Macarrão, Tadala e Trump: nomes e slogans inusitados marcam disputa por vagas no Legislativo

Especialista aponta que humor é utilizado como estratégia para chamar atenção de eleitores e angariar votos

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Pessoa votando na urna eletrônica. (Foto: Divulgação/TSE)

EDUARDO MOURA, LUANA LISBOA E JOÃO PEDRO PITOMBO

SÃO PAULO, SP, E SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – Slogans com referências anais. Fantasias e perucas. Gracinhas e piadas no horário eleitoral. Não é de hoje que os candidatos tentam angariar votos por meio do riso e da excentricidade. Nas eleições de 2026, não é diferente.

Alguns começam fazendo graça já com a própria alcunha que vai para a urna eletrônica. Taxista Samurai (PDT-PE), Plínio Trump (Novo-MG), Gugu Liberato (Avante-SE), Tadala (Agir-RJ). Há ainda aqueles que colocam um aposto no nome eleitoral: Dr. Célio, o Lula do Bem (PL-SP) e Silva Fotógrafo, o Corno (Agir-DF).

“Cansado de tomar no botão? Vote no Macarrão”, recomenda o candidato do PT de São Paulo na sua propaganda eleitoral para deputado federal.

O que você faria se tivesse apenas cinco segundos para convencer alguém a te dar um voto de confiança? Quem pergunta é o candidato a deputado estadual Du Venturini (PRD-SP). A resposta que ele encontrou foi chamar um comediante vestido de rosa, com peruca loira e umbigo de fora, para fazer um trocadilho chulo.

“Vai votar no Du!”, grita o comediante Yuri Caetano, caracterizado como a personagem Zuleide, criação dele próprio, ao lado de Venturini. À Folha, a equipe do candidato nega que seja um trocadilho. Diz que é apenas “uma expressão utilizada pelo candidato e apoiadores”.

“Essa foi uma pergunta que fiquei me fazendo durante muito tempo. Assisti ao documentário do Enéas, vi outros vídeos, pensei em várias possibilidades… Mas foi quando conheci o Yuri que tudo começou a fazer sentido”, escreveu Venturini em post nas redes sociais sobre o comediante, que tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram.

A referência a Enéas Carneiro não é por acaso. Morto em 2007, o político ganhou fama com suas excêntricas propagandas eleitorais nos anos 1990 e 2000. Mesmo com o breve tempo que costumava ter nas inserções na TV, o impacto visual e sonoro reverberava naquele mundo ainda analógico. Porém, apesar de ter recebido mais votos do que Leonel Brizola e Orestes Quércia em 1994, ele ainda era tratado como piada por muitos.

Numa época em que não havia palavras como “meme” ou “viralizar”, o bordão “meu nome é Enéas 56” era tão famoso quanto aqueles repetidos na “Praça é Nossa”. A barba negra, os óculos fundo de garrafa, a voz ora gutural, ora estridente eram quase um patrimônio imaterial brasileiro.

Só que, com o tempo, aquilo que era motivo de riso virou motivo de voto. No início do novo milênio, o New York Times escreveu que o candidato, considerado “nanico e excêntrico” e que sempre foi motivo de piadas, “riu por último em 2002”.

Naquele ano, Enéas se tornou o deputado mais votado da história até então, com mais de 4 milhões de votos.

Em 2006, o costureiro Clodovil Hernandes foi o terceiro deputado federal mais votado do país. Nas suas propagandas eleitorais, eram comuns trocadilhos com a sua sexualidade. O seu número na urna eletrônica era 3611, e ele concorria pelo PTC. “Por que eu escolhi o 11? Meu amor, porque o 24 já era. Agora é ‘1’ atrás do outro”, explicava, para, em seguida, soltar sua característica risada.

“Vocês não pensem que eu sou passivo, não. Pisa no meu pé para ver o que acontece”, dizia em outra versão.

Quatro anos depois, foi a vez do palhaço Tiririca se tornar campeão de votos. “Sou eu, o abestado. Vote 2222”, dizia em sua propaganda eleitoral. Apesar de não ter superado Enéas, foi, em 2010, o deputado federal mais votado do país, com mais de 1,3 milhão de apoiadores nas urnas. Ele ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados desde então e concorre à reeleição neste ano pelo Ceará.

Mas o humor esdrúxulo não é um simples tempero brasileiro nas eleições. Tem a ver com os tempos em que vivemos. Com a massificação das redes sociais e da rolagem infinita, há uma disputa acirrada pela atenção das pessoas, como nunca antes houve.

Para Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação da FGV (Fundação Getulio Vargas), o conceito de economia da atenção é importante para entender as dinâmicas comunicacionais das eleições atuais.

Num mundo marcado pelo excesso de estímulos, quem precisa fisgar a atenção do público vai se valer de tudo que, de alguma maneira, mobiliza emocionalmente as pessoas, “seja com raiva, seja com nojo, seja com tristeza ou alegria, nesse mar de informações”, diz Bentes.

Ao menos duas pessoas que fazem associações ao presidente Lula disputam as eleições, sendo um pelo PT e o outro pelo PL. O comerciante Daniel Vieira da Silva (PT) concorre a deputado estadual em Alagoas com o nome de urna “Lula de Alagoas”. Ele chegou a anunciar que desistiria da candidatura por falta de repasses do fundo eleitoral, mas mudou de ideia após receber R$ 39 mil do partido para a campanha.

Em São Paulo, o médico Célio Morais (PL) é candidato a deputado federal. Ele adotou como nome de urna “Dr. Célio, o Lula do Bem”, o que motivou um pedido de impugnação da candidatura -a Procuradoria Eleitoral alegou que o nome poderia gerar uma falsa associação com o presidente. Sua candidatura recebeu R$ 600 mil do Diretório Nacional do PL.

No Distrito Federal, é um sósia de Jair Bolsonaro (PL) que tenta a sorte nas urnas. O motorista de aplicativo Alessandro Mito (Podemos) é candidato a deputado distrital e recebeu um repasse modesto de R$ 8.000 do partido.

Em Minas Gerais, se destaca uma tentativa de ligação com o presidente americano Donald Trump. Plínio Vicentin Junior, 59, concorre com o nome Plínio Trump. O candidato a deputado federal pelo partido Novo é de Varginha (MG) e tem, segundo seu site de campanha, três décadas de carreira como piloto de helicóptero. A arte de sua candidatura destaca uma montagem com a bandeira do Brasil, a Estátua da Liberdade, em Nova York, e o Capitólio dos EUA, localizado em Washington.

Em Pernambuco, o candidato Sargento Bigode tenta uma vaga como deputado estadual pelo Missão. Ele ganhou notoriedade após ser punido pela PM em janeiro deste ano por utilizar um bigode ultrapassando a linha do lábio inferior, em desacordo com o estabelecido pela corporação.

No estado, o Taxista Samurai busca o mesmo cargo pelo PDT. Ele é conhecido nas redes sociais por vídeos em que mostra sua desenvoltura com a arma de artes marciais nunchaku.

Segundo Emerson Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), essas candidaturas podem atrair o voto de protesto.

Esse tipo de voto é definido por ele como “destinado a uma crítica ao sistema, não necessariamente de apoio a um candidato ou partido”.

Não se trata necessariamente de sinal de desconfiança nas instituições, mas é um tipo de voto que pode se intensificar em momentos de descontentamento com a economia ou de desgaste institucional. “Visibilidade negativa, que é gerada pela cobertura e debate político negativo, é o principal motivador”, diz.

Colaboraram Gabriel Araújo, de Belo Horizonte, e Jorge Cosme, de Recife

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