Eles se aposentaram aos 62 anos com R$ 3,3 milhões investidos e passaram 11 anos sem mexer no dinheiro, vivendo apenas da aposentadoria dele; aos 73, começaram a receber mais R$ 215 mil por ano

A estratégia parecia confortável enquanto as contas estavam cobertas, mas uma regra que só aparece décadas depois mudou completamente a matemática

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
Um casal de aposentados planeja com alegria uma viagem pelo mundo, refletindo o cenário do artigo sobre como financiar uma primeira década de aposentadoria repleta de viagens
(Foto: Reprodução/247wallst)

Um casal que chegasse aos 62 anos com R$ 3,3 milhões investidos poderia imaginar que deixar todo o patrimônio intocado pelo maior tempo possível seria uma das decisões mais conservadoras para a aposentadoria. Foi justamente esse cenário que uma análise financeira norte-americana colocou à prova.

O exemplo parte de dois aposentados com US$ 650 mil, cerca de R$ 3,32 milhões na cotação atual, divididos entre duas contas tradicionais do tipo IRA — instrumento de aposentadoria individual existente nos Estados Unidos.

Durante 11 anos, eles não retirariam um único dólar desse patrimônio.

As despesas com casa, alimentação, impostos e até viagens para visitar os netos seriam cobertas apenas pela pensão de aposentadoria recebida pelo marido.

Enquanto isso, os investimentos continuariam rendendo silenciosamente.

R$ 3,3 milhões virariam mais de R$ 5,6 milhões

A simulação considera rentabilidade média de aproximadamente 5% ao ano.

Nesse ritmo, os US$ 650 mil iniciais chegariam perto de US$ 1,11 milhão quando o casal completasse 73 anos. Na conversão atual, isso representa aproximadamente R$ 5,67 milhões.

À primeira vista, o resultado parece excelente: eles teriam financiado mais de uma década de aposentadoria sem consumir os investimentos e ainda assistido ao patrimônio crescer.

Mas é justamente aos 73 anos que uma regra tributária norte-americana muda a situação.

Nos Estados Unidos, titulares de determinados planos de aposentadoria com dinheiro ainda não tributado precisam começar a fazer as chamadas Required Minimum Distributions, conhecidas pela sigla RMD.

Na prática, o governo obriga o aposentado a retirar uma parcela daquele patrimônio todos os anos.

Aos 73, saque chegaria perto de R$ 215 mil

Para uma pessoa de 73 anos, a tabela utilizada pelo órgão fiscal norte-americano prevê, em situação comum, um divisor de 26,5.

Com aproximadamente US$ 1,11 milhão acumulados, a retirada obrigatória inicial ficaria perto de US$ 42 mil.

São cerca de R$ 215 mil pela cotação atual.

Isso não significa que o casal ganhou mais R$ 215 mil nem que o governo passou a pagar esse valor.

O dinheiro já pertencia aos dois. A diferença é que, naquele momento, eles seriam obrigados a retirá-lo das contas de aposentadoria, fazendo com que a quantia passasse a integrar a renda tributável conforme as regras dos Estados Unidos.

Cada cônjuge também precisa calcular a própria retirada com base no saldo de sua conta.

A análise chama atenção justamente para algo que parece contraditório: não mexer no dinheiro durante 11 anos fez o patrimônio crescer, mas também elevou o valor que posteriormente ficou sujeito às retiradas obrigatórias.

O efeito muda bastante conforme o rendimento.

Se os US$ 650 mil rendessem 3% ao ano, o saldo aos 73 ficaria próximo de US$ 900 mil, levando a uma retirada inicial de aproximadamente US$ 34 mil.

Com rendimento de 7%, o patrimônio poderia atingir cerca de US$ 1,37 milhão, e o primeiro saque obrigatório subiria para aproximadamente US$ 51,7 mil.

Anos tranquilos escondiam uma oportunidade

O ponto principal da análise não é dizer que o casal errou ao deixar os investimentos crescerem.

O problema estaria no planejamento tributário durante os 11 anos em que a família dependia basicamente da pensão e apresentava renda tributável menor.

Segundo a publicação, parte do saldo dos IRAs tradicionais poderia ter sido convertida gradualmente para contas Roth IRA durante aquele período.

Nesse tipo de conversão, o imposto é antecipado, mas retiradas futuras que cumpram as regras podem ser isentas do imposto de renda federal.

A ideia seria aproveitar anos em que o casal ainda estava em faixas tributárias menores para diminuir o saldo sujeito às retiradas obrigatórias depois dos 73.

É uma estratégia específica do sistema tributário dos Estados Unidos e não deve ser confundida com as regras de aposentadoria brasileiras.

No Brasil, quem pretende complementar a renda futura também encontra alternativas de investimento além do benefício do INSS, mas os produtos, tributos e exigências são diferentes.

Regra pode pesar ainda mais depois

A análise também chama atenção para o que acontece caso um dos cônjuges morra.

O sobrevivente pode concentrar parte dos ativos que antes estavam divididos entre duas pessoas, mas passa a declarar os impostos como contribuinte individual.

Com isso, determinadas faixas de tributação podem ser alcançadas com uma renda menor.

As retiradas obrigatórias também podem afetar quanto da renda da Previdência Social norte-americana é tributável e, em rendas mais altas, aumentar determinadas cobranças relacionadas ao Medicare.

Por isso, a simulação tenta mostrar que o tamanho do patrimônio não é o único número importante na aposentadoria.

A forma e o momento em que o dinheiro é retirado também podem alterar o resultado.

Outras histórias mostram estratégias diferentes. Um casal, por exemplo, guardou 65% do salário durante 12 anos e conseguiu deixar o trabalho aos 44.

Neste caso norte-americano, porém, existe uma ressalva fundamental: o casal descrito pelo 24/7 Wall St. é hipotético. Os números foram criados para ilustrar como um patrimônio de US$ 650 mil poderia evoluir e como as regras de retirada obrigatória afetariam a conta 11 anos depois.

A mensagem da simulação é menos sobre quanto dinheiro eles acumulariam e mais sobre aquilo que aconteceria durante os anos em que aparentemente nada precisava ser feito.

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Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.

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