob qualquer aspecto”.

O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que Hang levou sua mãe, de Santa Catarina para São Paulo, justamente para que ela fosse tratada com o “kit Covid”. “O senhor [Hang] é um homem de posse e colocaria a sua mãe e levaria para a lua para salvá-la.”

“Ele teria condições de alugar um foguete para a lua. Ele levou para a Prevent Senior, que não é um dos melhores hospitais de São Paulo”, completou.

No caso de Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, o documento aponta que ela usou o chamado “kit Covid”, contrariando declaração de seu filho após a sua morte.

“O prontuário médico da sra. Regina Hang prova que ela usou o kit antes de ser internada e que repetiu o tratamento durante a internação, assim como registram que seu filho, o sr. Luciano Hang, tinha ciência dos fatos”, aponta o documento.

“Como outros tantos casos de óbitos na rede Prevent Senior decorrentes da Covid-19 que não foram devidamente informados às autoridades, a declaração de óbito da sra. Regina Hang foi fraudada ao omitir o real motivo do falecimento”, completa o arquivo.

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