Especialista em Segurança Pública aponta cinco lições do caso Lázaro Barbosa para Goiás

Nesta terça-feira (28) faz um ano que o país parava para acompanhar a captura e morte do criminoso

Emilly Viana -
Buscas por criminoso duraram 20 dias e mobilizaram mais de 300 policiais. (Foto: Divulgação/ Polícia Civil)

Uma das maiores operações para captura de um foragido, o fim da ‘caçada’ a Lázaro Barbosa de Sousa, de 32 anos, completa um ano nesta terça-feira (28).

As buscas pelo criminoso duraram 20 dias e mobilizaram cerca de 300 homens e mulheres das forças de segurança de Goiás e do Distrito Federal. A ação se concentrou na zona rural de Cocalzinho, interior do estado.

Após cometer uma chacina em Ceilândia (DF), o assassino deu início a uma sequência de fugas e crimes. Fez reféns, baleou três pessoas, roubou carros e invadiu chácaras para cometer furtos. Ele também já era procurado por crimes como homicídio e estupro.

Entre os métodos que foram utilizados na tentativa de capturar Lázaro estão drones de alta tecnologia, helicópteros com visão noturna, câmeras com sensor de calor e cães farejadores.

Ainda assim, para o advogado e especialista em Segurança Pública Edemundo Dias, a operação não pode ser considerada bem-sucedida como as forças policiais e lideranças da Segurança Pública em Goiás celebram. O especialista, que é delegado de Polícia aposentado, argumenta que dá para tirar pelo menos cinco lições do caso.

Primeira

Segundo Edemundo Dias, o espetáculo criando em torno da ação prejudicou as buscas e revelou um amadorismo por parte da polícia goiana. “Em vez de mobilizar agentes experientes, experts neste tipo de caso e fazer uso de tecnologia e inteligência, mandaram um contingente expressivo, que não resolveu o problema de forma célere”, afirma.

O advogado destacou, ainda, o momento em que o secretário estadual de Segurança Pública à época, Rodney Miranda, se deslocou até o lugar das buscas. “Desnecessário ir até lá. Ele devia estar aqui no comando, como líder”, pontua.

Segunda

O ex-delegado alega que a morte do Lázaro Barbosa comprometeu o andamento das investigações. “Havia clamor social muito grande pela morte dele. E isso afeta quem estava lá, que pode ter se deixado levar por esse sentimento”, avalia.

De acordo com ele, em casos como este, a prisão do indivíduo é fundamental não só para solucionar os crimes, mas para compreender o contexto que os envolve. “Perderam a oportunidade de avaliar melhor aquela situação, se havia alguém por trás, se ele era apenas um lobo solitário como foi ventilado ou a ponta de iceberg de outros atores”, aponta.

Terceira

A região em que o criminoso atuou e se escondeu torna o caso ainda mais emblemático, na visão do advogado. “Mais uma vez vemos que a atuação das autoridades de segurança se limita aos centros de poder. E essa questão de responsabilidade de Goiás e Distrito Federal em relação ao entorno de Brasília é antiga”, explica.

A falta de assistência, segundo o especialista, torna a região uma das mais críticas em relação a crimes. “Entorno de Brasília é, inclusive, um termo que os próprios moradores não gostam porque remete a um ato discriminatório. Ali é uma região do estado, como qualquer outra”, enfatiza.

Quarta

Na avaliação, o delegado aposentado também aponta um problema comum nas forças de segurança brasileiras: os conflitos de função. “Apesar da constituição caminhar para 40 anos de promulgação, ela ainda não possui leis orgânicas, definindo o papel de cada polícia. Isso gera um conflito entre as próprias polícias, e pudemos ver isso na operação contra o Lázaro”, observa.

Conforme a análise de Edemundo Dias, o acúmulo de diferentes polícias no local, sem a devida sistematização, pode ter contribuído com a demora na resolução. “Isso gera uma confusão e nós sabemos que o problema não atinge só ações como esta, mas até policiais penais e guarda municipal, que estão se digladiando com outras forças”, pondera.

Quinta

A operação que terminou na morte de Lázaro Barbosa também nos faz refletir sobre o desenvolvimento da polícia nas últimas décadas, aponta o especialista. “Noto que as instituições republicanas evoluíram, mas a polícia não se desenvolveu. Ela ainda é parte de política de governo e não de Estado, como deveria. A polícia tem que entender que é instituição que pertence ao povo e à república, não às autoridades políticas”, destaca.

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