Árvore plantada há 200 anos para salvar pessoas da fome hoje ameaça florestas inteiras

Introduzida para ajudar na alimentação da população, espécie brasileira se espalhou pelo Havaí e hoje ameaça a vegetação nativa

Isabella Cavalcante Isabella Cavalcante -
araçá vermelho
(Foto: Reprodução/Captura de tela/Youtube)

Uma árvore brasileira que chegou ao Havaí há cerca de 200 anos com uma missão bastante diferente acabou se transformando em um problema ambiental. Na época, a intenção era ampliar as opções de alimento disponíveis para a população. Porém, a espécie encontrou condições favoráveis para se desenvolver e se espalhar pelo arquipélago.

Com o passar das décadas, a árvore ocupou grandes áreas de vegetação e passou a competir com espécies nativas. Além disso, sua presença alterou a composição de determinadas florestas, dificultando o desenvolvimento de outras plantas.

A espécie em questão é o araçá-vermelho, conhecido cientificamente como Psidium cattleianum. A árvore foi introduzida no Havaí em 1825 e, atualmente, é considerada uma espécie invasora em diferentes áreas do arquipélago.

Uma árvore difícil de controlar

No Brasil, o araçá-vermelho convive com predadores, doenças e outros mecanismos naturais que ajudam a limitar sua expansão. No entanto, no Havaí, esses controles não funcionam da mesma maneira.

Por isso, a planta conseguiu encontrar espaço para crescer rapidamente. Em determinadas regiões, ela forma áreas bastante densas e dificulta a entrada de luz e o desenvolvimento de espécies nativas.

Diante desse cenário, pesquisadores começaram a buscar uma forma de controlar a árvore sem causar novos impactos ambientais. Foi então que uma solução curiosa ganhou espaço: utilizar um organismo que já convive naturalmente com a espécie no Brasil.

araçá vermelho

(Foto: Reprodução/Captura de tela/Youtube)

Inseto brasileiro entra no combate

O escolhido foi o Tectococcus ovatus, um pequeno inseto nativo do Brasil que possui uma relação específica com o araçá-vermelho.

O inseto se alimenta da árvore e provoca pequenas estruturas nas folhas, conhecidas como galhas. Dessa maneira, o desenvolvimento da planta é prejudicado e sua capacidade de ocupar novas áreas pode diminuir.

Em 2012, as autoridades havaianas aprovaram o uso do inseto como agente de controle biológico. Assim, em vez de depender apenas de métodos químicos ou da retirada manual das árvores, os pesquisadores passaram a utilizar um inimigo natural da própria espécie.

Drones aceleram o trabalho

Entretanto, havia outro desafio: espalhar os insetos por áreas extensas de floresta. Como algumas regiões são difíceis de alcançar, o processo manual exigia bastante tempo e esforço.

Por isso, os pesquisadores começaram a testar drones para distribuir os insetos. Segundo dados apresentados no estudo citado pela Exame, o tempo necessário para tratar cada árvore caiu de aproximadamente 12 minutos para apenas 2,8 minutos.

Além disso, a taxa de colonização do inseto também aumentou. Após um ano, o índice passou de 38% para 63%.

Dessa forma, a combinação entre controle biológico e tecnologia pode tornar o combate ao araçá-vermelho mais rápido e alcançar regiões de difícil acesso.

A estratégia ainda está em desenvolvimento. Mesmo assim, o caso mostra como uma espécie introduzida há dois séculos para ajudar na alimentação acabou criando um novo desafio para as florestas. Agora, pesquisadores tentam usar recursos naturais e tecnologia para recuperar o equilíbrio desses ambientes.

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