Irmãos de Goiás são adotados por italianos e começam nova história de vida na Europa
Crianças passaram por etapas de preparação e adaptação antes de seguirem para o sul da Itália com os novos pais

Duas crianças goianas, de 8 e 9 anos, ganharam a oportunidade de começar uma nova vida após serem adotadas por um casal italiano que mora em Bari, no sul da Itália.
Segundo o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), os irmãos esperaram quatro anos por um novo lar, desde que perderam a convivência com os pais biológicos. Os genitores tiveram a guarda suspensa por negligência familiar no ano de 2022.
Após esse período em abrigos temporários, a espera chegou ao fim em 27 de agosto, quando o casal Nicola D’Alba e Maria Cristofaro conquistou a adoção definitiva das crianças.
Todo o processo foi acompanhado pela Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional de Goiás (Cejai-GO), órgão do TJGO.
Nicola e Maria se conheceram aos 44 anos. Na época, ele trabalhava em um centro de acolhimento para imigrantes, enquanto ela se dedicava a trabalhos voluntários ligados à Igreja Católica.
Com o passar do tempo e o fortalecimento da relação, os dois perceberam que compartilhavam o desejo de construir uma família. Foi então que a possibilidade da adoção ganhou ainda mais força.
“Percebemos com nossas experiências de vida que esse era o nosso caminho. Olhamos nos olhos um do outro e queríamos realmente construir algo lindo, uma família que completasse essa história”, relatou Nicola.
Foi em São Luís de Montes Belos, no interior de Goiás, que o casal conheceu os irmãos Leonardo* e Melissa*, de 8 e 9 anos, respectivamente. O encontro despertou nos italianos o desejo de acolher as crianças e construir com elas uma nova história familiar.
O processo de adoção contou com seis videochamadas autorizadas judicialmente, que permitiram a aproximação inicial entre o casal e os irmãos. Em seguida, os italianos passaram por um estágio de convivência de 30 dias em Goiânia.
Antes do encontro presencial, a equipe técnica avaliou a habilitação dos pretendentes e acompanhou as etapas necessárias para garantir o cumprimento dos procedimentos legais da adoção internacional.
Afeto e adaptação cultural
A diferença de idioma foi um dos primeiros desafios enfrentados durante a aproximação entre os irmãos e os futuros pais. Aos poucos, as brincadeiras, os sorrisos e os abraços ajudaram a construir confiança e a fortalecer os vínculos afetivos.
As atividades feitas durante as chamadas de vídeo também ajudaram a aproximar as crianças do casal antes da convivência presencial. Para Maria, a experiência exigiu persistência diante das dificuldades encontradas ao longo do processo.
“Não foi nada fácil. Mas, o amor que sentimos dentro de nós foi muito maior que os obstáculos”, afirmou.
A atuação da Cejai-GO foi destacada pelos novos pais, que reconheceram o apoio recebido durante as diferentes etapas da adoção. Segundo Maria, a disponibilidade dos profissionais ajudou o casal a enfrentar os momentos mais difíceis e a seguir adiante com o projeto familiar.
“Percebemos que essa equipe não acompanha todas essas etapas de forma burocrática, mas transformam esse trabalho em uma missão de vida, uma vocação, que permitiu que não desistíssemos no meio do caminho”, contou.
Justiça acompanha o processo
O procedimento contou com 15 relatórios e 15 visitas técnicas, feitas durante o acompanhamento da aproximação familiar. A avaliação das equipes considerou a evolução do relacionamento e a viabilidade da constituição dos vínculos entre os irmãos e os pretendentes.
Na decisão que confirmou a adoção, o juiz Ageu de Alencar Miranda, da Vara da Infância e Juventude de São Luís de Montes Belos, ressaltou o significado da adoção para a construção de uma nova história familiar.
Em italiano, o magistrado desejou felicidade à nova família e que a união fosse marcada pelo cuidado, pela proteção e pelo sentimento de pertencimento.
“Nicola e Maria, que esta decisão represente não apenas a conclusão de um processo, mas o início de uma nova história, construída com amor, cuidado e pertencimento. A adoção é um ato de coragem e amor que transforma vidas”, escreveu.
O desembargador Marcus da Costa Ferreira, corregedor-geral da Justiça de Goiás e presidente da Cejai-GO, também destacou a relevância da convivência familiar para crianças que não encontram pretendentes habilitados no Brasil.
“Se não for possível achar interessados no Brasil, precisamos olhar também para o exterior, para que ninguém seja privado dessa oportunidade de ter uma nova vida. Afinal, somos todos cidadãos do mundo”, afirmou.
A mudança para a Itália não encerra as responsabilidades dos órgãos envolvidos. Conforme informado pela Cejai-GO, o acompanhamento pós-adotivo deverá ocorrer durante os dois anos seguintes, com relatórios periódicos sobre a adaptação familiar, a saúde, a escolarização e o bem-estar das crianças.
Além da formação de novos vínculos, a Justiça goiana também destaca a importância de preservar o direito das pessoas adotadas de conhecer sua história de origem.
Na despedida antes da viagem, um dos irmãos resumiu a expectativa diante da nova realidade familiar. “Antes a gente só tinha um ao outro. Agora, a gente tem um pai e uma mãe para sempre”, declarou Leonardo.
Adoção tardia exige atenção
Segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), existem atualmente mais de 36 mil pretendentes habilitados para adotar no Brasil. Na outra ponta, há cerca de 4,8 mil crianças e adolescentes aptos para adoção.
Apesar do número elevado de interessados, o perfil de irmãos em idade acima de 8 anos enfrenta forte rejeição.
O motivo é que a grande maioria dos candidatos brasileiros busca o mesmo perfil idealizado: bebês ou crianças de até 2 a 4 anos de idade, saudáveis e sem irmãos.
Para a diretora da Divisão Interprofissional Forense da Corregedoria-Geral da Justiça de Goiás, Verônica Freire, o objetivo do trabalho não é encaminhar crianças ao exterior indiscriminadamente, mas assegurar condições adequadas para cada caso.
“Somos nós que ouvimos os silêncios, acolhemos as expectativas e preparamos tanto a criança quanto os novos pais para esse novo capítulo. Quando uma adoção internacional se concretiza, celebramos não apenas o cumprimento de uma meta legal, mas a vitória de uma rede de proteção”, destaca.
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