Paciente que perseguiu médica em Anápolis criava um perfil novo a cada bloqueio e sabia os dias de plantão dela
Jovem de 24 anos foi levado à delegacia nesta terça (3); o relato da médica à PM mostra como ele agiu durante três meses, da rede social ao hospital

A foto mostra um jovem de costas, entre policiais, deixando a UPA da Mulher, na Vila Jussara, em Anápolis, na noite desta terça-feira (3). Ele tem 24 anos.
Em 22 de julho, era um paciente do Hospital Alfredo Abrão, atendido por uma médica que nunca tinha visto.
Entre uma data e outra, construiu uma rotina de perseguição que foi da tela do celular até a porta do plantão dela.
O relato que a médica fez à Polícia Militar permite reconstruir essa rotina passo a passo.
Lido em sequência, ele mostra menos um impulso e mais um método, com uma lógica própria: a cada porta fechada, ele procurava outra.
Primeiro, o nome verdadeiro
O contato começou sem disfarce. Logo depois da consulta, ele criou um perfil no Instagram com o próprio primeiro nome e passou a mandar mensagens. A médica bloqueou. Ele abriu outra conta. Bloqueado de novo, abriu a terceira.
O bloqueio, que para a maioria das pessoas funciona como resposta, para ele funcionou como obstáculo.
Em certo ponto, trocou de identidade, mas não de todo. Uma das contas tinha nome de mulher, “Hillary”, e as mensagens terminavam com a assinatura “by Thiago”.
O disfarce servia para passar pelo bloqueio; a assinatura servia para que ela soubesse quem estava do outro lado. Depois, localizou o perfil dela no TikTok e repetiu o ciclo por lá.
Quando ela se fechou, ele escreveu na bio
A médica restringiu a privacidade das redes. Ele mudou de ferramenta. Passou a mandar solicitações de amizade, que chegam mesmo a perfis fechados, e a usar a biografia das contas falsas como um mural dirigido a ela.
Foi ali que escreveu que ia pegar o carro dela e a chamou de “burra” e “controlada”. Para dar aparência real às contas, usou fotos da própria médica, pegas em perfis de outras pessoas.
Depois, os plantões
A partir de um momento que o relato não precisa, a perseguição saiu da internet. Ele passou a aparecer nos dois hospitais onde ela trabalha, nos dias em que ela está escalada.
Como descobriu a escala, o registro não diz. Também começou a marcar consultas com outras médicas e, durante o atendimento, falava dela, pelo nome.
Ele não precisava vê-la para fazer com que soubessem que ele estava ali. A médica, por sua vez, deixou de sair sozinha depois do turno: o namorado passou a buscá-la na porta, muitas vezes por volta de 1h.
Nesta terça, ele apareceu de novo, durante o plantão na UPA da Mulher, e ela chamou a PM. Na abordagem, reagiu com agressividade e foi necessário algemá-lo antes de seguirem para a delegacia.
O caso foi registrado como perseguição contra mulher por razão do sexo feminino, o stalking do artigo 147-A do Código Penal, com pena de seis meses a dois anos de reclusão, mais multa, aumentada pela metade por a vítima ser mulher.
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