Putin é obcecado pela Ucrânia e quer ser czar, mas está sem saída, diz biógrafo

Não é uma obra que busca trazer respostas, mas elementos para compreender um dos personagens mais complexos do nosso tempo

Folhapress -
Presidente da Rússia Vladimir Putin. (Foto: Reprodução/ Getty Images)

DANILO THOMAZ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quem, afinal, é Vladimir Putin? Um estadista ou um megalômano? Um gênio do mal ou um herói da Rússia? Se você espera ter essas respostas atendidas, a biografia do presidente russo escrita pelo jornalista Steven Lee Myers não é para você. Ou talvez seja. “O Novo Czar: Ascensão e Reinado de Vladimir Putin” (Amarilys), recém-lançada no Brasil, é uma obra que não busca trazer respostas, mas elementos para compreender um dos personagens mais complexos do nosso tempo.

“Ele é um personagem fascinante. Há pessoas que pensam que ele é o demônio, que ele sempre planejou fazer isso [a invasão à Ucrânia]. Ele é um calculista, busca tirar vantagens das oportunidades que aparecem. Mas eu acredito que há uma visão fundamental em relação à Rússia, um respeito pela Rússia, para ele a Rússia deve ter um grande poder, é um grande poder. Ele busca por isso”, analisa o jornalista, que foi correspondente na Rússia entre 2000 e 2007, período dos dois primeiros governos Putin.

“E ele exige essa veneração num certo grau.” Nisso, volta-se para o Ocidente. “Para os Estados Unidos. Ele não considera a Europa importante”, afirma. “Ele viu o apoio dos Estados Unidos às democracia liberais, aos movimentos democráticos, em lugares como a Geórgia, a Ucrânia, a Bielorrússia, ex-estados soviéticos que considerava ainda ser importantes para a segurança da Rússia. E nenhum é mais importante do que a Ucrânia, por seu tamanho, sua localização. Ele sempre foi obcecado pela Ucrânia.”

Para Myer, no entanto, Putin falhou enquanto estrategista. “Ele subestimou a situação, tanto militarmente quanto a noção de a Ucrânia ser comandada por nazistas, o que é falso. Ele ficou sem saída. Essas sanções econômicas vão permanecer assim como os danos à reputação da Rússia.”

Danos esses que não podem ser desprezados. Estamos falando, afinal, de um homem que, segundo Myers, tem a pretensão de recriar um Império. “Eu não acredito que Putin tenha algum interesse em restaurar a União Soviética, embora tenha adotado muitas de suas táticas, muitos de seus símbolos. Ele não está tentando se tornar Stálin. Creio que ele está caminhando para o período da Rússia imperial, que também era autoritário. O czar comandava tudo de um modo quase religioso.”

Nem sempre foram essas as pretensões de Putin. O presidente russo ascendeu ao poder como interino em 1999, após a renúncia de Boris Ieltsin, e foi eleito no ano seguinte. Inicialmente desconhecido pela população russa, construiu sua popularidade eleitoral por sua atuação na guerra da Tchetchênia. Mas, como mostra Myers no livro, não se sentia seguro para assumir o poder.

Dificilmente alguém se sentiria. O fim da União Soviética, que já vinha em crise desde os anos 1970, deu início a uma catástrofe na Rússia. A separação formal de países cujas economias estavam interligadas e a mudança no sistema econômico levou a uma crise sem precedentes -que diminuiu até a expectativa de vida dos russos.

O processo de privatização do aparato estatal soviético foi para as mãos de pouquíssimos, num processo de concentração de riqueza com o qual nem os Románov sonharam, criando os tais “oligarcas” russos. A crise de 1998, que levou à moratória da dívida, teve repercussões até mesmo no Brasil.

Logicamente, o sistema político não passaria incólume. Apesar de todas as intenções em construir uma democracia liberal nos moldes ocidentais no início dos anos 1990, a crise econômica, os conflitos entre os grupos políticos e até mesmo a apoplexia dos russos diante da nova realidade impediu que o intento se lograsse. E Putin, que passou parte da década dividindo-se entre a KGB (a agência de inteligência russa) e a política, ungiu ao poder. “Quando ele ascendeu, governava mais pelo consenso. Com o tempo, ele se moveu de várias maneiras para restringir a democracia.”

Para Myers, a situação política russa começou a mudar em 2008. Putin, em um momento de alta popularidade, para manter-se no poder, em vez de mudar a Constituição, articulou para ser o primeiro-ministro no governo de Dmitri Medvedev -candidato escolhido pelo próprio. Ali, buscou manter o poder dentro da aparência de legalidade. “Mas quando [quatro anos depois] ele resolve voltar à presidência, eu senti que era um ponto de virada para a Rússia.” Hoje, as regras estão postas de tal modo que Putin pode permanecer no poder até 2036.

Nascido em Leningrado, atual São Petersburgo, Putin é neto de um cozinheiro que serviu à Rússia imperial e stalinista e filho de um combatente do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. “A história de vida do Putin é muito familiar à da maioria dos russos. O interessante é o quanto você pode ver de qualquer família russa na sua história.”

Em sua infância bastante modesta sob o regime de Stálin, cresceu num país que derrotou Hitler e, ao mesmo tempo, enfrentou os destroços da guerra. Vivia com a família num apartamento bastante precário e brincava com ratos. Apesar do apreço pela cultura, não era propriamente um bom aluno.

No início da vida adulta, entrou para KGB, o serviço de inteligência do regime soviético. Nunca se destacou como membro da agência. Na década de 1980, foi designado para trabalhar em Dresden, na Alemanha. Apesar de ser pouco afeito ao álcool, apreciou a cerveja alemã. E também o país, com o qual sempre manteve um vínculo diplomático sólido.

Foi na Alemanha que Putin viveu aquele que Myers considera o evento mais importante de sua vida fora do poder: a queda do Muro de Berlim. “Ele era um agente da KGB vendo, basicamente, o controle da União Soviética na Europa do leste desmanchar. Vendo o que aconteceu, ele podia ver que a União Soviética estava doente e que tinha se tornado fraca. Mas eu não acho que ele pensou que iria desmoronar.”

A primeira ideia do autor para o livro veio, ele disse, por volta de 2011, quando a ascensão do autoritarismo já parecia um caminho sem volta. Agora Myers conta pensar em uma nova edição, com os bastidores da guerra.

 

O NOVO CZAR: ASCENSÃO E REINADO DE VLADIMIR PUTIN
Preço: R$ 145 (640 págs.); R$ 106 (ebook)
Autor: Steven Lee Myers
Editora: Amarilys

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