Ele disse “não” – Carlos Baptista Junior, ex-comandante da aeronáutica, na trincheira antigolpista
A verdade nem sempre é confortável. Às vezes, ela nos obriga a reconhecer que estávamos errados

Uma amiga de nome simbolicamente forte, pois reúne o prefixo Mar, de Maria — “vidente” —, com a força de Luce, do latim lux, luz, pediu-me uma explicação sobre as origens da agressividade e irracionalidade no debate político.
Queria ser “puro” na análise e transmitir “luz”, para honrar a preciosa amizade de minha amiga Marluce.
Entendi como simbólico o pedido que ela me fez por meio de minha esposa.
Parte da opinião pública já não se importa tanto com a realidade dos fatos, mas com aquilo que deseja que seja verdade. Quando a emoção se torna predominante, a busca pela verdade perde espaço. Muitos passam a acreditar apenas naquilo que “desejam acreditar”.
Há também o constrangimento de reconhecer o próprio erro. É assim que o debate político abandona o campo da razão, nega a lógica e assume a forma de dogma, quase como uma teologia ou guerra de trincheira, e entrincheirados trocam apenas tiros.
A verdade nem sempre é confortável. Às vezes, ela nos obriga a reconhecer que estávamos errados.
Sem humildade, porém, não há diálogo.
E sem diálogo, dificilmente haverá paz social.
Eu acredito que a política é, essencialmente, a arte da negociação. Cabe à política buscar pactos sociais capazes de reduzir desigualdades, preservar direitos e construir uma sociedade mais justa.
Depois de ler a esclarecedora obra “Eu disse não: uma trincheira antigolpista”, do tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior (BJ), comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro, convenci-me de que a intolerância e a raiva que dividiu amigos, famílias e igrejas têm uma origem dupla, político-religiosa: o estilo político de Jair Bolsonaro e de seu núcleo de governo, articulado com setores de igrejas neopentecostais fundamentalistas vinculadas à ideologia “nacionalista cristã”.
Dos inúmeros registros importantes da obra, um deles espelha a realidade dos fatos:
“Depois de anos marcados por intensa mobilização política, retórica de confronto e construção de uma narrativa de enfrentamento permanente contra adversários políticos, instituições judiciais e parte da imprensa, [o governo Bolsonaro induziu] muitos apoiadores a enxergar eventual derrota de Bolsonaro não apenas como resultado eleitoral adverso, mas também como uma ameaça existencial ao projeto político e ideológico que acreditavam representar” (p. 124).
Esse ambiente psicológico e político produzido pelo ex-presidente e por seu núcleo político e religioso teve efeitos perceptíveis. Até hoje presenciamos tal coisa por meio da agressividade e dificuldade em estabelecer um debate racional sobre projetos políticos.
O que existiu na época do governo Bolsonaro foi a aplicação de técnicas clássicas de influência psicológica em massa. “À semelhança do que ocorreu na pandemia — quando o presidente tentou incutir ideias contrárias ao isolamento e à vacinação —, o caso da suposta fraude nas urnas eletrônicas também seguiu o mesmo roteiro”.
Era o próprio chefe da nação quem chancelava o absurdo – “uma operação de influência que convenceu muitos brasileiros a não se vacinarem e a não confiarem no sistema eleitoral, alguns, até hoje”.
Talvez seja essa a “luz” que minha amiga Mar-Luce me pediu para encontrar no meio de tanta escuridão.
Não a luz que confirma aquilo que já queremos acreditar.
Mas a luz que nos permite enxergar aquilo que preferiríamos não ver.
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