Em 1970, um padre vendeu 12 mil piranhas para ajudar uma comunidade na Amazônia: 55 anos depois, obra ainda transforma a vida de moradores

Peixes que quase não tinham valor comercial viraram fonte de renda, financiaram obras e ajudaram a preservar a memória de uma região inteira

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
padre Giovanni Gallo
(Foto: Reprodução)

Piranhas que praticamente não tinham valor comercial acabaram ajudando a financiar pontes, uma pista de pouso e até o início de um museu no coração da Amazônia.

A história começou na década de 1970, quando o padre jesuíta italiano Giovanni Gallo passou a trabalhar na Ilha do Marajó, no Pará.

Na Vila de Jenipapo, em Santa Cruz do Arari, ele encontrou uma maneira incomum de gerar renda com um peixe que frequentemente aparecia nas redes dos pescadores da região.

As piranhas passaram a ser empalhadas por mulheres da comunidade e enviadas para a Itália. Ao todo, cerca de 12 mil exemplares foram comercializados.

Piranhas que quase não valiam nada começaram a gerar renda

Gallo montou um pequeno laboratório e ensinou moradoras da vila a preparar os peixes para transformá-los em peças comercializadas no exterior.

Os contatos que o padre mantinha na Europa ajudaram a levar as piranhas empalhadas até compradores italianos.

Parte do dinheiro arrecadado servia para remunerar as próprias mulheres envolvidas no trabalho.

Em números:
12 mil piranhas empalhadas e vendidas;
350 metros de pontes de madeira;
pista de pouso com cerca de 800 metros.

Giovanni Gallo chegou ao Brasil em 1970 e dedicou décadas a projetos comunitários e culturais na Ilha do Marajó.

O dinheiro virou pontes e até uma pista de pouso

O projeto começou a produzir algo muito maior do que renda para quem preparava os peixes.

Parte dos recursos foi direcionada para obras que faziam falta em uma região onde os deslocamentos eram difíceis.

Entre as estruturas financiadas aparecem aproximadamente 350 metros de pontes de madeira, um trapiche comunitário, um cemitério adaptado às épocas de cheia e uma pista de pouso com cerca de 800 metros.

Para quem vivia em uma comunidade ribeirinha isolada, essas obras ajudavam a melhorar a circulação e a conexão com outras localidades.

O Museu do Marajó, criado a partir do trabalho de Giovanni Gallo, continua funcionando em Cachoeira do Arari.

Moradores também começaram a construir um museu

Ao mesmo tempo, Giovanni Gallo passou a receber dos próprios moradores fragmentos de cerâmica, peças arqueológicas e objetos relacionados à vida no arquipélago.

Esse movimento deu origem, ainda em 1972, ao projeto que mais tarde se consolidaria como o Museu do Marajó.

Em vez de formar um acervo distante da população, Gallo estimulava os próprios moradores a participar da construção daquela memória.

O projeto cresceu: aquilo que começou com objetos e fragmentos entregues pela população acabou dando origem a uma instituição dedicada à arqueologia e à cultura marajoara.

Veja abaixo a história de Giovanni Gallo e do trabalho desenvolvido por ele no Marajó:

Mais de 50 anos depois, o museu continua aberto

Com o crescimento do acervo, o Museu do Marajó acabou transferido para Cachoeira do Arari.

Hoje, o espaço reúne peças arqueológicas, objetos do cotidiano, instrumentos de trabalho e referências à cultura da população marajoara.

O museu continua aberto à visitação e passou a integrar a estrutura museológica do estado.

O acervo reúne peças arqueológicas, objetos do cotidiano e referências à cultura marajoara.

Das redes de pesca para um legado que atravessou décadas

Giovanni Gallo morreu em 2003, mas parte do projeto iniciado por ele permaneceu.

O que chama atenção é justamente a sequência improvável daquela história.

Peixes que tinham pouco valor para os pescadores passaram a gerar trabalho para mulheres da comunidade. O dinheiro ajudou a financiar infraestrutura. E a participação dos moradores na coleta de objetos ajudou a formar um museu que continua funcionando décadas depois.

Assim, as 12 mil piranhas empalhadas acabaram se tornando apenas o ponto de partida de um projeto muito maior no Marajó.

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Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.

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