Ferrovia Norte-Sul passa a transportar açúcar com abertura de terminal em MG

Depois de vários imbróglios, em 2019 a Rumo venceu leilão do trecho da Norte-Sul com um agressivo lance de R$ 2,719 bilhões, 100,9% acima do mínimo exigido pelo edital

Folhapress -
11.05.2017 – Trecho da FCA (Ferrovia-Centro Atlântica), antiga e em mau estado de conservação. Especial sobre as obras da ferrovia Norte/Sul. Trecho da ferrovia em Anápolis-GO, que está pronto mas sem funcionamento por causa de detalhes finais da obra e por problemas na concessão à iniciativa privada. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

(FOLHAPRESS) – A Ferrovia Norte-Sul passará oficialmente a transportar açúcar a partir desta quinta-feira (9) com a inauguração de um terminal rodoferroviário em Iturama (MG), que marca também a entrada da Rumo, concessionária responsável pela ferrovia, no mercado mineiro.

A Rumo e a Usina Coruripe, um dos maiores grupos de açúcar e etanol do país, vão inaugurar o terminal na cidade do Triângulo Mineiro após um investimento de R$ 95 milhões, que permitirá o escoamento de 2 milhões de toneladas de açúcar para exportação por ano.

A estimativa é que partam 15 trens de 120 vagões cada por mês de Iturama rumo ao porto de Santos entre este mês e outubro, pico da safra de cana-de-açúcar no centro-sul brasileiro.

A Norte-Sul, batizada pela Rumo de Malha Central, é uma ferrovia cuja história se arrastava desde a década de 1980. Em 13 de maio de 1987, a Folha publicou reportagem de Janio de Freitas que mostrou que a concorrência para a construção da ferrovia tinha sido uma farsa. De forma cifrada, o resultado das empresas vencedoras tinha sido publicado cinco dias antes.

Depois de vários imbróglios, em 2019 a Rumo venceu leilão do trecho da Norte-Sul com um agressivo lance de R$ 2,719 bilhões, 100,9% acima do mínimo exigido pelo edital. Até então, a ferrovia estava nas mãos da estatal Valec.

O trecho total da ferrovia tem 1.537 quilômetros, entre Porto Nacional (TO) e a Estrela D’Oeste (SP), e foi concebido para ser uma espécie de espinha dorsal do sistema ferroviário no país, permitindo a conexão com outras malhas. Um outro trecho da ferrovia já estava em operação, entre Açailândia (MA) e Porto Nacional (TO), sob concessão da VLI.

Um dos diferenciais no novo terminal, que já estava em fase de testes desde o mês passado, é a velocidade de carregamento, que pode alcançar 1.500 toneladas por hora, segundo o vice-presidente comercial da Rumo, Pedro Palma, e que tem potencial para carregar três trens de 120 vagões por dia.

“As operações iniciais [após a concessão] foram em São Simão e Rio Verde, as duas com soja, milho e farelo de soja. Em Iturama é uma operação emblemática porque é a primeira de açúcar na malha central e a primeira também da Rumo no Triângulo Mineiro. A chegada desse acesso ferroviário da Rumo num ponto de captação de carga em Minas vai atender não só usinas do Triângulo, mas também do sul de Goiás”, disse Palma.

Presidente da Coruripe, Mario Lorencatto afirmou que o terminal deverá atender 1,15 milhão de toneladas de açúcar do próprio grupo e, o restante, de outros clientes.

“A nova fronteira do sucroenergético está vindo para cá, inclusive grupos paulistas. (…) A
maior parte do açúcar é exportação, então tem 700 quilômetros, até um pouco mais longe, para usinas de Goiás. Como chega ao porto de Santos? Se for de caminhão, a mais valia do negócio vai ficar no diesel. O grande nó dessas operações é a questão logística, que se resolve agora com o término da obra”, afirmou.

Inicialmente, as operações do terminal, que gerou 50 empregos diretos, serão exclusivas para açúcar, mas, conforme Palma, nada impede que, havendo demanda futura, sejam realizadas operações de etanol, por exemplo.
“A gente tem exportado bastante etanol para a Ásia e, se consolidar esse mercado, é uma coisa a se estudar”, disse Lorencatto.

Hoje, o trecho em operação da Norte-Sul sob concessão da Rumo está em 580 quilômetros, o que significa que não está totalmente concluída. Falta concluir as obras viárias no trecho entre Rio Verde e Anápolis.

Quando estiver totalmente pronta, ela permitirá a ligação ferroviária entre os portos de Itaqui (MA) e Santos. “O trabalho está sendo realizado com a intenção da conclusão, chegando em Anápolis, até o fim de 2022”, disse Palma.

A Rumo ainda vai inaugurar uma operação de fertilizantes em Rio Verde, em fase final, e prevê uma operação de contêineres em Anápolis, via Brado, companhia da Rumo que opera no setor. Para o ano que vem, está previsto um terminal de transbordo de combustíveis em Rio Verde.

O trecho da malha central da Rumo, ao chegar a Estrela D’Oeste, se conecta com a malha paulista, também operada pela Rumo, que obteve em 2020 a renovação antecipada da concessão, que agora vai até 2058 -com a obrigatoriedade de investir R$ 6 bilhões.

Com a Norte-Sul, as operações da concessionária chegarão a Mato Grosso, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul, principais produtores do país, e a um total de 14 mil quilômetros de ferrovias, ligando aos principais portos.

O modal ferroviário é responsável por transportar 21,5% das cargas no Brasil, de acordo com dados da ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), índice muito inferior aos de países como Austrália (55%) e Rússia (81%), mas superior ao da China (14%).

A Coruripe, que tem capacidade instalada para moer 15 milhões de toneladas de cana, atingirá 14 milhões de toneladas na safra 2022/23.

Prejudicada por três anos seguidos de seca e geada forte em 2021, a usina deverá atingir sua capacidade plena na próxima safra, de acordo com seu presidente.

“O setor todo, São Paulo, Minas Goiás, Goiás, sofreu com a questão climática”, disse. O grupo sucroenergético é o sétimo entre os maiores do país.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.