Emprego, estudo ou projeto de vida internacional: o que explica o aumento de goianos que saíram em definitivo do Brasil?

Segundo especialista, fenômeno da emigração atualmente está ligado a propósitos mais profundos, muitas vezes familiares

Ícaro Gonçalves -
goianos migrando para o exterior
Mala durante inspeção em aeroporto (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Para muitos goianos, a saída definitiva do país tem sido um objetivo cada vez mais comum e factível. Mas se antes, o fenômeno da emigração ocorria por motivos puramente financeiros, hoje ele está ligado a propósitos mais profundos, como projetos de vida de longo prazo.

Como noticiado pelo Portal 6, o número de goianos que oficializaram a saída definitiva do Brasil quase quadruplicou nos últimos cinco anos. Segundo dados da Receita Federal, as Declarações de Saída Definitiva do País (DSDP) emitidas por goianos saltou de 358 em 2021, para 1.362 em 2026.

Embora os números revelem uma alta expressiva nas formalizações, eles não significam necessariamente que todas essas pessoas tenham deixado o Brasil recentemente.

Segundo a advogada e professora Mariane Stival, especialista em Direito Internacional, é preciso interpretar os dados considerando o caráter tributário da declaração.

“Esse aumento significa que mais pessoas estão formalizando a saída, não necessariamente um aumento de emigrantes. Muitos goianos já moram fora há muitos anos, mas que nunca formalizaram essa saída, e estão fazendo agora”, explica.

Marianne Stival é advogada especializada em Direito Internacional. (Foto: Arquivo Pessoal/Mariane Stival)

Para a especialista, o crescimento das declarações também reflete uma transformação no perfil dos emigrantes goianos, reflexo do mesmo movimento que ocorre no Brasil. Se antes predominavam jovens em busca de oportunidades temporárias, hoje aumentam os projetos familiares e profissionais planejados para o longo prazo.

“Os números expressam um fenômeno maior, de pessoas que estão construindo projetos de vidas internacionais. Isso ajuda a explicar a questão da idade e o aumento da idade média dos emigrantes definitivos. Antes, a principal motivação era a busca por algum tipo de trabalho, pessoas que saíam como turista para se estabelecer lá fora. Hoje vemos um número crescente de pessoas e famílias inteiras emigrando para construir uma vida internacional”, afirma Mariane.

A mudança, segundo ela, está relacionada a diferentes fatores econômicos, profissionais e patrimoniais. A busca por melhores oportunidades de trabalho, universidades estrangeiras, qualidade de vida e estabilidade econômica se soma ao interesse crescente de empresários em expandir os negócios para outros mercados.

No caso de Goiás, Mariane destaca um aspecto regional que ajuda a compreender esse movimento. “Em Goiás, especificamente, o processo de internacionalização do agronegócio tem feito muitos emigrarem, incluindo empresários e profissionais do setor”, observa.

Além do agronegócio, famílias que acumulam patrimônio no exterior, sucessores de empresas internacionais e estudantes interessados em universidades estrangeiras também passaram a integrar esse fluxo migratório.

Para a especialista, trata-se de uma migração cada vez mais planejada e baseada em objetivos de longo prazo. “É muito importante fazer esse planejamento para você já entrar regular e para já ter essa integração social que vai permitir a tranquilidade da pessoa e daquela família na nação”, destaca.

Dos Estados Unidos para o mundo

Ainda de acordo com os dados da Receita Federal, a idade média dos emigrantes definitivos passou de 36,7 para 41,2 anos, o que reforça a tese de emigrantes goianos mais maduros, com carreira estabelecida, e que projetam uma vida com as famílias no exterior.

Os Estados Unidos permanecem como o principal destino, com 427 declarações registradas em 2026. Portugal aparece na segunda posição, com 318 registros, seguido por Reino Unido, Espanha e Irlanda.

Para além do ponto de vista jurídico e econômico, quem vive a experiência real da migração percebe mudanças importantes no comportamento dos brasileiros.

Morando da Flórida desde fevereiro de 2023, a jornalista Lorena Monturil afirma à reportagem que o chamado “sonho americano” perdeu parte da força que tinha anos atrás.

“Antigamente existia uma romantização da vida americana, do sonho americano. As pessoas queriam vir para cá a todo custo. Hoje elas têm mais acesso à informação e acabam pesquisando muito antes de tomar essa decisão”, relata.

Lorena Monturil é jornalista e moradora da Florida desde 2023 (Foto: Arquivo Pessoal/Lorena Monturil)

Segundo Lorena, o número de brasileiros que chegam aos Estados Unidos sem planejamento também diminuiu. Embora ainda existam casos de imigração irregular, ela avalia que muitos passaram a considerar os riscos envolvidos antes de decidir deixar o Brasil.

Na percepção dela, o cenário também mudou por conta do endurecimento das políticas migratórias em todo território americano, em especial nos estados historicamente mais procurados, como a Flórida.

A fiscalização mais rigorosa e o aumento das exigências para permanência legal fizeram com que muitos brasileiros postergassem o sonho de viver no país.

“Aqui é um estado muito difícil de as pessoas ficarem irregulares. As leis são muito rígidas e, principalmente agora, ficou mais complicado para quem não está com a situação migratória regular”, afirma.

Outro aspecto observado por Lorena é a mudança nas expectativas de quem escolhe viver fora. Segundo ela, muitos brasileiros já não alimentam a expectativa de enriquecer rapidamente, mas buscam estabilidade, qualidade de vida e segurança para a família.

“Eu acho que a tendência é que as pessoas continuem mais pé no chão, porque hoje a gente tem mais acesso a informação. […] As pessoas vêm para os Estados Unidos hoje mais conscientizadas de que a realidade é outra. Na Europa também, a gente sabe que tem uma economia estável lá. Muitas pessoas vão buscando viver melhor, mas elas sabem que na Europa não se consegue fazer grana para voltar e viver muito bem no Brasil. Consegue-se viver muito bem lá, com a qualidade de vida que não consegue no Brasil, mas não enriquecer”, finaliza.

*Colaborou Natália Sezil

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Ícaro Gonçalves

Jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

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