Moradores de Ceuta destroem acampamento de imigrantes em meio a aumento de tensões

Sem acesso regular a comida, água, abrigo e instalações sanitárias, muitos dormem em acampamentos improvisados e praias ou circulam pelas ruas

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Moradores de Ceuta destroem acampamento de imigrantes em meio a aumento de tensões
Imigrantes do Marrocos em abrigos improvisados na Espanha. (Foto: Captura via Youtube/CNN)

Os protestos contra a presença de imigrantes em Ceuta escalaram na quinta-feira (27), quase um mês após a entrada em massa de pessoas vindas do Marrocos no exclave espanhol no norte da África.

Moradores foram até uma praia onde imigrantes passam a noite e incendiaram seus pertences. O grupo de moradores entrou em confronto com a polícia, que interveio para dispersá-los.

Mais cedo, dezenas de manifestantes bloquearam o acesso de veículos da Cruz Vermelha à praia, impedindo a distribuição de comida. Muitos agitavam bandeiras espanholas e gritavam “Vão embora!” e “Fora, Cruz Vermelha!” antes de serem dispersados pela polícia.

Os governos da Espanha e de Ceuta pediram calma diante da escalada da tensão.

A crise se agravou após a entrada de mais de 70 mil migrantes em Ceuta, no fim de julho. O episódio provocou protestos de moradores, que relatam problemas de segurança e higiene e acusam o governo central de abandono.

A maioria dos imigrantes retornou ao Marrocos poucas horas depois, mas milhares permaneceram no território. O governo espanhol estima o número entre 3.500 e 7.000, enquanto as autoridades de Ceuta falam em pelo menos 10 mil.

Sem acesso regular a comida, água, abrigo e instalações sanitárias, muitos dormem em acampamentos improvisados e praias ou circulam pelas ruas.

Na noite de quarta-feira (26), milhares de moradores participaram de um protesto que terminou em confronto. Segundo a imprensa espanhola, a polícia usou gás lacrimogêneo para evitar choques com imigrantes acampados em uma praia.

Na madrugada de quinta, um veículo militar com quatro soldados teria sido atacado por cerca de 70 imigrantes, segundo a Polícia Nacional. O grupo atirou pedras e outros objetos, obrigando os militares a recuar e pedir apoio policial.

Doze migrantes, todos marroquinos, foram detidos, informou um porta-voz da polícia. Um militar sofreu ferimentos leves após ser atingido por uma pedra.

A secretária da Fazenda do governo de Ceuta, Kissy Chandiramani, afirmou à rádio Cadena Ser que a tensão na cidade é elevada pela falta de respostas do governo central e pela sensação de abandono entre os moradores.

Ela pediu que os protestos ocorram sem violência e em um ambiente de tranquilidade, argumentando que a escalada da tensão não ajudaria a resolver a crise.

Em Madri, o ministro da Justiça, Félix Bolaños, pediu confiança no Estado.

Sob críticas de que reagiu lentamente à crise, o governo do premiê Pedro Sánchez adotou nos últimos dias medidas para abrigar os imigrantes e acelerar seu retorno ao Marrocos.

Também criou um “comando único” para Ceuta, sob responsabilidade do ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres.

Torres pediu “compreensão” aos moradores e afirmou que cada imigrante precisa ser identificado para que as autoridades decidam se ele tem direito a asilo ou pode ser devolvido.

“Entendo que haja pessoas que digam que os imigrantes devem ser devolvidos imediatamente, mas temos que fazer isso respeitando a lei”, disse Torres na quarta-feira, durante visita ao exclave, que tem cerca de 80 mil habitantes.

O Ministério do Interior anunciou nesta quinta o envio de mais funcionários para identificar os imigrantes.

Os menores desacompanhados terão proteção especial. O governo aprovou a transferência de 25 milhões de euros (cerca de R$ 150 milhões) para seu acolhimento.

Em paralelo, uma equipe de coveiros usando macacões de proteção descartáveis e máscaras faciais começou, na sexta-feira, a sepultar alguns dos dezenas de migrantes que morreram durante a travessia em massa há três semanas.

Um líder religioso muçulmano fez uma breve oração enquanto os trabalhadores baixavam os quatro primeiros corpos, envoltos em sacos mortuários brancos, para sepulturas revestidas de blocos de concreto e dispostas lado a lado no cemitério muçulmano de Ceuta, enquanto carros funerários traziam mais corpos.

O gerente interino do cemitério, Said Mohammed, disse que o plano era sepultar cerca de 70 corpos nos próximos dias, com 10 a 12 enterros por dia. Cerca de 95% das pessoas que estão sendo sepultadas ainda não foram identificadas, mas cada túmulo recebeu uma pedra com um número, caso o corpo venha a ser reivindicado e eventualmente repatriado, afirmou ele.

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