Fraturas nas rochas e erosão por água e vento explicam desabamento em Capitólio

Acidente terminou com pelo menos sete mortos e 32 feridos confirmados até o momento

Folhapress -
Geólogo do Instituto de Geociências da USP, Cláudio Riccomini, detalha que as rochas que formam os cânions de Capitólio são de dois tipos. (Foto: Reprodução)

As rochas do cânion em Capitólio (MG) que se desprenderam e caíram sobre duas lanchas, causando um acidente com pelo menos sete mortos e 32 feridos, já possuem naturalmente diversas fraturas que favorecem esses deslizamentos de blocos de tempos em tempos.

Essa condição, que é um processo natural da própria formação rochosa, aliada à erosão causada pelo impacto da água e do vento no paredão podem ter levado ao acidente registrado neste sábado (8).

Segundo o geólogo do Instituto de Geociências da USP Cláudio Riccomini, as rochas que formam os cânions de Capitólio são de dois tipos: as sedimentares, que foram depositadas ao longo de milhares de anos em uma posição quase horizontal (o que explica o estrato rochoso em várias camadas que pode ser visto em fotos da região) e que depois sofreram um processo conhecido como metamorfose, quando tanto processos físicos quanto químicos alteram essa rocha.

“Esse processo levou às fraturas que também podem ser observadas ao olhar por exemplo uma imagem tirada por drone desses cânions”, explica.

As fraturas presentes são, inclusive, responsáveis pela formação das escarpas verticais tão populares entre os turistas que visitam o local. “Aquele cânion só existe porque em outros momentos no passado houve também o desabamento da rocha, e isso é evidenciado pelas fraturas quase verticais [em posição próximo a um ângulo de 90?) vistas nas imagens do acidente de hoje”, afirma.

O processo de deslizamento, no entanto, foi acelerado por dois outros processos que ocorrem: o intemperismo e a erosão. O primeiro é caracterizado pelo desgaste físico ou biológico da rocha, e pode ter como causa a água ou o vento (físico) e a vegetação (biológico).

O segundo é o processo de retirada e transporte dos sedimentos produzidos pelo intemperismo, com a deposição no leito do rio, e está também associado à água.

O Lago de Furnas, criado em 1963 e que criou o ambiente turístico em volta dos cânions, intensificou esse processo de erosão pela água.

De acordo com Riccomini, as barragens artificiais, seja para uso da água como reserva, seja para fins comerciais ou turísticos geralmente contornam o segundo problema com algum tipo de impermeabilização das margens do lago.

“Para reduzir o impacto que as ondas provocam na rocha, é comum fazer a impermeabilização com concreto [barragens] ou com rochas menores, porque assim a onda chega com uma energia reduzida naquela escarpa rochosa e evita a erosão”, explica. “No caso do cânion [de Capitólio], isso não é possível porque o paredão rochoso é vertical e muito extenso.”

Como não há uma proteção, as rochas estão frequentemente sujeitas ao impacto das ondas provocadas tanto pela movimentação da água quanto pela própria atividade com barcos e lanchas. Uma porção da rocha submersa fragilizada, diz, torna todo o cânion mais suscetível a um desabamento na parte de cima, pois a base fica erodida.

Já em relação ao intemperismo físico, o também geólogo e professor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, Colombo Celso Gaeta descreve como a água que vem das chuvas pode provocar uma pressão maior sobre as rochas.

“A chuva penetra nas fraturas já existentes na rocha, porque a composição desses cânions, com quartzito, ele já é naturalmente fraturado, e causa uma pressão d’água dentro dessas rachaduras e pode ter ocorrido o desprendimento”, diz.

Tanto Gaeta quanto Riccomini, porém, dizem que essas são possíveis explicações para o que ocorreu, mas só estudos geológicos mais aprofundados podem definir com 100% de certeza o que houve.

O fato é que desabamentos em cânions são processos naturais e que podem ocorrer a qualquer momento, e é por isso que é importante fazer o mapeamento dessas estruturas rochosas e, possivelmente, a prevenção das quedas.

“Devido a essa natureza da rocha, esse processo de queda que ocorre há centenas de milhares de anos, o ideal era olhar o topo dos cânions a quantos metros ele está e definir uma distância segura para as atividades, não chegando próximo às encostas”, afirma Riccomini.

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) possui inclusive um sistema de monitoramento dos geossítios brasileiros, além de áreas envolvendo os geoparques, chamado Geossit (Sistema de Cadastro e Quantificação de Geossítios e Sítios da Geodiversidade) responsável por mapear e monitorar esses locais, com indicadores como valor turístico e risco de degradação.

A última informação disponível sobre o geossítio Canyons de Furnas, em Capitólio (MG) é do último dia 17 de dezembro, onde o risco de desabamento foi classificado como baixo.

As chuvas intensas que ocorreram nos últimos dias podem ter acelerado esse processo, pois com o aumento da pluviosidade aumenta também a atividade de erosão causada pela água. No mesmo momento do deslizamento, é possível ver uma cabeça d’água no local, que é caracterizado por uma subida repentina do nível da água causada pelo volume da chuva.

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