Médica de Anápolis está vivendo inferno depois que paciente virou stalker e não para de persegui-la

Ela o atendeu uma única vez, em julho; desde então ele cria contas falsas, escreveu ameaças na bio dos perfis e nesta terça (3) apareceu de novo no plantão, onde a PM precisou algemá-lo

Fachada da UPA da Mulher, no antigo Hospital Municipal da Vila Jussara, em Anápolis
UPA Alair Mafra está, provisoriamente, funcionando no antigo Hospital Municipal Jamel Cecílio, na Vila Jussara. (Foto: Danilo Boaventura/ Portal 6)

Por Danilo Boaventura

Em 22 de julho, uma médica atendeu um paciente de 24 anos no Hospital Alfredo Abrão, em Anápolis. Foi uma consulta.

Nos três meses seguintes, esse paciente criou perfil atrás de perfil no Instagram e no TikTok para falar com ela, escreveu na biografia das contas que ia pegar o carro dela, chamou-a de “burra” e “controlada”, montou contas falsas com fotos dela tiradas de perfis de outras pessoas, descobriu a escala de plantões e passou a aparecer nos dois hospitais onde ela trabalha, nos dias certos.

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Na noite desta terça-feira (3), ele apareceu de novo, na UPA da Mulher, instalada no antigo Hospital Municipal, na Vila Jussara.

Dessa vez, ela chamou a Polícia Militar. Ele reagiu com agressividade, e os policiais precisaram algemá-lo para concluir a abordagem.

Ela bloqueava, ele voltava

O assédio começou logo depois da consulta. O jovem abriu um perfil no Instagram com o próprio nome e passou a mandar mensagens. Ela bloqueou. Ele abriu outro. Ela bloqueou de novo.

A sequência se repetiu tantas vezes que, em uma das contas, ele adotou um nome de mulher e deixou a própria assinatura no fim das mensagens, como quem faz questão de ser reconhecido.

Depois, quando a médica fechou as redes e restringiu quem podia vê-la, ele mudou de tática.

Passou a mandar solicitações de amizade e a usar o espaço da biografia dos perfis falsos para escrever o que queria que ela lesse. Foi ali que apareceram a ameaça ao carro e os xingamentos.

A perseguição saiu da tela

Ele sabe em que dias ela está escalada e aparece nos dois hospitais exatamente nesses dias. Além disso, procura atendimento com outras médicas e, durante a consulta, fala dela, pelo nome.

A médica contou aos policiais que não se sente mais segura para deixar o plantão sozinha.

Por isso, o namorado passou a buscá-la na porta, muitas vezes por volta de 1h da manhã, quando o turno termina. Ela teme que a história acabe em agressão, ou em algo pior.

Duas ocorrências, nenhuma medida protetiva

Esta terça não foi a primeira vez que ela procurou a polícia. O Portal 6 apurou que a médica já havia registrado dois boletins de ocorrência pelos mesmos fatos e tentou obter uma medida protetiva.

Quando os policiais verificaram, nesta terça, não havia nenhuma em vigor. Ou seja, pediu e não conseguiu. Na prática, nada obriga o jovem a manter distância dela, nem dos hospitais onde ela trabalha.

A PM registrou o caso como perseguição contra mulher por razão do sexo feminino, o stalking do artigo 147-A do Código Penal, e o encaminhou à Polícia Civil.

A pena vai de seis meses a dois anos de reclusão, mais multa, com aumento de metade quando a vítima é mulher. A médica prometeu entregar os prints de tudo: perfis, mensagens, biografias.

A lei que não chega até ela

Foi preciso que o jovem fizesse tudo o que fez durante três meses e ainda aparecesse no hospital, no meio do plantão, para que alguém o parasse.

Mesmo assim, ela saiu dali como entrou: sem medida protetiva. E o motivo tem nome.

A médica e o jovem não têm relação familiar nem afetiva; ela o viu uma vez, como paciente. A Lei Maria da Penha, que sustenta as medidas protetivas, nasceu para a violência doméstica e familiar, e a Justiça de Anápolis vem lendo o texto ao pé da letra.

Em outubro, o Portal 6 mostrou o caso de uma mulher de 37 anos espancada pela vizinha na Vila Mariana. O Ministério Público pediu a medida, o juiz negou e explicou que o instrumento não serve para briga entre vizinhas.

Agora é uma médica perseguida por um paciente. Mais um caso em Anápolis mostra o tamanho do buraco. Enquanto a lei não der aos juízes uma base clara para proteger quem é perseguida por um estranho, uma base que não dependa da interpretação de cada vara nem caia na instância seguinte, essa médica continua em perigo.

Ela não brigou com ninguém. Atendeu um paciente. Hoje precisa de companhia para ir para casa.

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Danilo Boaventura

Danilo Boaventura

Jornalista graduado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), pós-graduado em Docência em Comunicação pela Faculdade Cidade Verde (PR) e mestrando em Marketing Político pela Universidad del Salvador, de Buenos Aires.