Estátua de 1ª mulher na Itália com diploma universitário provoca controvérsia

Até então eram setenta e oito estátuas distribuídas na Prato della Valle, todas de homens

Folhapress -
Estátua de 1ª mulher na Itália com diploma universitário provoca controvérsia (Foto: Reprodução/ CNN)

BAURU, SP (FOLHAPRESS) – Setenta e oito estátuas estão distribuídas na Prato della Valle, a maior praça da Itália e uma das maiores de toda a Europa. Os monumentos homenageiam personalidades como o cientista Galileo Galilei, o poeta Francesco Petrarca, o escultor Antonio Canova e vários papas.

Todos os homenageados têm alguma ligação com Pádua, seja por terem nascido, vivido ou por terem desenvolvido laços com a cidade no norte da Itália. E todos são homens.

O déficit na representação feminina não é uma exclusividade de Pádua. Em toda a Itália, há apenas 148 estátuas representando mulheres, sejam elas figuras reais, lendárias ou anônimas. O levantamento é da Mi Riconosci, uma associação italiana de profissionais do setor de patrimônio cultural.

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A partir desse censo das estátuas e influenciados pela onda global de revisão histórica de monumentos, Margherita Colonnello e Simone Pillitteri, dois vereadores de Pádua, de centro-esqueda, propuseram que a praça seja o novo lar de uma escultura em homenagem a Elena Lucrezia Cornaro Piscopia (1646-1684), a primeira mulher no mundo a receber um diploma universitário.

“Talvez nem todos saibam que as figuras a quem as efígies de pedra são dedicadas sejam todas, sem exceção, homens”, escreveu a dupla em uma moção apresentada ao Legislativo de Pádua.

Piscopia nasceu em Veneza, filha de um nobre e de uma camponesa. Conta a enciclopédia Brittanica que ela começou a receber aulas de grego e de latim aos sete anos e, mais tarde, tornou-se fluente também em francês, espanhol em hebraico.

Além de poliglota, Piscopia também estudou matemática, astronomia, filosofia, música e teologia –esta última, a área em que se especializou. Aos 26 anos, foi recomendada por um de seus tutores à Universidade de Pádua. A ideia era que a instituição concedesse a Piscopia o título de doutora em teologia.

À época, o bispo de Pádua , que também respondia pela universidade, apoiou a solicitação de Piscopia, mas só porque entendeu que o que ela buscava era o doutorado em filosofia. Quando o cardeal Gregorio Barbarigo entendeu que o objetivo era o diploma em teologia, negou o pedido porque Piscopia era uma mulher.

Ainda que contrariada, ela então seguiu nos estudos de filosofia e conseguiu o título de doutorado na área em 1678. Na defesa de sua tese, Piscopia teve que esmiuçar, em latim, dois textos de Aristóteles escolhidos aleatoriamente –o que fez com maestria, tornando-se a primeira doutora do mundo.

Segundo a Brittanica, Piscopia viveu mais seis anos depois de conquistar seu diploma, período no qual continuou se dedicando aos estudos acadêmicos e a ações religiosas destinadas aos pobres. Quando morreu, aos 38 anos, seu funeral foi marcado por cerimônias em Veneza, Pádua, Siena e Roma.

Apesar de seu pioneirismo e de suas ligações com Pádua, Piscopia não ganhou uma estátua na Prato della Valle. Pelo menos não até agora.

Quando foi construída, no século 18, a praça tinha 88 esculturas. Dez delas foram destruídas quando Napoleão conquistou Veneza. Oito foram substituídas por obeliscos e dois pedestais permanecem vazios –e é sobre um deles que os vereadores querem erigir a estátua em homenagem a Piscopia.

Para Federica Arcoraci, historiadora da arte ligada à Mi Riconosci, a formação exclusivamente masculina da Prato della Valle tem um impacto na imaginação coletiva. “Obviamente, isso foi fruto de uma tendência particular da história. Mas hoje é possível fazer um projeto que esteja conectado com a história da praça em sua totalidade”, disse Arcoraci ao jornal britânico The Guardian.

A historiadora explica ainda que o projeto original da praça em Pádua proibia estátuas de santos, de pessoas vivas e de pessoas sem vínculo com a cidade. Nunca houve nenhuma restrição contra mulheres.

Mesmo assim, há quem se oponha a ceder um dos pedestais vazios à memória de Piscopia. Carlo Fumian, professor de história da Universidade de Pádua, descreveu a ideia como “fora de contexto”. Para ele, o projeto de homenagear a primeira doutora é “caro e bizarro”, além de “um pouco moderno, mas culturalmente inconsistente”.

“Mover monumentos como se fossem [peças de] Lego é um jogo perigoso e pouco inteligente”, disse Fumian ao jornal local Il Mattino di Padova. “Em vez disso, devemos ajudar as pessoas a descobrir a [estátua] original, triunfantemente sentada na universidade”.

O professor faz referência ao monumento erigido em homenagem a Piscopia. A estátua foi construída a pedido do pai da acadêmica em 1684, mesmo ano de sua morte. Quase um século depois, em 1773, foi doada à Universidade de Pádua, onde segue em exposição no Palazzo Bo, sede histórica da instituição. A proposta dos vereadores é movê-la para a Prato della Valle.

Outros opositores à ideia de colocar Piscopia na praça alegam que os pedestais devem permanecer vazios justamente porque representam o momento histórico da invasão da cidade pelas tropas de Napoleão.

Segundo o Guardian, o superintendente do patrimônio cultural de Pádua não descarta a ideia de homenagear uma mulher na maior praça do país, mas, nesse caso, preferiria reverenciar uma figura feminina mais recente.

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