Frase do dia da Filosofia: “Sofremos mais na imaginação do que na realidade”, uma reflexão de Sêneca sobre a ansiedade que cria problemas que nunca chegam a acontecer

A mente consegue transformar possibilidades em ameaças quase concretas e perceber essa diferença pode mudar a forma como enfrentamos o futuro

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(Foto: Reprodução)

Quantas vezes você já perdeu o sono imaginando uma conversa que daria errado, uma notícia ruim que poderia chegar ou uma situação que, no fim, nem aconteceu?

“Sofremos mais na imaginação do que na realidade”, escreveu Sêneca. A frase parece simples, mas esconde uma distinção importante: existe o sofrimento provocado pelo que realmente acontece e existe aquele que começa muito antes, quando a mente tenta prever tudo aquilo que ainda pode dar errado.

Imaginar o pior pode fazer o sofrimento começar antes da hora

Na Carta 13 a Lucílio, Sêneca observa que algumas coisas nos atormentam mais do que deveriam; outras, antes do momento necessário; e algumas nos fazem sofrer sem que houvesse motivo real.

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A reflexão não significa que os problemas sejam imaginários.

Perder um emprego, enfrentar uma doença ou atravessar uma separação pode provocar sofrimento verdadeiro. O ponto do filósofo é outro: frequentemente acrescentamos ao problema presente uma série de possibilidades futuras que ainda não existem.

É como sofrer uma vez pelo que aconteceu e muitas outras pelo que talvez aconteça.

A psicologia conhece esse mecanismo

A psicologia contemporânea chama de ansiedade antecipatória a preocupação ou apreensão diante de um acontecimento futuro por causa da possibilidade de um resultado negativo.

A Associação Americana de Psicologia explica que a ansiedade está voltada justamente para ameaças percebidas no futuro, enquanto o medo costuma estar relacionado a um perigo mais imediato.

Por isso, um pensamento como “e se eu não conseguir?” pode rapidamente virar “vai dar errado”, embora ainda não exista qualquer certeza sobre o resultado.

Mas preocupar-se nem sempre é inútil

Sêneca não precisa ser interpretado como alguém sugerindo ignorar riscos.

A psicóloga Kate Sweeny, pesquisadora da Universidade da Califórnia, explica que preocupar-se pode direcionar nossa atenção para um problema futuro e nos motivar a preveni-lo.

Se existe algo que podemos fazer, a preocupação pode gerar preparação.

O problema aparece quando continuamos repetindo mentalmente cenários sobre os quais não temos qualquer ação possível naquele momento.

Nesse caso, a mente deixa de preparar e começa apenas a sofrer antecipadamente.

A imaginação também precisa de limites

A própria filosofia mostra que imaginar é uma capacidade poderosa porque permite representar possibilidades diferentes da realidade presente.

Essa habilidade nos permite planejar, criar e antecipar perigos.

Mas ela também consegue fabricar versões do futuro tão convincentes que passamos a reagir emocionalmente como se já fossem verdade.

É aí que a frase de Sêneca ganha força.

Talvez o futuro mereça menos sofrimento antecipado

Não podemos controlar todas as coisas ruins que eventualmente acontecerão. Também não podemos garantir que nossos medos nunca se tornarão reais.

Mas existe uma diferença entre preparar-se para uma possibilidade e viver como se ela já tivesse ocorrido.

Talvez a reflexão de Sêneca seja um convite a perguntar, diante de uma preocupação: “Isso está acontecendo agora ou estou sofrendo por algo que minha mente apenas imaginou?”

Às vezes, a realidade já exige bastante de nós. Não precisamos obrigatoriamente acrescentar a ela todos os problemas que o futuro ainda nem decidiu trazer.

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Rebeca Ferreira

Rebeca Ferreira

Estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.

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