Bolsonaro e Guedes pedem para supermercados segurarem preços para conter inflação

Presidente pediu colaboração dos empresários para "dar satisfação a parte considerável da população"

Folhapress -
Presidente e ministro da Economia participaram do encontro de forma virtual. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Pressionados pela inflação em ano eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro Paulo Guedes (Economia) pediram nesta quinta-feira (9) para empresários do setor de supermercados segurarem os preços da cesta básica.

O pleito foi apresentado durante evento da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), do qual ambos participaram virtualmente.

“O apelo que eu faço para os senhores, para toda a cadeia produtiva, é para que os produtos da cesta básica obtenham o menor lucro possível, para a gente poder dar satisfação a parte considerável da população, em especial os mais humildes”, afirmou Bolsonaro.

O chefe do Executivo ainda disse que “em momentos difíceis, entendo que todos nós temos de colaborar”.

“Sei que a margem de lucro tem cada vez diminuído mais. Vocês já têm colaborado nesse sentido, mas colaborem um pouco mais na margem de lucros dos produtos da cesta básica”, disse. “Se for atendido, agradeço muito; se não for, é porque não é possível”, afirmou.

“Temos fé em Deus que essa crise dos dois países [Rússia e Ucrânia] terá seu ponto final brevemente, assim como o vírus, que, ao que tudo indica, já teve o seu ponto final”, concluiu.

Já Guedes reforçou o apelo ao pedir uma trégua nos valores. “Agora é hora de dar um freio nessa alta de preços, é voluntário, é pelo bem do Brasil”, afirmou o ministro.

“Da mesma forma que os governadores têm de colocar a mão no bolso e ajudar o Brasil, o empresariado brasileiro tem de entender o seguinte: devagar agora um pouco, pois temos de quebrar essa cadeia inflacionária”, disse Guedes.

As empresas, por sua vez, pedem soluções para conter os preços. O presidente da Abras, João Galassi, defendeu que a nova tabela de preços da indústria para o varejo fique só para 2023.

“Considerando que não incidem impostos federais sobre a cesta básica, como podemos oferecer os itens da cesta básica a menor custo? Não podemos ficar de braços cruzados aguardando uma solução”, disse.

“Após nossa primeira sessão temática, que será justamente a redução de custos através da reforma tributária, peço às autoridades e líderes que nos debrucemos para solucionar a urgência do momento. A sociedade precisa da cadeia nacional de abastecimento. Quero lançar um desafio: nova tabela só em 2023”, disse Galassi.

Guedes apoiou a proposta defendendo a nova tabela só em 2023.

No fim da tarde, a entidade divulgou uma nota propondo ao governo isenção de impostos dos produtos da cesta básica e a desoneração da folha de pagamentos.

A representante de mais de 50 varejistas do país diz que irá a repassar ao consumidor qualquer redução que houver na cadeia produtiva.

A escala dos preços é uma das principais preocupações de Bolsonaro na corrida eleitoral.

A situação econômica do país está sendo determinante para a maioria dos brasileiros decidir em quem votar neste ano -e, para a maior parte dos eleitores, o quadro piorou nos últimos meses.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada em maio, 53% dos brasileiros consideram que a situação econômica está tendo “muita influência” na sua decisão de voto.

Apesar de o governo ter reforçado o discurso de que a inflação é consequência de crises globais e ações de terceiros, como governadores que impuseram o distanciamento social contra a Covid-19, é grande a parcela de brasileiros que atribuem a Bolsonaro responsabilidade pela alta de preços.

Segundo pesquisa de março do Datafolha, 75% apontam que o governo Bolsonaro tem responsabilidade pela inflação.

Os pleitos de Bolsonaro e Guedes são feitos após o ministro comemorar a desaceleração da inflação registrada em maio.

“A inflação começou a descer, acabamos de ter a primeira notícia”, disse Guedes durante evento. Ele afirmou que o governo vem promovendo cortes de impostos para tentar conter os preços -embora, no caso da cesta básica, a avaliação da equipe econômica é que a desoneração de tributos existente hoje é muito ampla e privilegia também os ricos.

A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), desacelerou para 0,47% em maio, informou nesta quinta o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar disso, o acumulado em 12 meses continua em dois dígitos (11,73%).

Os preços do grupo alimentos e bebidas continuam aumentando. A alta foi de 0,48% em maio, depois de uma variação de 2,06% em abril.

Guedes destacou que o governo federal tem feito sua parte para minimizar os impactos econômicos decorrentes da guerra na Ucrânia e disse não ter sido possível dar reajuste salarial aos servidores públicos neste ano.

“O governo federal não conseguiu dar aumento de salários para o funcionalismo, mas reduziu impostos para 200 milhões de brasileiros”, afirmou. O governo discutia um reajuste linear de 5% para todas as categorias. O prazo para decisão termina no dia 2 de julho.

Bolsonaro chegou no início da tarde desta quinta-feira (9) aos Estados Unidos, onde se reunirá com o presidente americano Joe Biden e participará da Cúpula das Américas.

No rápido discurso na Abras, o presidente disse que apresentará na Cúpula das Américas o “Brasil de verdade e as oportunidades que temos a oferecer para todo mundo”.

De olho nas eleições, Bolsonaro ainda disse ser contra a revogação da reforma trabalhista e outras medidas econômicas apresentadas pelo ex-presidente Lula em uma prévia do programa de governo divulgada a aliados nesta semana.

OUTROS PRESIDENTES TAMBÉM COBRARAM EMPRESÁRIOS

A tentativa de responsabilizar empresários pela alta dos preços não é uma novidade e já foi tema de discurso de outros presidentes da República, aqui e no exterior.

Em 2009, ao cobrar o repasse de desonerações, o ex-presidente Lula reconheceu que esse tipo de política tem pouca eficácia e que é melhor usar o dinheiro para aumentar transferências de renda, solução defendida pela maioria dos economistas, mas normalmente descartada pelos políticos.

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