Padre vendeu 12 mil piranhas para ajudar comunidades da Amazônia e, 55 anos depois, sua obra continua fazendo a diferença na vida de quem mora na floresta
Padre italiano transformou piranhas sem valor comercial em renda para financiar pontes, pista de pouso, cemitério e um museu no Marajó

A história de Giovanni Gallo parece improvável até para os padrões da Amazônia. Na década de 1970, o padre jesuíta italiano chegou à Ilha do Marajó, no Pará, e encontrou uma forma incomum de levantar dinheiro para melhorar a vida de comunidades isoladas: vender piranhas empalhadas para a Europa.
Ao todo, cerca de 12 mil piranhas passaram pelo projeto. Os peixes, que tinham pouco valor para os pescadores locais, começaram a ser recolhidos e preparados em um laboratório montado na Vila de Jenipapo.
Gallo ensinou mulheres da comunidade a embalsamar os animais e usou seus contatos na Itália para comercializá-los.
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Dinheiro virou infraestrutura
O dinheiro arrecadado não ficou restrito à atividade artesanal.
Com os recursos, a comunidade conseguiu construir cerca de 350 metros de pontes de madeira, além de um cemitério e uma pista de pouso de aproximadamente 800 metros. Também houve investimento em outras estruturas locais.
Assim, uma atividade criada a partir de um recurso abundante da região acabou financiando soluções para problemas práticos do dia a dia.
Além disso, o projeto gerou trabalho local e envolveu diretamente moradores no processo produtivo.
Piranhas que ninguém queria
A lógica era simples.
As piranhas ficavam presas nas redes dos pescadores, mas não tinham grande valor comercial naquele contexto. Em vez de descartá-las, Gallo transformou os peixes em peças artesanais destinadas ao mercado europeu.
Dessa forma, algo antes visto quase como sobra passou a gerar renda.
O modelo também mostrou como recursos locais poderiam sustentar projetos comunitários sem depender apenas de dinheiro externo.
Museu virou parte do legado
A atuação de Giovanni Gallo foi além das obras de infraestrutura.
Em 1981, ele fundou o Museu do Marajó, inicialmente em Santa Cruz do Arari. Anos depois, a instituição foi transferida para Cachoeira do Arari.
O museu reuniu peças arqueológicas, objetos do cotidiano e elementos da cultura marajoara. Além disso, a proposta incentivava a participação dos moradores na construção e preservação do próprio acervo.
Gallo também ficou conhecido por criar estruturas educativas artesanais, como os chamados “computadores caipiras”, feitos com madeira, barbantes e manivelas.
Uma obra que atravessou décadas
Giovanni Gallo morreu em 2003, mas parte do que construiu continua associada à memória e à identidade do Marajó. O próprio Museu do Marajó segue como uma das principais marcas de sua atuação na região.
Por isso, a história das 12 mil piranhas vai muito além da curiosidade.
Ela mostra como uma iniciativa improvável conseguiu gerar renda, financiar obras e deixar um legado cultural que atravessou mais de cinco décadas na Amazônia.
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