Um dia após o outro
Juntamos os fios de esperança e apoiados uns nos outros, tocamos em frente. Então, construamos o barco

Chesterton foi um escritor cristão, católico, nascido em 1874 em Londres, na Inglaterra.
Dono de uma mente brilhante, Chesterton foi certa vez perguntado — juntamente com outros escritores — qual livro levaria para uma ilha deserta, caso pudesse levar apenas um. Alguns responderam de maneira previsível:
— As obras completas de Shakespeare.
— A Bíblia.
Então chegou a vez de Chesterton, e o apresentador se dirigiu a ele:
— “E você? Que livro levaria?”. Ao que ele respondeu:
— “O Guia Prático de Construção de Barcos”.
A resposta parece uma brincadeira. E é. Mas, como quase todas as melhores brincadeiras de Chesterton, esconde uma pequena e cristalina filosofia de vida.
Se estou sozinho em uma ilha deserta e quero sair de lá, não adianta levar o livro mais profundo da literatura. Preciso de um livro que me ensine a construir um barco.
alvez, se a pergunta fosse feita a políticos interessados em se mostrar para os eleitores, a resposta fosse alguma obra de Platão, Montesquieu ou Thomas Hobbes. Afinal, há quem use o conhecimento não para compreender a vida, mas para parecer superior aos outros.
Mas o escritor não queria aparentar ser “culto” – e também não era político. Ele apenas apontou para algo prático da vida, que tem raízes profundas no ser humano. A circunstância de se encontrar em uma ilha deserta exigia uma medida que atendesse à sua necessidade de sair de lá.
Na resposta que deu, vejo o indicativo de encarar as circunstâncias da vida de forma mais prática e menos emocional ou performática. Isso significa considerar o mundo e as suas possibilidades.
A vida não é uma linha reta. Ela é feita de circunstâncias, contingências, encontros, perdas, recomeços e surpresas. O que nos cabe é atravessá-la sem perder o respeito por nós mesmos nem pelos outros. Afinal, ninguém é campeão em tudo, mas ninguém é derrotado em tudo.
Às vezes não é a derrota – ainda que temporária – que mais machuca, mas é para quem perdemos.
Em todo caso, compreendi o que me ensinou o mestre e irmão franciscano Alberto Moreira em suas aulas sobre o Brasil:
A história inteira é feita de lutas. E de muitas derrotas.
Mas o que é justo, bom e verdadeiro tem força: força para suportar as derrotas, força para acreditar que a bondade, a justiça e a verdade vão triunfar no fim.
Mesmo que não estejamos mais vivos para ver.
Esta é a fé que sempre impulsionou as discípulas e discípulos de um Messias que foi crucificado.
Juntamos os fios de esperança e apoiados uns nos outros, tocamos em frente. Então, construamos o barco.
Sigamos.
A luta continua.
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