Quando a Fé era Encontro
Memórias de encontros religiosos revelam a importância da escuta, da contemplação e dos vínculos construídos longe da pressa cotidiana

Desde jovem, eu gostava de participar de retiros religiosos. Ficávamos isolados da cidade, cercados por músicas sacras, feitas para elevar o pensamento e louvar a Deus; leituras do livro sagrado; contação de histórias; e as “horas silenciosas”, quando, sozinhos, meditávamos sobre um Salmo bíblico.
Na última noite, fazíamos uma fogueira perto da mata. Cantávamos e contávamos histórias. Eram narrativas que aqueciam o coração com palavras de esperança, fé e amor. Tudo transcorria sem surpresas, sem pregadores exibicionistas e performáticos.
Hoje, ao olhar para trás, acho até que éramos visitados pelo tédio, pelo “sem surpresas”. Era sempre o mesmo: algo que tocava mansamente o fundo d’alma. E as luzes bruxuleantes da fogueira testemunhavam a reunião de uma comunidade pacificada. É essa a sensação que tenho quando recordo aquela “comunidade em torno da fogueira”.
Tenho saudades das músicas, das histórias e também da fogueira — símbolo de uma comunidade que escutava atentamente o outro, sem condenação, sem distância, sem pressa e sem a exposição pornográfica das redes digitais. “Narrar e escutar atentamente histórias se condicionam mutuamente”, explica o escritor Byung-Chul Han.
Éramos ouvintes atentos, coisa rara hoje em dia:
Daqueles dias eu aprendi:
é preciso um olhar longo, profundo e demorado sobre as coisas que geram significados.
Tenho saudades das histórias contadas e interpretadas. “Histórias conectam as pessoas umas com as outras, na medida em que fomentam a capacidade de empatia”.
Eram coisas próprias da religião. Então me lembrei do teólogo Rubem Alves. Ele dizia desejar uma religião cuja doutrina central fosse a “reencarnação ao contrário”.
E explicava: “Reencarnação ao contrário: não de trás para adiante, mas de diante para trás. Não quero evoluir para frente nem ficar parado no eterno presente do céu… O céu me dá claustrofobia. Além do que, não quero evoluir. Muitas coisas não podem e não devem evoluir: riachinhos, ipês floridos, uma preta jabuticaba são seres perfeitos. Como seria uma jabuticaba evoluída? Uma jabuticaba cúbica? Esse objeto é divino, não pode e não deve ser melhorado. O que eu quero não é evoluir. Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça.”
Sinto hoje que a “comunidade” da fogueira foi dispersa. Não há feitiço que a faça ressurgir — nem mesmo novos acampamentos. Foi dispersa, talvez, como naquela noite da crucificação…
Mas algo também me diz que haverá uma manhã de domingo, no futuro, em que experimentaremos novamente a emoção pacificadora daquele passado. Então seremos aquecidos pela presença de Jesus de Nazaré — aquele que sempre celebramos ao redor da fogueira.
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