Maior romaria em formato de camping acontece em Goiás e reúne histórias que atravessam gerações
Relato de Agostina ajuda a mostrar como a Romaria do Muquém mudou ao longo de 72 anos sem perder a força entre os fiéis

Durante alguns dias de agosto, uma área no Norte de Goiás muda completamente de cenário.
Barracas surgem aos milhares, famílias chegam carregando mantimentos e histórias, e o distrito do Muquém, em Niquelândia, passa a funcionar praticamente como uma cidade temporária.
O Santuário aponta ainda o local como uma das maiores áreas de acampamento ligadas a uma romaria, com cerca de 2,3 mil espaços destinados aos romeiros.
Realizada anualmente entre os dias 05 e 15 de agosto, a celebração reúne pessoas vindas de diferentes regiões.
Muitos permanecem acampados durante vários dias, repetindo um costume transmitido dentro das próprias famílias.
Histórias que comovem
Por trás dos números gigantescos, porém, estão histórias como a de Agostina, que conhece bem o quanto a experiência de chegar ao Muquém mudou ao longo das décadas.
Ela fez a primeira viagem para o local em 1954 e, 72 anos depois, ainda guarda com detalhes as lembranças daquele caminho. Na época, levava a filha de apenas 01 ano.
“Eu vim em 1954, com a minha filhinha pequena, com um ano de idade”, recordou em vídeo divulgado pelo Santuário.
A viagem, que hoje pode ser feita por estrada, exigia cerca de cinco dias a cavalo. Bagagens, comida e cobertas seguiam na garupa dos animais.
Quando a noite chegava, não havia estrutura esperando pelos peregrinos.
Agostina conta que os próprios viajantes preparavam o lugar onde dormiriam. Os equipamentos usados nos cavalos eram colocados sobre o chão e, depois, galhos e ramos retirados da mata formavam uma espécie de base, coberta com lençóis.
“Quando chegava à noite, tarde, no pouso, a gente pegava aqueles bacheiros molhados de suor do cavalo e forrava o chão”, relembrou.
O caminho também incluía travessias de rios. Em alguns pontos, os pertences seguiam de canoa enquanto os cavalos atravessavam nadando, conduzidos pelos romeiros.
Uma dessas passagens ficou marcada na memória da família. O irmão de Agostina, então com cerca de 12 anos, ficou assustado diante da tarefa de puxar o próprio cavalo durante a travessia.
“Minha barriga está doendo”, dizia o menino, até que outro integrante do grupo se ofereceu para conduzir o animal.
Quando soube que não continuaria mais cumprindo a tarefa, a dor desapareceu. A lembrança, contada décadas depois com bom humor, tornou-se parte das histórias acumuladas ao longo das peregrinações.
Devoção que se perpetua
Setenta e dois anos depois da primeira viagem de Agostina, o cenário é outro.
Atualmente, os acampamentos variam de pequenos espaços a áreas superiores a 100 m², formando uma estrutura que recebe famílias inteiras durante a programação.
A tradição também ganhou proporções muito maiores. Além de quem permanece no acampamento, milhares de pessoas percorrem os cerca de 45 km da chamada Rodovia da Fé, na GO-237, entre Niquelândia e o distrito do Muquém.

Romeiros participam da última Procissão da Penitência desta edição, encerrando um dos momentos mais simbólicos da caminhada no Muquém. (Foto: Divulgação/@santuarionsabadiadomuquem)
Mesmo diante de tantas transformações, relatos como o de Agostina ajudam a explicar por que tantas famílias retornam ano após ano.
Mudaram as estradas, os meios de transporte e a estrutura encontrada na chegada.
O que começou com cinco dias sobre um cavalo e noites improvisadas no chão hoje se mistura a milhares de barracas, junto a uma fé que permanece inabalável através do tempo e passa de geração a geração.
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