ONU aprova novo mapa-múndi menos distorcido, e só EUA votam contra

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ONU aprova novo mapa-múndi menos distorcido, e só EUA votam contra
Salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. (Foto: Patrick Gruban/Wikimedia Commons)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou nesta sexta-feira (4) uma resolução que rejeita a projeção de Mercator do mapa-múndi e apoia a adoção de outro modelo que distorce menos as massas continentais.

Um dos efeitos da projeção Equal Earth, uma proposta do cartógrafo Tom Patterson em parceria com o engenheiro Bojan Savric e o professor Bernhard Jenny, de 2018, é aumentar o tamanho da representação da África. Na projeção de Mercator, os países mais próximos dos pólos ficam maiores, o que fazia com que o continente africano parecesse do mesmo tamanho da Groenlândia, mesmo sendo 14 vezes maior.

Não à toa, a promoção do texto foi liderada pelo Togo, após campanha da União Africana. Foram 164 países (Brasil entre eles) a favor da proposta, com apenas 6 abstenções (Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldova, Sérvia e Ucrânia) e 22 que não participaram da votação. O único país que votou contra foram os Estados Unidos.

Ao argumentar contra a proposta, os EUA afirmaram que ela promovia uma “agenda ideológica” e desviava a atenção dos “verdadeiros problemas relacionados à paz internacional, à prosperidade ou às boas relações”.

O governo de Donald Trump, no entanto, tem usado justamente a cartografia para fazer pressão política contra adversários e avançar sua própria agenda ideológica.

Trump renomeou o golfo do México para golfo da América em meio a disputas com o vizinho ao sul, e usou a mudança de nomenclatura como justificativa para barrar jornalistas da Associated Press — que não passou a usar o mesmo termo — de entrevistas coletivas na Casa Branca. Empresas de tecnologia, como Google e Apple, também passaram a adotar o termo em seus aplicativos de mapas.

Mais recentemente, também em disputa tarifária contra o Canadá, Trump renomeou o lago Ontário para lago América. Em meio à guerra contra o Irã, também propôs mudar o nome do estreito de Hormuz para estreito de Trump.

A controvérsia com a geografia do governo americano também passou, em julho, por uma apresentação de slides recente em conferência sobre a Aids, no Rio de Janeiro, na qual países e localizações no continente africano estavam completamente errados. O Departamento de Estado assumiu “total responsabilidade” pelo que chamou de confusão e deturpação.

“A maioria das pessoas, ao olhar para o mapa, diz que simplesmente parece estranho”, afirmou Patterson, um dos criadores do mapa de 2018. “Foi quando criamos a projeção Equal Earth. Ela mantém uma forma mais familiar do mundo, os continentes não ficam distorcidos, e a área é rigorosamente proporcional em todo o mapa.”

A projeção de Mercator foi apresentado pela primeira vez por Gerardus Mercator em 1569. Os mapas do geógrafo e cartógrafo nascido na região do Flandres (hoje Bélgica) ganharam popularidade e foram usados como cartas náuticas.

“Um mundo justo começa com um mapa justo”, disse o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, à Reuters antes da votação desta sexta-feira.

A proposta “de forma alguma questiona o uso da projeção de Mercator para a navegação marítima e aérea, para as quais continua plenamente adequada”, afirmou o ministério togolês em comunicado.

O Togo planeja se reunir, nos próximos seis meses, com Estados-membros da União Africana e apoiadores de outras regiões para chegar a um acordo sobre como promover uma adoção mais ampla, afirmou o ministro togolês.

A resolução não tem força de lei e não se torna obrigatória. Os próximos passos da campanha são justamente incentivar a adoção do novo modelo em escolas e instituições em todos os países. Segundo o ministro, as discussões sobre os próximos passos também devem incluir empresas que atuam com mapas, GPS e outras tecnologias baseadas em localização.

Dussey associou a campanha pela adoção do mapa aos esforços mais amplos da África para enfrentar os legados da era colonial, ressaltando, porém, que não se trata de um ataque à Europa nem a qualquer outra civilização.

O uso generalizado do mapa de Mercator é uma consequência da colonização, afirmou. “O mundo está mudando. A África também está mudando”, disse.

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