O combate à corrupção ainda precisa pautar as eleições de 2022

Márcio Corrêa -
(Foto: Reprodução)

Erra quem pensa que o debate sobre a corrupção, que pautou a disputa eleitoral de 2018, não terá mais tanta força nas eleições deste ano. Ainda é um tema muito forte para o eleitor brasileiro e a tentativa de algumas figuras que foram varridas pelas urnas em 2018 de voltar à cena deve colocar mais luz sobre essa discussão.

O pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes (PDT), por exemplo, parece ter percebido essa realidade e retomou num jingle de campanha lançado nesta segunda-feira, 18/04, o velho conceito popular do “rouba, mas faz”, numa tentativa de atacar seus adversários na corrida presidencial. O candidato busca se posicionar como uma alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro e sua música diz, sem citar nomes, que “um rouba, mas faz, e o outro rouba sem fazer”.

Estratégias e retóricas eleitorais à parte, essa carapuça do político ladrão, mas que entrega resultados já foi, direta ou indiretamente, vestida por muitos governantes do passado e mostrava uma certa condescendência do brasileiro em relação a desvios de caráter ético e moral (e financeiro também, claro!). Era, ao meu ver, uma das amarras que dificultavam nosso desenvolvimento como nação democrática.

O folclore político brasileiro dá conta de que o “rouba, mas faz” foi criado na década de 1950 por cabos eleitorais do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros para neutralizar as críticas dos adversários de que ele não era um homem honesto. Numa época em que os escândalos de corrupção eram menos comuns e de proporções bem inferiores ao que depois vimos com operações como a Lava Jato, e as carências dos brasileiros eram maiores em diversas áreas, o ato do governante “fazer” algo pela população parecia de alguma forma compensar os desvios porventura praticados.

A trajetória de alguns políticos que vieram depois se encaixou tão bem à expressão que acabou gerando na público a impressão de que ela fora talhada para eles. É o caso, por exemplo, do ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Da década de 50 pra cá, alguns políticos parece terem mirado com muito mais ímpeto a parte do “rouba” do que a do “faz” e vivemos nas últimas duas décadas uma sequência aparentemente interminável de escândalos de corrupção.

Não tem meio termo nisto. Se o político rouba, algo está deixando de ser feito. Ponto. Não tem samba ou caricatura para representar esse “jeitinho brasileiro” que consiga normalizar todo o mal que a corrupção provocou e ainda provoca ao nosso País e ao nosso povo. Hoje nosso próprio sistema democrático – o qual temos o dever de defender até a última instância – ficou fragilizado por causa da corrupção dos agentes públicos e este é o pior legado deixado por governos anteriores.

O brasileiro tomou nos últimos anos uma consciência muito grande sobre os mecanismos de corrupção e o quanto isto atrasa o País. A maioria do eleitorado não parece que está disposta a fechar os olhos para desvios na gestão pública em troca de uma obra aqui ou um benefício acolá. O debate eleitoral em 2022 ainda precisa passar pela questão da ética e da honestidade no trato com a coisa pública. Ainda há muito trabalho a ser feito.

Márcio Corrêa é empresário e odontólogo. Preside o Diretório Municipal do MDB em AnápolisEscreve todas as segundas-feiras. Siga-o no Instagram.

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