Pequenos comércios planejam contratar, recorrer a parentes e mudar escala de folgas com o fim da 6×1

Falta de mão de obra e um ano dificíl de vendas, porém, dificultam fechar a conta, segundo relatos

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Pequenos comércios planejam contratar, recorrer a parentes e mudar escala de folgas com o fim da 6x1
(Foto: Rafaela Araújo/Folhapress)

GUILHERME MATOS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Contratar funcionários, recorrer à ajuda de parentese reorganizar as folgas estão entre as estratégias planejadas por pequenos comerciantes de São Paulo para se adaptar ao fim da escala 6×1.

A falta de mão de obra e um ano dificíl de vendas, porém, dificultam fechar a conta, segundo relatos coletados pela reportagem em lojas na Lapa e em Santa Cecília.

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O fim da escala 6×1 – na qual se trabalham seis dias por semana com um dia de folga –  promulgado pelo Congresso Nacional no dia 16 de outubro começará a valer em dezembro. O texto estabalece a adoção da escala 5×2, com dois dias de descanso remunerado por semana, redução da carga horára de 44 horas semanais para 42 horas e, depois, para 40 horas, sem redução de salário.

Paula Goldberg, dona da marca Maria Bonita, que fabrica e vende roupas femininas, pretende retirar o trabalho aos sábados para o setor administrativo após o fim da 6×1 (hoje essa equipe faz meio período aos sábados para completar a jornada de 44 horas semanais).

Para os demais, a ideia é fixar as folgas de cada funcionário. Todos continuarão com as folgas aos domingos, quando a loja já não abre, e em mais um dia do começo da semana (segunda, terça ou quarta).

Para isso, o RH e as equipes contábil e fiscal já preparam as mudanças dos contratos, com as folgas fixadas na semana. Quem folga no domingo e na segunda, por exemplo, ficará em casa sempre nesses dias. As três lojas físicas funcionam de segunda a sábado, e o setor da produção gira 24 horas por dia, já que a marca também tem ecommerce.

Para Paula, o modelo de folgas com dias fixos permite que o funcionário se planeje melhor para descansar ou resolver questões pessoais. Além disso, ajuda a empresa a avaliar os dias em que precisa de mais funcionários ao fazer novas admissões.

“Não adianta o empregador vislumbrar só lucro. O capital humano é mais precioso que o material. Acredito que a produtividade vai melhorar [após o fim da escala 6×1], o funcionário ficará mais disposto e o índice de turnover [taxa de rotatividade de pessoal] vai diminuir”, afirma.

O desafio, segundo Paula, será encontrar candidatos, pois já há escassez atualmente. “Está muito complicado encontrar funcionários que estejam interessados, comprometidos e interessados. Há meses temos um desfalque de trabalhadores que não conseguimos preencher. Com a redução, serão necessárias mais pessoas, o receio é se dá para encontrar”, diz.

Para Paula, esse apagão de mão de obra também desmonta o argumento de que a mudança provocará demissões em massa. Se hoje não há mão de obra capacitada para contratar, diz, não faz sentido desligar alguém sem ter quem colocar no lugar.

Clara Santos Abreu, 41, tem uma loja de roupas também na região central de São Paulo e trabalha sozinha, de segunda a segunda. Ela diz que há tempos busca um funcionário.

Para cumprir a nova jornada e escala, estima que precisaria de dois funcionários. Mas prefere pagar hora extra para um só em vez de fazer mais uma contratação.

Segundo Clara, também há o desafio de treinar novos funcionários, pois é preciso saber onde estão as peças, as cores e os tamanhos. Se demora, o cliente se irrita e desiste da compra. Com freelancers ou PJs para cobrir a redução da jornada, a rotatividade a obrigaria a treinar com frequência.

Sônia Alves, 47 anos, trabalha no varejo de roupas. Hoje, o negócio familiar é tocado por ela, pelo irmão e duas funcionárias. A loja abre de segunda a segunda, e as funcionárias contratadas seguem a escala 6×1, com jornadas de 8 horas.

Sônia diz que os parentes ajudarão a cobrir as folgas que forem necessárias, e que a família já está acostumada a lidar com desafios.

As funcionárias trabalham um domingo sim e outro não. Com o fim da 6×1, cada uma folgará no domingo e na segunda. Nos dias de folga, entram em campo os sobrinhos, de 16 e 17 anos, como menores aprendizes, além do pai e da mãe.

