Jogos, o ópio do povo
Não se deixe enganar: existe uma perversão que é a de querer colher sem ter semeado. Vamos oferecer olhar crítico

Terminei de ler uma obra de Victor Hugo, “O homem que ri”. Nesta leitura fui tocado, no fundo d’alma, pela história de dores do personagem central. O que mais dói é a frieza e a falta de compaixão daqueles que o rodeiam. A forma cruel com que o personagem é tratado, leva o autor à seguinte conclusão: “Erramos ao dizer que a noite cai; deveríamos dizer que a noite sobe porque é da terra que vem a obscuridade”.
Dito de outra forma, o mal habita o coração humano e não necessita do céu ou do inferno para estimulá-lo. O cenário da obra se assemelha ao de agora, uma “guerra de todos contra todos”; a busca incessante do interesse próprio e a convicção de que a prosperidade material equivale à felicidade. Tudo isso acaba por cegar a consciência, alimentar vícios e corroer o bem comum. Quanto ao sucesso financeiro, parece cada vez mais forte o desejo de obtê-lo sem trabalho e sem espera, na forma de um jogo ou de uma aposta, como se a fortuna pudesse ser conquistada rapidamente. E isso também se assemelha a hoje.
“Você já fez a sua fé para essa semana?”, somos perguntados quando se acumulam as somas de algumas das loterias ou sorteios diários. E é nessa “fé” que se afunda o povo brasileiro, acumulando perdas de todo o tipo. Variadas instituições sociais investem tempo, serviço e legalidade para que essa “fé” se torne cada vez mais forte, com isso ganham mais dinheiro.
O resultado da jogatina é o seguinte: a Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontou que as apostas online retiraram R$ 143,8 bilhões do comércio varejista brasileiro; o gasto mensal dos brasileiros com apostas chegou a R$ 24 bilhões; em torno de 10 milhões de CPFs realizaram apostas em bets no país; famílias de baixa renda são impactadas; inadimplências crescem se tornando severas; o tempo médio de pagamento das dívidas se alonga.
Os jogos online formam um ecossistema criminoso em que os chamados influencers digitais ganham para incentivar a sociedade e criar a falsa ideia de que “o bom resultado financeiro está chegando”. O jogo nomeado “tigrinho” é um cassino eletrônico que promete “ganhos fabulosos”, e na verdade é mais uma arapuca para apostadores.
No Brasil o “cardápio” dos jogos é variado: Mega-Sena, Quina, Lotofácil, Lotomania, Dupla Sena, Dia de Sorte, Timemania, Superbet, Blaze, BetMGM, Betano, Bet365, Betsson, Multibet, Hiperbet etc. A propaganda sem freios, a falta de limites políticos e a ânsia de ganhar dinheiro fácil, fazem do jogo o mais novo ópio do povo.
O ópio é uma substância que possui efeitos analgésicos: um potente anestésico capaz de tirar a dor. No passado, afirmou-se: “a religião é o ópio do povo”. Essa frase era uma crítica não à religião em si, mas à sociedade e às suas muitas injustiças contra os trabalhadores. Explorados nas relações de trabalho, eles poderiam encontrar alívio na religião, que funcionaria, então, como um ‘anestésico’ para o sofrimento do dia a dia. Nesse sentido, a religião aparecia como “o suspiro da criatura oprimida”, oferecendo consolo e esperança em meio às dificuldades da existência de uma classe e projetando para o futuro o paraíso negado no presente.
Hoje, o ópio do povo são os jogos e apostas que criam a ilusão de enriquecimento fácil. A ilusão de “bamburrar” com um prêmio milionário se renova todo dia. Mas que de real gera vício, endividamento, perda financeira, aumento de problemas psíquicos e físicos.
Não se deixe enganar: existe uma perversão que é a de querer colher sem ter semeado. Vamos oferecer olhar crítico para as chamadas ‘celebridades’, influenciadores e ‘esportistas’ que se prestam a propagandear a jogatina, enquanto se enriquecem com os gordos cachês. Ludopatia é coisa séria, precisamos tratar a questão com o devido cuidado de quem entendeu que da terra brota uma densa obscuridade.
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