Filme imagina uma Marilyn Monroe que sobreviveu e que precisa ganhar a vida

Curta dirigido por Maggie Gyllenhaal imagina uma Marilyn Monroe centenária e mistura humor, melancolia e memória em Veneza

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Marilyn Monroe
Marilyn Monroe em cena de “Niagara”, de 1953 (Foto: Reprodução/20th Century Fox)

TETÉ RIBEIRO

VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Marilyn Monroe tem um século de vida, dirige um carro automático que liga clandestinamente a um poste de rua e chega a um teatro vazio, na Broadway, onde um diretor e sua produtora de elenco procuram uma mocinha linda, de 25 anos, para protagonizar uma montagem de “Orpheus Descending”, peça de Tennessee Williams escrita em 1957.

A idade da senhora loira, elegante e de voz suave que se apresenta como Norma ao diretor e à produtora de elenco, visivelmente irritados com o que só pode ser uma situação de demência de uma mulher muito velha, dá lugar ao encantamento de ambos quando vão se dando conta, junto com o público, de quem está na frente deles.

Esta é a trama de “Flesh Impact”, curta de 22 minutos exibido no Festival de Veneza, com Ellen Burstyn e Dakota Johnson se alternando no papel de Marilyn Monroe.

Escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal, que preside o júri da competição deste festival, e lançado justamente no ano que marcou o centenário de nascimento de Marilyn -ela nasceu em junho de 1926 e morreu apenas 36 anos depois, em agosto de 1962.

“Flesh Impact” é como um sonho, um respiro, um alívio em meio a tantos filmes longos e de temáticas pesadas como os apresentados nesta edição.

A Marilyn centenária é interpretada pela atriz Ellen Burstyn, de 93 anos, que recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra este ano em Veneza. Ela também está em outro filme do festival, “Place to Be”, de Kornél Mundruczó, exibido fora da competição oficial, um “road movie” em que interpreta uma viúva que parte de Chicago para Nova York para devolver um pombo correio perdido.

Conforme começa a contabilizar as mudanças de seu sobrenome, aquela senhora tem sua história transformada em um conto de fadas, num “viveram felizes para sempre”, algo que nunca seria associado à Marilyn Monroe real, que morreu cedo e foi quase sempre muito infeliz.

Ela nasceu Norma Jeane Mortensen, depois virou Norma Jeane Baker, quando adotou o sobrenome da mãe, e então Norma Jeane Dougherty, quando se casou pela primeira vez, aos 16 anos.

Só passou a ser conhecida como Marilyn Monroe quando virou atriz de Hollywood, mas, na intimidade, continuava sendo Norma Jeane. Adotou o sobrenome do segundo marido, o jogador de beisebol Joe DiMaggio, quando se casou com ele em 1954. E o do terceiro marido, em 1961, quando se uniu ao dramaturgo Arthur Miller.

Em seu discurso de agradecimento pelo Leão de Ouro, Burstyn resumiu assim como escolhe seus trabalhos: “Um roteiro que me faz rir é bom, um que me faz chorar é bom, um que me faz rir e chorar é ótimo”.

“Flesh Impact” faz parte deste terceiro e seleto grupo. A premissa é engraçada, curiosa, peculiar, mas a história vai revelando uma melancolia inevitável conforme a personagem lembra dos filmes em que trabalhou e como foi escolhida para cada papel.

Imagens dos filmes reais de Marilyn são sobrepostas a gravações de Dakota Johnson na pele da atriz, que certa vez ouviu de um produtor que tinha o tal do “flesh impact”, algo como impacto carnal, em tradução livre -a qualidade de fazer parecer que ela estava ali, em pessoa, e que o espectador poderia tocá-la se estendesse a mão.

Ou seja, o tal “flesh impact” de Marilyn é como uma versão VIP de “sex appeal”. Era o plus de Marilyn Monroe, que, a propósito, segue intacto nos trechos editados no curta. E com que tanto Ellen Burstyn quanto Dakota Johnson, apesar de estarem impecáveis no papel, só podem sonhar.

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