Frase do dia do Estoicismo: “Passar o dia reclamando do que não depende de você pode deixar sem cuidado aquilo que depende” — uma reflexão sobre onde colocar sua energia

A ideia parte de um princípio antigo e continua atual para quem sente que termina o dia cansado sem ter avançado no que realmente podia fazer

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
mulher refletindo na janela
(Imagem: Ilustração)

“Passar o dia reclamando do que não depende de você pode deixar sem cuidado aquilo que depende.”

A frase não aparece dessa forma nas obras clássicas do estoicismo. Ela é uma formulação contemporânea inspirada em um dos princípios mais conhecidos da filosofia estoica, especialmente no pensamento de Epicteto.

Logo no início do Manual, o filósofo faz uma divisão direta: há coisas que dependem de nós e outras que não dependem.

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Entre aquilo que está sob nossa responsabilidade, Epicteto inclui nossos julgamentos, escolhas, desejos e ações. Já acontecimentos externos, a opinião dos outros, a reputação e boa parte das circunstâncias da vida escapam do nosso controle direto.

Nem todo problema merece a mesma energia

A proposta estoica não é fingir que os problemas externos não existem.

Também não significa deixar de se importar com injustiças, dificuldades financeiras, atrasos, conflitos ou imprevistos.

A diferença está em perceber onde a ação ainda é possível.

Imagine alguém que passa horas irritado porque choveu justamente no dia de um compromisso. A pessoa não consegue mudar o tempo, mas ainda pode reorganizar o trajeto, sair mais cedo, remarcar alguma atividade ou decidir como reagirá ao atraso.

O mesmo acontece quando alguém se desgasta tentando controlar o comportamento de outra pessoa.

É possível conversar, estabelecer limites e escolher a própria postura. O que não é possível garantir é que o outro pense, responda ou mude exatamente como gostaríamos.

Essa separação entre o que está e o que não está sob nosso alcance é uma das bases do pensamento de Epicteto. A ideia não propõe passividade; ao contrário, concentra o esforço exatamente onde ele ainda pode produzir alguma mudança.

O risco de abandonar aquilo que depende de você

É aí que a frase do dia ganha força.

Quando toda a atenção fica presa ao que não pode ser alterado naquele momento, aquilo que realmente exigia cuidado pode acabar ficando para depois.

Enquanto alguém reclama durante horas de uma decisão já tomada, por exemplo, pode deixar de enviar um currículo, concluir um trabalho, descansar, organizar as contas ou fazer uma conversa necessária.

A energia continua sendo gasta, mas sem necessariamente produzir movimento.

Esse princípio aparece também em outras reflexões filosóficas sobre a necessidade de não desperdiçar o presente tentando controlar acontecimentos que já escaparam das nossas mãos.

O exercício estoico, portanto, não é simplesmente repetir “não posso fazer nada”.

A pergunta correta seria: “o que, dentro desta situação, ainda depende de mim?”

Uma pergunta simples para o fim do dia

A reflexão pode ser aplicada de maneira bastante prática.

Diante de uma situação que provoca irritação, vale separar mentalmente duas listas.

Na primeira ficam fatos que não podem ser controlados naquele momento: o passado, a opinião de terceiros, decisões já tomadas por outras pessoas, o trânsito que já parou ou um imprevisto que aconteceu.

Na segunda ficam as respostas possíveis: o que dizer, qual decisão tomar, como organizar o próximo passo e onde colocar atenção.

Não significa que a segunda lista resolva tudo.

Significa apenas que ela contém aquilo sobre o que ainda existe algum poder de escolha.

Essa ideia também se aproxima da reflexão de Confúcio sobre como a pressa para resolver tudo pode fazer com que o essencial seja negligenciado.

No fim, talvez seja esse o ponto mais útil da frase: nem tudo merece receber a mesma quantidade da nossa energia.

Há situações que pedem ação.

Outras pedem aceitação temporária.

E saber distinguir uma da outra pode evitar que passemos o dia tentando mover aquilo que não está nas nossas mãos enquanto deixamos parado justamente o que estava.

Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.

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