Bienal de Veneza tem recorde de mulheres e não binários e imagina mundo apocalíptico

Cecilia Alemani é a primeira mulher italiana à frente da mostra em quase 130 anos

Folhapress -
Bienal de Veneza tem recorde de mulheres e não binários e imagina mundo apocalíptico (Foto: Flickr)

SILAS MARTÍ
VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Primeiro sai de cena o macho adulto branco sempre no comando, homem da razão e medida de todas as coisas. Depois, a própria humanidade, deixando a Terra livre como espécie de pasto ralo de ciborgues e bichos que sobreviveram ao apocalipse. Em linhas gerais, esse é o cenário que Cecilia Alemani idealizou ao montar a Bienal de Veneza que começa agora.

O ponto de partida da mostra de arte mais tradicional do planeta foram as pinturas e os escritos não menos fantásticos da surrealista Leonora Carrington, uma britânica radicada no México que passou tempos internada em instituições psiquiátricas e dizia ter nascido do cruzamento de sua mãe com uma máquina, um aceno à ideia de pós-humano que Alemani defende.

Isso de máquinas que se apoderam de corpos, ou transam com eles, está mesmo no nosso zeitgeist -basta ver “Titane”, filme da francesa Julia Ducournau que venceu o último Festival de Cannes. É algo também exacerbado pela pandemia, que nos fez viver como avatares de nós mesmos em telas de Zoom nos últimos dois anos de ansiedade total.

“É uma mostra que nasceu da pandemia”, conta Alemani, em entrevista. “Vamos ver muitos artistas que internalizaram já esse trauma, a transformação foi muito profunda.”

Quem avançar pelas salas do Arsenale e dos Giardini a partir deste final de semana, aliás, vai ver outra transformação -a esmagadora maioria dos mais de 200 artistas escalados por Alemani, a primeira mulher italiana à frente de uma Bienal de Veneza em quase 130 anos de mostra, são mulheres ou não binários.

É a primeira vez da maioria deles num evento com todo esse alcance, uma das plataformas de lançamento de artistas mais poderosas a moldar o mercado de arte, os gostos e as tendências a invadir os museus e as galerias no futuro próximo ou pelo menos até nova moda se estabelecer.

“Quando olhamos as bienais do passado, é estarrecedor ver como sempre foi baixo o número de mulheres”, diz Alemani. “O fato de haver agora uma maioria delas tem a ver com imaginar um mundo em que o homem branco europeu não esteja no centro.”

Esse novo mundo inventado por Alemani, estruturado segundo ela a partir de nossa metamorfose diante da tecnologia e uma revisão da hierarquia entre espécies com humanos fora do topo da cadeia, foi também forjado num planeta em transe fora dos muros do mundo encantado da arte e do circo de vaidades em que Veneza se transforma agora.

Desde que ela começou a pensar nesta 59ª edição da mostra, houve a pandemia, o levante avassalador do Black Lives Matter diante da morte brutal de George Floyd nos Estados Unidos e a invasão da Ucrânia pela Rússia, que agora abala a Europa mais do que nunca desde a Segunda Guerra -o conflito do século passado, da mesma forma que a pandemia ainda em curso, foram as únicas catástrofes a fazer Veneza mudar o calendário e adiar a mostra, reorganizando todo o circuito global.

Uma das vítimas do rearranjo foi a Bienal de São Paulo, que abriu em setembro passado com um ano de atraso ocupando o vácuo de Veneza, sempre em anos alternados ao da mostra italiana.

E há ecos entre as duas exposições, a começar pela obra da cubana Belkis Ayón, que esteve no pavilhão do Ibirapuera e aqui abre as galerias do Arsenale, posição de prestígio para uma artista que vem sendo redescoberta duas décadas depois de sua morte precoce -talvez pela mão nem tão invisível do mercado, ela também teve uma retrospectiva de peso no Reina Sofía, em Madri, nos últimos meses.

Outro ponto de contato é o número expressivo de brasileiros na mostra principal em Veneza neste ano. Jaider Esbell, outro artista morto ainda ainda muito jovem no ano passado, lidera a lista depois de despontar na mostra paulistana e ganha agora o centro do mundo da arte em Veneza com o que Alemani chama de uma série fantástica de telas.

Lenora de Barros, Luiz Roque, Rosana Paulino e Solange Pessoa são outros brasileiros espalhados por diferentes alas da exposição, que vai desde uma reunião de obras que remetem à poesia concreta até uma frente de trabalhos que Alemani chama de oníricos ou que imaginam a vida na Terra já sem os humanos.

No que entende como montagem “trans-histórica”, Alemani diz serem profundas as raízes do apocalipse atual e opõe obras contemporâneas ao que apresenta como núcleo duro da mostra na sala principal dos Giardini, onde estão obras de Leonora Carrington ancorando uma constelação de outras surrealistas, entre elas Dorothea Tanning e Remedios Varo, todas mulheres que viveram seu auge ainda no início do século 20.

“Essa ideia de transformação, distorção das ideias de gênero e metamorfose já estava na obra de todas elas e de outras artistas”, afirma Alemani.

“Minha ideia era ter o corpo como um filtro, como os nossos corpos mudaram com a tecnologia. Estou pensando em como os artistas usam desde materiais como acrílico e plástico a luzes neon. E também em como nossos corpos se moldam à presença dos outros. É a construção de uma estética pós-humanos, a ideia de sermos só uma entre tantas espécies e formas de vida. Isso surgiu depois de ver o mundo todo se ajoelhando diante de uma força invisível.”

Ela fala da pandemia, é claro, coisa que sua musa inspiradora não viu, mas as telas de Carrington, forjadas noutra era de ansiedade, com feras e mulheres animalescas às voltas com assassinatos sanguinolentos, parecem refletir a barbárie atual por um prisma freudiano dos sonhos, talvez da mesma forma que nós, calejados pela violência da política, da pandemia e agora da guerra, tenhamos vivido a realidade em nossos pesadelos.

São delírios que Alemani, lembrando um conto de Carrington, vê como força vital em tempos de medo e ódio.

Não espanta que o nome de sua mostra seja “Il Latte dei Sogni”, ou o leite dos sonhos.

Leite materno, aliás, está na estranha lista de materiais de uma das obras de Jes Fan mais para o final da mostra no Arsenale, em que os animais e as máquinas venceram a queda de braço com os humanos. Ali, o que sobrou da gente alimenta uma leva de bactérias a fazer florescer vida nova na Terra.

Nas palavras de Alemani, os artistas da mostra tentam responder, sem grandes manifestos políticos, às questões de uma era em que nossa sobrevivência como espécie nunca foi tão posta em xeque e ao mesmo tempo tão documentada pelas lentes e pelas máquinas que inventamos e orbitam cada passo que damos.

Sua ambição, com base na seleção de artistas que escalou, foi montar um panorama visual da vida no ocaso da humanidade, o triste legado de destruição que vamos deixar para um rebanho de bichos elétricos a se refestelar no lixo.

“Não quis forçar nada, dei carta branca a todos os artistas”, diz Alemani. “Vejo que eles têm usado mais a introspecção em vez de tentar fazer grandes manifestos políticos, talvez porque tenham ficado muito isolados com os próprios pensamentos nos últimos anos. Essa reação aos fatos é de uma escala mais íntima.”

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