Número de barbeiros encontrados em Goiânia cresce e acende alerta para doença que pode afetar o coração

Total identificado em nove meses já supera o de todo o ano passado. Especialista orienta sobre os cuidados para evitar a infecção

Leticia Teixeira Leticia Teixeira -
Barbeiro (Triatoma infestans), inseto que pode participar da transmissão do protozoário causador da doença de Chagas.
Barbeiro (Triatoma infestans), inseto que pode participar da transmissão do protozoário causador da doença de Chagas (Foto: Reprodução/Lorena S. Sampaio /Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0)

O aumento no número de barbeiros encontrados em Goiânia reforçou o alerta para a doença de Chagas, infecção que pode passar anos sem apresentar sintomas e provocar complicações no coração e no sistema digestivo. Entre janeiro e setembro de 2026, foram identificados 29 insetos na capital, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

O número já supera em 45% os 20 exemplares encontrados durante todo o ano de 2025. Em abril deste ano, o Laboratório Estadual de Saúde Pública (Lacen-GO) confirmou que um dos barbeiros recolhidos em Goiânia estava infectado pelo Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença.

A presença de um inseto infectado não significa, por si só, que moradores tenham sido contaminados. Ainda assim, o achado exige atenção aos cuidados dentro de casa e à forma de recolher um exemplar suspeito.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

A infectologista Déborah Mota, do Ânima Centro Hospitalar, em Anápolis, explica que, ao contrário do que muita gente imagina, a transmissão pelo barbeiro não ocorre diretamente pela picada.

“A principal via de contágio ainda é o contato das fezes contaminadas do barbeiro com a pele lesionada pelo ato de coçar a picada ou com mucosas expostas, como olhos e boca”, afirma.

A infecção também pode ocorrer pelo consumo de alimentos e bebidas contaminados, da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto, além de transfusões de sangue e transplantes de órgãos infectados.

Um dos desafios é que a doença pode permanecer silenciosa por muitos anos. Na fase inicial, os sintomas podem incluir febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza e inchaço, mas nem todas as pessoas apresentam sinais da infecção.

Com o tempo, parte dos pacientes desenvolve problemas cardíacos, como insuficiência cardíaca, ou alterações digestivas, como a dilatação do esôfago e do intestino grosso. Essas complicações não atingem todas as pessoas infectadas.

Em Goiânia, os registros da forma crônica passaram de 255 em 2025 para 362 em 2026. O aumento dos diagnósticos, porém, não significa que essas pessoas tenham sido infectadas recentemente ou na capital, já que a descoberta pode acontecer décadas depois do contágio.

Segundo Déborah, a investigação muda conforme o estágio da doença. Na fase inicial, os exames buscam identificar o parasita no sangue. Já na fase crônica, são utilizados testes para detectar anticorpos.

“Já na fase crônica, a carga parasitária no sangue é muito baixa. Por essa razão, o protocolo de confirmação exige obrigatoriamente a realização de dois testes sorológicos de metodologias distintas com resultados positivos”, explica.

Cuidados em casa

Para reduzir a possibilidade de abrigo do inseto, a infectologista recomenda manter quintais limpos e evitar o acúmulo de entulho, telhas e madeira. Galinheiros, canis e currais devem ficar afastados da residência.

Vedar frestas em portas e paredes e instalar telas nas janelas também são medidas que ajudam a impedir a entrada e a permanência dos barbeiros.

Se encontrar um inseto suspeito, o morador não deve esmagá-lo nem pegá-lo com as mãos desprotegidas. Caso consiga recolhê-lo com segurança, deve usar luvas ou um saco plástico para proteger as mãos e colocá-lo em um recipiente com tampa, preferencialmente vivo.

O exemplar deve ser encaminhado à Vigilância em Zoonoses do município para identificação e análise. Se houver suspeita de picada ou contato com material do inseto, a orientação é procurar uma unidade de saúde e relatar o ocorrido para avaliação.

Leticia Teixeira

Leticia Teixeira

Estudante de Jornalismo e estagiária do Portal 6. É curiosa, apaixonada por comunicação e está sempre em busca de aprender, observar e contar boas histórias.