Jogos, o ópio do povo

Não se deixe enganar: existe uma perversão que é a de querer colher sem ter semeado. Vamos oferecer olhar crítico

Pedro Sahium -
Jogos, o ópio do povo
(Foto: Ilustração/IA)

Terminei de ler uma obra de Victor Hugo, “O homem que ri”. Nesta leitura fui tocado, no fundo d’alma, pela história de dores do personagem central. O que mais dói é a frieza e a falta de compaixão daqueles que o rodeiam. A forma cruel com que o personagem é tratado, leva o autor à seguinte conclusão: “Erramos ao dizer que a noite cai; deveríamos dizer que a noite sobe porque é da terra que vem a obscuridade”.

Dito de outra forma, o mal habita o coração humano e não necessita do céu ou do inferno para estimulá-lo. O cenário da obra se assemelha ao de agora, uma “guerra de todos contra todos”; a busca incessante do interesse próprio e a convicção de que a prosperidade material equivale à felicidade. Tudo isso acaba por cegar a consciência, alimentar vícios e corroer o bem comum. Quanto ao sucesso financeiro, parece cada vez mais forte o desejo de obtê-lo sem trabalho e sem espera, na forma de um jogo ou de uma aposta, como se a fortuna pudesse ser conquistada rapidamente. E isso também se assemelha a hoje.

“Você já fez a sua fé para essa semana?”, somos perguntados quando se acumulam as somas de algumas das loterias ou sorteios diários. E é nessa “fé” que se afunda o povo brasileiro, acumulando perdas de todo o tipo. Variadas instituições sociais investem tempo, serviço e legalidade para que essa “fé” se torne cada vez mais forte, com isso ganham mais dinheiro.

O resultado da jogatina é o seguinte: a Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontou que as apostas online retiraram R$ 143,8 bilhões do comércio varejista brasileiro; o gasto mensal dos brasileiros com apostas chegou a R$ 24 bilhões; em torno de 10 milhões de CPFs realizaram apostas em bets no país; famílias de baixa renda são impactadas; inadimplências crescem se tornando severas; o tempo médio de pagamento das dívidas se alonga.

Os jogos online formam um ecossistema criminoso em que os chamados influencers digitais ganham para incentivar a sociedade e criar a falsa ideia de que “o bom resultado financeiro está chegando”. O jogo nomeado “tigrinho” é um cassino eletrônico que promete “ganhos fabulosos”, e na verdade é mais uma arapuca para apostadores.

No Brasil o “cardápio” dos jogos é variado: Mega-Sena, Quina, Lotofácil, Lotomania, Dupla Sena, Dia de Sorte, Timemania, Superbet, Blaze, BetMGM, Betano, Bet365, Betsson, Multibet, Hiperbet etc. A propaganda sem freios, a falta de limites políticos e a ânsia de ganhar dinheiro fácil, fazem do jogo o mais novo ópio do povo.

O ópio é uma substância que possui efeitos analgésicos: um potente anestésico capaz de tirar a dor. No passado, afirmou-se: “a religião é o ópio do povo”. Essa frase era uma crítica não à religião em si, mas à sociedade e às suas muitas injustiças contra os trabalhadores. Explorados nas relações de trabalho, eles poderiam encontrar alívio na religião, que funcionaria, então, como um ‘anestésico’ para o sofrimento do dia a dia. Nesse sentido, a religião aparecia como “o suspiro da criatura oprimida”, oferecendo consolo e esperança em meio às dificuldades da existência de uma classe e projetando para o futuro o paraíso negado no presente.

Hoje, o ópio do povo são os jogos e apostas que criam a ilusão de enriquecimento fácil. A ilusão de “bamburrar” com um prêmio milionário se renova todo dia. Mas que de real gera vício, endividamento, perda financeira, aumento de problemas psíquicos e físicos.

Não se deixe enganar: existe uma perversão que é a de querer colher sem ter semeado. Vamos oferecer olhar crítico para as chamadas ‘celebridades’, influenciadores e ‘esportistas’ que se prestam a propagandear a jogatina, enquanto se enriquecem com os gordos cachês. Ludopatia é coisa séria, precisamos tratar a questão com o devido cuidado de quem entendeu que da terra brota uma densa obscuridade.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.

Publicidade

+ Notícias

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Para mais informações, incluindo como configurar as permissões dos cookies, consulte a nossa nova Política de Privacidade.