‘Minha dignidade é muito maior do que ficar isento’, diz Jorge Vercillo sobre política
Artista diz que não pretende esconder suas opiniões políticas, defende o diálogo e relaciona o tema às próprias canções

LEONARDO VOLPATO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em cima do muro ele não está. Jorge Vercillo, 58, afirma que não pretende se calar diante da polarização política, mesmo que suas opiniões afastem parte do público.
Em meio à disputa ideológica no Brasil, o cantor e compositor defende que artistas também têm responsabilidade como cidadãos e diz que preservar a própria coerência é mais importante do que evitar controvérsias. “Minha dignidade é muito maior do que ficar isento, ainda mais em um momento em que estou vendendo muitos ingressos”, afirma, em conversa com a Folha de S.Paulo.
Embora diga que não se identifica integralmente com a esquerda nem com a direita, Vercillo tornou explícita sua preferência política no atual cenário brasileiro. “Não sou lulista, mas, neste momento, me tornei”, declara.
O artista critica a extrema direita, Donald Trump e a família Bolsonaro, e diz não compreender como pessoas que acompanham sua trajetória há anos deixam de reconhecer em suas canções valores como o respeito ao próximo e a defesa dos menos favorecidos.
Alguns exemplos disso, segundo o artista, são as canções “Que Nem Maré”, “Homem-Aranha” e “Só Quem Ama”, que, de acordo com Vercillo, ilustram sua visão humanista.
O posicionamento, segundo ele, não significa romper relações com quem pensa diferente. “Tenho parentes e amigos que acreditam no oposto e convivo com eles, que também me recebem com respeito e amor. Essa convivência, mesmo sem concordância, se chama democracia”, afirma.
Para o cantor, o problema está em apoiar projetos políticos que considera autoritários, e não em simplesmente discordar de suas ideias.
Nas redes sociais, ele admite que deixa de dizer algumas coisas para evitar conflitos, mas rejeita a possibilidade de pautar suas opiniões pelo número de seguidores. Também diz não acreditar que manifestações políticas devam necessariamente transformar apresentações musicais em palanques.
“Não faço comício nos meus shows. As pessoas vão para ouvir música”, reforça. Ele argumenta, porém, que suas composições expressam suas convicções sobre o planeta e a defesa do diálogo entre os povos.
O cantor afirma que esse posicionamento pode ter consequências para sua relação com o público. Em vez de reagir com hostilidade a quem anuncia que deixará de acompanhá-lo, o artista diz que gostaria de conversar com essas pessoas.
“Não vou deixar de falar o que penso, mas sem ser leviano, agredir, falar sobre coisas que não sei ou disseminar notícias falsas”, afirma Vercillo, que diz estudar geopolítica por interesse próprio e rejeita a ideia de reproduzir opiniões sem pesquisa.
É nesse contexto que surge seu mais recente lançamento, “Saara no Rio”, música que chegou às plataformas digitais em 2 de outubro e integra a sequência de singles que antecedem o álbum “Todo Sempre”, programado para janeiro de 2027.
A faixa parte da convivência entre comunidades de diferentes origens na região comercial da Saara, no centro do Rio de Janeiro. O lugar inspira uma reflexão sobre a possibilidade de árabes e judeus compartilharem espaços, formarem famílias e viverem em harmonia, em contraste com os conflitos internacionais.
A letra também apresenta cenários utópicos, como uma aproximação entre Rússia e Ucrânia e uma relação diferente entre China e Estados Unidos e até a entrada da Rússia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Vercillo afirma que a música lhe permite imaginar outras formas de organização política e social, sem se comprometer com uma visão idealizada de qualquer liderança.
Ao falar de Vladimir Putin, por exemplo, faz questão de marcar sua divergência: “Apesar das minhas preferências políticas, não passo pano para o Putin, que é de esquerda, mas também é um genocida, inclusive com o próprio povo.” Donald Trump também está entre os alvos de suas críticas. “Levo porrada dos dois lados.”
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