Casas Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bi e avalia recuperação extrajudicial ou judicial
Anúncio vem depois de um trimestre em que a empresa teve um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, em meio a diversas baixas contábeis, ante uma perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado

MAELI PRADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A rede de varejo Casas Bahia disse neste domingo (16) que avalia uma renegociação de suas dívidas com credores, o que pode incluir um pedido de recuperação judicial ou extrajudicial, em um trimestre marcado por fechamento de lojas, demissões e baixas contábeis.
O anúncio vem depois de um trimestre em que a empresa teve um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, em meio a diversas baixas contábeis, ante uma perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia (ou seja, a diferença entre o valor total dos seus ativos e dos seus passivos) está negativo em R$ 8,1 bilhões.
“Dentre as medidas avaliadas pela companhia e passíveis de potencial implementação estão medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial”, afirmou a varejista na divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre.
A companhia já recorreu ao instrumento: em abril de 2024, a varejista entrou em recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,1 bilhões, e saiu três meses depois.
A dívida líquida da empresa ficou em R$ 1,2 bilhão no trimestre encerrado em junho.
A Casas Bahia disse que o prejuízo líquido se deu por uma série de baixas feitas no balanço: R$ 5,7 bilhões em imposto de renda diferido, ágio, revisões contratuais, reorganização de pessoal e fechamento de lojas.
A empresa afirmou que, em um cenário de juros altos e endividamento das famílias, reduziu o volume de compras de estoque para reduzir seu tamanho. “Comprar de forma estruturalmente menor significa operar em uma escala menor”, afirma.
A empresa contratada para a auditoria externa da Casas Bahia, a EY, se absteve de dar opinião sobre as demonstrações financeiras do segundo trimestre. Segundo a auditoria, há uma “incerteza relevante” sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia.
FECHAMENTO DE 298 LOJAS E DEMISSÕES
A companhia informou que fechou 298 lojas e que está revisando seu quadro de colaboradores. Segundo informações do jornal Valor Econômico, a varejista demitiu cerca de duas mil pessoas na semana passada.
A Casas Bahia disse que está revisando o seu quadro de colaboradores para ajustá-lo ao novo tamanho da operação, além de revisão de contratos, despesas e investimentos, “buscando uma estrutura de custos compatível com o nível esperado de atividade e geração de caixa.”
A varejista afirmou ainda que revisará a estratégia comercial dos seus canais digitais para priorizar margem e geração de caixa em vez do crescimento dos volumes de venda ou de categorias que não sejam lucrativas.
OITAVO TRIMESTRE DE PREJUÍZO
Com o prejuízo informado neste domingo, a Casas Bahia registra o seu oitavo trimestre seguido de perdas, em uma trajetória que, segundo analistas, vem se intensificando com os juros altos, que incidem sobre sua elevada despesa financeira, e a inadimplência crescente da população.
Desde a última vez que reportou lucro, no segundo trimestre de 2024, mesmo período em que entrou em recuperação extrajudicial, a varejista acumula resultados negativos que foram aumentando de tamanho.
Se entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025 a companhia apresentava prejuízos de centenas de milhões de reais, o rombo escalou e ultrapassou R$ 1 bilhão nos períodos que se seguiram, escancarando a crise financeira da empresa.
“O fator determinante para a Casas Bahia estar na situação em que está hoje é o que tem afetado diversas empresas de varejo no Brasil, que é o longo e persistente ciclo de juros reais muito altos”, aponta o consultor de varejo Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail.
Uma sequência de números divulgados por varejistas na semana passada indicaram que a desaceleração do consumo e o aumento do endividamento das famílias castigam o setor mais do que o esperado.
O Magazine Luiza registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes. A Renner afirmou que não conseguirá bater a meta de vendas que previa para 2026, enquanto a C&A veio com números considerados abaixo das expectativas dos analistas.
“O varejo talvez seja o setor mais penalizado pelo nível elevado dos juros, que permaneceram altos por muito tempo. As famílias continuam bastante endividadas e a concorrência no setor é intensa”, afirma Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.
Serrentino lembra que a taxa básica (Selic), hoje em 14% ao ano, estava em 2% ao ano entre o final de 2020 e início de 2021, e que os juros baixos estimularam muitas empresas do setor a se alavancarem na época.
“O custo de capital era muito barato e havia muita liquidez na saída da pandemia. Mas quando os juros subiram repentinamente e chegaram ao patamar que estão hoje, a estrutura de capital dessas companhias passou a não suportar mais os seus modelos econômicos, que são negócios de baixas margens e muita competição”, avalia Serrentino.
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