Mudanças climáticas agravam doenças respiratórias e pressionam atendimento no SUS

Doenças crônicas mais afetadas pelas mudanças climáticas são a asma, a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e o câncer de pulmão, diz a pneumologista Danielle Bedin

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(Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil)

GEOVANA OLIVEIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Aumento da poluição, períodos de chuva intensa, seca extrema e intensificação de queimadas são consequências conhecidas das mudanças climáticas. Menos divulgado é o efeito desses eventos sobre a saúde: eles agravam doenças crônicas pulmonares e respiratórias e aumentam a mortalidade por essas condições.

Os últimos três anos foram os mais quentes da história, segundo a Organização Meteorológica Mundial. O SUS (Sistema Único de Saúde), porém, não está preparado para lidar com o aumento da demanda de pacientes devido aos eventos climáticos extremos, segundo especialistas ouvidas pela Folha.

Ainda há problemas na formação de profissionais de saúde sobre como o aquecimento global afeta as doenças crônicas e dificuldades para investir em adaptação climática, articular ações entre setores e ampliar a assistência a grupos vulneráveis.

As doenças crônicas mais afetadas pelas mudanças climáticas são a asma, a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e o câncer de pulmão, diz a pneumologista Danielle Bedin, embaixadora do Movimento Médicos pelo Clima.

Uma das principais causas para esse agravamento é a poluição do ar, intensificada de várias formas pelo aquecimento global. Segundo a OMS, 43% das m ortes por DPOC e 29% das mortes por câncer de pulmão estão associadas à poluição.

Em períodos de seca e calor, queimadas se tornam mais frequentes e liberam material particulado fino, chamado de PM2,5. São partículas tão pequenas que chegam ao fundo do pulmão e podem provocar câncer e agravar doenças respiratórias. A chuva ajuda a removê-las, mas a seca prolongada, cada vez mais comum, faz o efeito contrário.

“Quando a gente olha para o horizonte e vê aquela faixa cinza, a gente está respirando isso”, diz Bedin.

O aquecimento também aumenta o ozônio troposférico, diz Bedin, uma camada de gás que se forma próximo à superfície quando poluentes se misturam com a luz solar em dias quentes e secos. Ele não causa a doença, mas age como irritante para quem já tem bronquite e pode desencadear crises, explica a médica.

Estudo publicado na revista científica eBioMedicine, da Lancet, em 2025, mostra que o risco de mortalidade por DPOC cresce cerca de 4% para cada 1°C de elevação em condições de calor extremo.

Os centros urbanos estão sujeitos às ilhas de calor, efeito no qual o ar quente e poluído fica preso, sem conseguir circular. Mas moradores de regiões no semiárido nordestino, da reg ião Norte do país e do centro-oeste, onde há queimadas constantes e secas prolongadas, também têm a respiração prejudicada, diz Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz Piauí que estuda o impacto ambiental nas doenças respiratórias.

As mudanças climáticas prolongam ainda as estações de pólen, que podem aumentar a capacidade de provocar reações alérgicas. Segundo relatório técnico da OMS publicado em 2025, o aumento do CO2 e das temperaturas estende o período de floração das plantas.

Além do calor, as chuvas intensas e concentradas, que provocam enchentes como as que atingiram o Rio Grande do Sul, também contribuem com o quadro. Depois das inundações, há crescimento de fungos no ambiente, o que pode causar infecções respiratórias, especialmente em quem já tem doenças crônicas, diz a médica Evangelina Araújo, fundadora do Instituto Ar.

Os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos, trabalhadores ao ar livre e populações em áreas remotas ou periféricas, diz Oliveira. Segundo ela, na Amazônia, crianças expostas à fumaça das queimadas apresentam redução da capacidade pulmonar mesmo sem ter asma e o efeito é ainda mais grave em quem já tem a doença.

Durante eventos críticos de poluição na região, estudos da Fiocruz apontaram aumento significativo de internações e atendimentos de emergência, diz Oliveira.

Uma pesquisa publicada em 2023 na European Respiratory Review mostrou que eventos extremos como ondas de calor estão associados a 25% mais visitas a pronto-socorro e 10% mais internações por crise asmática.

Comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas têm maior exposição aos efeitos climáticos e menor acesso à saúde, segundo Oliveira. Em partes do Norte e do Nordeste, chegar a uma unidade básica de saúde pode depender de transporte fluvial, que fica ainda mais difícil em períodos de seca extrema.

O QUE FALTA NO SISTEMA DE SAÚDE

Enquanto dados demonstram aumento de mortalidade devido às mudanças climáticas, os profissionais de saúde ainda não estão preparados para conectar os sintomas dos pacientes às condições climáticas do ambiente onde vivem, diz Bedin.

“Cabe ao profissional de saúde entender que aquela pessoa mora ou trabalha em um lugar com muita exposição ao calor e que isso pode estar piorando a doença de base dela”, afirma a médica.

Outro problema é a falta de integração entre os setores de saúde, meio ambiente e defesa civil, diz Oliveira. Segundo ela, o monitoramento da qualidade do ar é feito por órgãos ambientais, mas as informações raramente chegam de forma organizada ao sistema de saúde. Até o momento, apenas o Rio de Janeiro tem um sistema integrado de alerta.

“Não falta ciência, não faltam dados. O que falta é que isso se traduza em prática”, diz Araújo.

Oliveira aponta que 95% dos investimentos em pesquisa sobre clima ainda vão para a mitigação, a redução das emissões, e não para a adaptação, que seria a preparação da sociedade para lidar com o que já está acontecendo. “A saúde tem a ver com a parte de adaptação. E isso ainda está bastante incipiente”, diz ela.

A escassez de médicos especialistas agrava o quadro de identificação das doenças crônicas respiratórias, segundo Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia.

“Temos famílias que vêm do interior do Pará para São Paulo porque era mais fácil do que chegar a Belém. E a criança tinha um problema de alergia grave”, relata.

O governo federal lançou em 2025 o Adapta SUS, plano do setor de saúde voltado à adaptação às mudanças climáticas, com metas a cumprir de 2027 a 2035. O plano foi pré-lançado na COP30, conferência da ONU sobre clima sediada em Belém, e pactuado com estados e municípios.

Agnes Soares da Silva, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério, porém, diz que existe uma dificuldade para que cada cidade e estado façam seus próprios planos de adaptação climática na saúde.

O Ministério da Saúde também publicou um guia de mudanças climáticas para profissionais de saúde, disponível desde 2024 e atualizado no ano passado. O documento pode ser baixado pelo aplicativo Meu SUS Digital.

Araújo avalia que, apesar dos avanços e de a saúde estar mais inserida na pauta, muito ainda precisa ser feito para preparar o sistema. “Se acontecer uma inundação de novo no Rio Grande do Sul, eu duvido que alguma coisa vai ser diferente em termos de infraestrutura e de atendimento da saúde”, diz.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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