Ela avalia que a situação é mais difícil para quem não tem esse apoio familiar. Cita lojinhas de bairro, e mercadinhos com dois ou três funcionários. Para esses, diz, o governo mudou a escala, mas não criou nenhum auxílio, como redução de impostos ou crédito, para ajudar a contratar.

Daniel Oliveira Marques, 35, comanda uma padaria no bairro Santa Cecília, que funciona no mesmo ponto há mais de 30 anos. A padaria tem 27 funcionários, divididos em dois turnos de 8 horas e uma pessoa na madrugada.

Para ele, o fim da 6×1 será catastrófico para comércios pequenos. Marques calcula que precisará de pelo menos seis ou sete funcionários a mais para equilibrar as escalas. A folha de pagamento, disse, vai subir no mínimo R$ 12 mil, sem contar encargos.

“Dificultar não vai, mas vai ser ruim para os clientes, porque eu vou ter que repassar essa conta”, afirma.

Daniel diz que o impacto será mais pesado para os pequenos. Segundo ele, o grande comércio consegue absorver o custo, porque tem margem maior e benefícios fiscais. “Os pequenos comércios vão tudo fechar, não vai aguentar”, afirma.

Márcia Ribeiro Silva, 48 anos, é gerente de uma loja de varejo no bairro da Lapa, em São Paulo, com duas funcionárias e afirma que os empregadores ainda não estão certos de como será a adaptação.

A loja não abre aos domingos e as funcionárias têm folga fixa nesse dia, além de uma descanso na semana para compensar horas.

Segundo ela, o comércio nunca lidou com essa escala, e a redução de horários vai exigir mudanças. Uma das possibilidades que ouviu é contratar um funcionário pago por hora trabalhada, com carteira assinada, o que representaria custo a mais.

Ela diz que há empresários da região que planejam demitir, por serem microempreendedores. A lógica, segundo ela, é que o dono assuma a escala para cobrir a folga e não contrate ninguém.

Daniela Soares Fernandes, 51 anos, tem uma loja de roupas femininas há 24 anos no mesmo ponto, na Lapa.

A loja, que tem três funcionárias, abre de segunda a sábado, das 9h às 17h30, e aos sábados fecha às 16h30. Ela mesma vai todos os dias, cobre almoços, faltas e férias e só chama reforço no fim do ano.

O ano, diz, está bem difícil, principalmente nos últimos meses. Desde a pandemia, afirma, diminuiu o volume de pessoas que passam pela região. “Na 12 de Outubro [ponto de comércio no bairro da Lapa em São Paulo], que é o nosso termômetro, há muitos imóveis fechados, coisa que nunca aconteceu”, afirma.

Ela cita o comércio online e a mudança de hábitos como possíveis causas, e diz que a queda de vendas é geral entre os comerciantes com quem conversa.

No fim do ano, ela chegava a ter oito vendedoras. Hoje fica com três. Mesmo com o Natal se aproximando, só deve contratar reforço temporário, e a decisão de manter alguém fixo a partir de janeiro dependerá do movimento.

Com o fim da 6×1, as funcionárias ganharão um dia a mais de folga, e a loja ficará com uma pessoa a menos três vezes por semana. Daniela diz que, no cenário atual, não dá para contratar, mas aguarda orientações do escritório de contabilidade sobre qual será a melhor maneira de proceder.

O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) defende a mudança. Em nota enviada à Folha, o presidente da entidade, Décio Lima, afirmou que o fim da 6×1 é “a humanização da economia”.

Segundo ele, a medida também estimula os pequenos negócios, porque os trabalhadores terão mais tempo livre para lazer, turismo, bares e restaurantes.

Para lojas pequenas que abrem todos os dias, o Sebrae recomenda reorganizar turnos e manter a captação de clientes ativa nos dias de folga da equipe, com ferramentas como o Perfil da Empresa no Google.

Para ajudar na transição, o Sebrae diz oferecer cursos de inteligência artificial e o programa Brasil Mais Produtivo, que financia consultorias para micro, pequenas e médias empresas.

A entidade mantém ainda uma página com modelos de conversão da 6×1 para a 5×2 e orientações para reorganizar horários, contratos e horas extras.
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Colaborou Felipe Mendes

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