Startups oferecem cursos de tecnologia e só cobram após contratação

"É meio que uma proposta que você não tem nada a perder. Você faz, se começar a trabalhar paga e, se não, uma hora essa dívida vai morrer", afirma participante do projeto

Folhapress -
Foto: Reprodução

(FOLHAPRESS) – Até 2020, uma profissão na área de tecnologia nunca tinha sido cogitada pela estudante Livia Brasil, de 21 anos. “Eu era da humanas, completamente. Da saúde, no máximo”, afirma ela. No ensino médio, pensou em cursar geografia ou psicologia e decidiu pela segunda opção no último ano da escola, antes de entrar na UFF (Universidade Federal Fluminense) em 2018.

No início da pandemia, quando estava no terceiro ano da faculdade, o desânimo com as aulas remotas se juntou a uma outra insatisfação. “A minha ideia era ser professora. Eu queria seguir carreira acadêmica, fazer mestrado, doutorado, dar aula em universidade”, conta ela, que viu sua vontade minguar com o cenário da pesquisa no Brasil.
Uma propaganda da startup de educação Driven foi o empurrão que faltava: a ideia de fazer um curso e pagar por ele apenas após contratada chamou a sua atenção. “É meio que uma proposta que você não tem nada a perder. Você faz, se começar a trabalhar paga e, se não, uma hora essa dívida vai morrer”, afirma.

O modelo de sucesso compartilhado -ou ISA, sigla em inglês para Contrato de Compartilhamento de Renda- foi criado nos Estados Unidos na década de 1950 e tem sido impulsionado pelo aquecido mercado de tecnologia no Brasil. Além da Driven, Trybe e Cubos Academy são exemplos de iniciativas com o mesmo propósito.

“É um modelo antigo, mas que nunca foi popularizado”, afirma o fundador da Driven, Paulo Monteiro. “Quando a demanda é alta, faz sentido você formar uma pessoa e só ganhar depois que ela tiver empregada acima de um certo salário.”

No caso da Livia, o ciclo se completou sem grandes sobressaltos. Ela passou na seleção para o curso, que aceita apenas 2% dos inscritos em uma concorrência de 50 pessoas por vaga, estudou durante seis meses e conseguiu um emprego na OLX no último dia na startup, quando começou a pagar pela sua formação.

É uma realidade bem distinta da que observava na sua antiga área.

“Na psicologia eu nunca cheguei perto de conseguir um estágio remunerado, e a perspectiva até para depois de formado não era muito promissora. E tecnologia é exatamente o contrário. É um mercado super aquecido, com muita oportunidade para quem está começando”, compara ela.

Segundo Monteiro, o seu caso não é uma exceção. No último curso, 60% da turma estava empregada em uma semana, e em um mês o número foi para 94%. A média salarial dos egressos é de R$ 6.200, o que permitiu o aumento da faixa de renda para começar a pagar, de R$ 3.000 para R$ 4.000.

Parte do sucesso é decorrente de uma inversão no momento da busca de emprego. A Driven tem cerca de 80 empresas parceiras que, nas últimas duas semanas de curso, vão até a turma, se apresentam e abrem processos seletivos internos.

Na sua turma, diz Livia, “praticamente todo mundo” estava mudando de área por não ver saída na própria profissão. “Muita gente se formando em engenharia e meio sem perspectiva de conseguir emprego, algumas pessoas vindo de áreas mais distantes, das humanas. Inclusive eu entrei na OLX junto com uma menina que é atriz.”

Segundo levantamento do final de 2021 da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), o Brasil forma 53 mil pessoas em cursos de perfil tecnológico, mas precisa de 159 mil desses profissionais por ano. A projeção é que o déficit chegue a 530 mil em 2025.

Com a subida dos juros no mundo inteiro, a tendência é que a liquidez no setor se normalize, mas, no ano passado, US$ 9,4 bilhões (cerca de R$ 53 bilhões) foram injetados no mercado de inovação brasileiro, quase 2,6 vezes o que foi captado pelas empresas desse segmento em 2020.

A pujança respinga até mesmo em empresas que não são focadas em tecnologia.

A Galena, edtech que também usa o modelo de sucesso compartilhado, prepara ex-estudantes de escola pública de 18 a 24 anos para o mercado de trabalho. Embora tenha entre as parceiras empresas mais tradicionais, como a Unilever, a maioria está no setor de inovação, como iFood e Quinto Andar.

“Tem bastante empresa nesse mundo de tecnologia, startup, porque são empresas que crescem bastante e em geral tem áreas grandes de vendas”, explica um dos fundadores, Guilherme Luz.

A empresa, que completa um ano neste mês, por enquanto oferece apenas um curso, na área de vendas e atendimento ao cliente. Os egressos devem ganhar no mínimo R$ 2.000, no regime CLT para começar a pagar a formação, que pode custar de R$ 3.500 a R$ 6.500, dependendo do prazo de pagamento. Se em três meses o jovem não conseguir um emprego, a dívida morre.

Segundo Luz, da primeira turma, 100% está empregado, e da segunda, que terminou há pouco mais de um mês, mais da metade está trabalhando. A ideia, agora, é expandir. Em abril, a empresa recebeu um aporte de US$ 16,7 milhões para escalar a sua operação: de 230 pessoas formadas em 2021, a expectativa é alcançar 1500 jovens em 2022.
“A Galena nasceu para atender 40, 50 mil jovens por ano”, afirma Luz. “Educação para poucos o Brasil já mostrou que sabe fazer bem. A gente quer ser mais um caso de sucesso de educação para muitos.”

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