Kassio propõe selo de acerto para institutos de pesquisa eleitoral, e especialistas veem erro inaceitável
Presidente do TSE pretende premiar aqueles que mais acertarem os resultados do pleito

LUÍSA MARTINS, ARTHUR GUIMARÃES DE OLIVEIRA E ANA GABRIELA OLIVEIRA LIMA – O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, propôs aos institutos de pesquisa a implementação de um “selo de acurácia eleitoral”, para premiar aqueles que mais acertarem os resultados do pleito.
A minuta da proposta foi distribuída aos representantes de 16 institutos nesta terça-feira (14), em reunião no tribunal. O encontro foi convocado por Kassio para buscar um consenso sobre a regulamentação das pesquisas, após a controvérsia envolvendo a censura que ele impôs a um levantamento Atlas/Bloomberg.
Na reunião, ele disse que a minuta apresentada não é definitiva e abriu prazo até sexta-feira (17) para ouvir os institutos. Alguns dos presentes foram favoráveis à medida e outros, contra.
Luciana Chong, que é diretora do Datafolha, instituto de pesquisas de opinião pertencente ao Grupo Folha, criticou a medida em discurso no evento.
“O Datafolha respeita profundamente o papel da Justiça Eleitoral e reconhece sua contribuição histórica para a credibilidade das eleições brasileiras. Justamente por isso, entende que esta iniciativa é inaceitável”, afirmou.
“Pesquisas não têm o objetivo de prever o resultado de uma eleição. Seu papel é retratar, por meio de métodos estatísticos reconhecidos, as intenções de voto existentes no momento em que são realizadas. Confundir pesquisa com previsão é um erro comum entre pessoas mal informadas sobre a ciência estatística. Não deveria ser uma premissa admitida na mais alta corte eleitoral do país”, acrescentou.
A minuta apresentada por Kassio prevê “reconhecer e valorizar empresas de pesquisa eleitoral cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais”, tanto em âmbito nacional quanto estadual ou no Distrito Federal.
Segundo o texto, o selo tem como finalidade “contribuir para a precisão entre os dados levantados pelas pesquisas e os resultados oficiais das eleições”, incentivar o aprimoramento contínuo das metodologias e dar “visibilidade às empresas com melhor desempenho”.
A proposta também diz que a iniciativa pode fomentar a transparência e a confiabilidade das informações, além de contribuir para aprimorar indicadores e promover estudos.
As premiações englobam duas categorias: pesquisas de boca de urna, realizadas no dia da eleição, e as realizadas nos sete dias que antecedem o pleito. Os critérios de avaliação ainda vão ser definidos em um regulamento específico.
No discurso de abertura, Kassio disse que a proposta tem como essência “celebrar a excelência técnica” dos institutos de pesquisa. “Iniciativas de reconhecimento estimulam a inovação metodológica, incentivam o investimento em qualidade e fortalecem a credibilidade das pesquisas perante a sociedade”, declarou.
O ministro também afirmou que o objetivo da reunião não era “discutir resultados de pesquisas específicas, tampouco interferir na autonomia técnica das empresas responsáveis por sua elaboração”.
“Diferentemente do que se observa em outros países, as pesquisas eleitorais ocupam posição de especial relevância no debate público. O eleitorado brasileiro atribui significativo valor às informações por elas produzidas, que se consolidaram como sustentáculo na compreensão da dinâmica eleitoral, possuindo impacto efetivo no engajamento desse processo”, prosseguiu o presidente do TSE.
Em nota, a Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) criticou a proposta e se colocou à disposição para um debate técnico. A entidade também argumentou de que a pesquisa eleitoral é um retrato do momento, e não uma previsão. “Exigir que uma pesquisa acerte o resultado é confundir ciência com bola de cristal.”
Além disso, afirmou que a medida criaria incentivos perversos, ao permitir que institutos sem rigor metodológico acompanhem levantamentos de empresas reconhecidas e ajustem seus números na reta final da campanha apenas em busca do selo.
O cientista político Antonio Lavareda também disse que a proposta de Kassio parte da premissa equivocada de que pesquisas eleitorais têm a função de prever o resultado das urnas.
“Pesquisa não é prognóstico”, afirma ele, que também é presidente de honra da Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais) e presidente do conselho científico do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas).
Ele exemplifica que, no Brasil, parte significativa das pessoas utiliza o próprio resultado da última aferição divulgada para balizar o seu voto no dia seguinte.
“Voto é comportamento, pesquisa mede atitude.” Lavareda também critica a possibilidade de a Justiça Eleitoral assumir o papel de árbitra do desempenho dos institutos. “É uma coisa absolutamente bizarra, que não existe em nenhum lugar do mundo. É uma jabuticaba que precisa ser refletida e evitada.”
O cientista político e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Bruno Bolognesi, por sua vez, chama de “absurdo completo” o selo proposto no TSE.
Ele afirma que a medida desconsidera a complexidade que envolve a realização das pesquisas, perpassada por fatores como as altas taxas de abstenção, que atingem de maneira assimétrica os brasileiros.
Embora os institutos tentem estimar essas diferenças, o cenário medido no dia da eleição é também afetado por outros fatores, como se choveu ou se houve feriado próximo, afirma.
Para ele, uma consequência possível da aplicação do selo é que institutos de pesquisa passem a preferir medir resultados considerados mais previsíveis, com o objetivo de conseguir o certificado.
Para Bolognesi, a Justiça Eleitoral deveria focar outras medidas em prol da qualidade das pesquisas. Ele cita como exemplo exigir a presença de profissionais como cientistas políticos e estatísticos em diferentes etapas e formação para os institutos melhorarem a elaboração de questionários.
SUPREMO
De acordo com um ministro do Supremo e um auxiliar de outro magistrado da corte, a medida causa estranheza, pois o TSE vai colocar como concorrentes iguais institutos de pesquisa que usam metodologia diferentes.
Essas duas fontes veem uma tentativa de Kassio de superar o desgaste causado pela censura à pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrou queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio após o caso “Dark Horse”.
Depois de um pedido de vista da ministra Estela Aranha no início de junho, o caso deve voltar a ser debatido pelo plenário em agosto. Kassio disse a interlocutores que está confiante de que terá maioria para aprovar uma regulamentação.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, uma das propostas em debate para regular as pesquisas eleitorais é restringir a inclusão de áudios e vídeos em questionários pelos institutos.
O argumento é que esse recurso pode aumentar a chance de manipulação nas respostas dos eleitores.
Até o momento, decisões contrárias a publicações de pesquisas têm como base critérios técnicos, como ausência de registro na Justiça Eleitoral ou número insuficiente de entrevistados, e não o mérito dos questionamentos.
Ao censurar a pesquisa Atlas/Bloomberg, Kassio atendeu a pedido do PL, que reclamou do fato de o instituto ter mostrado para os entrevistados o áudio em que Flávio cobrava de Daniel Vorcaro, do Banco Master, dinheiro para financiamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A coleta das intenções de voto ocorreu, porém, antes da reprodução do áudio.






