As primeiras professoras de cidade goiana caminhavam 42 km até outro município para receber o salário

Antes de conquistar autonomia política, Mutunópolis ainda tinha pouca infraestrutura e dependia de Porangatu para diferentes serviços. Nesse cenário, duas educadoras enfrentavam um longo caminho para conseguir receber seus vencimentos

As primeiras professoras de cidade goiana caminhavam 42 km até outro município para receber o salário
Rua Porangatu, em Mutunópolis, 1984. (Foto: Reprodução/IBGE)

No início da década de 1950, quando Mutunópolis ainda dava seus primeiros passos como povoado no norte de Goiás, duas professoras assumiram a missão de ensinar as crianças da região em uma época marcada pela falta de estradas, veículos e estrutura pública.

Aparecida Gonçalves Peixoto e Etelvina Peixoto são registradas na história local como as primeiras professoras do município. Entre 1953 e 1956, elas precisavam percorrer 42 quilômetros até Porangatu para receber seus vencimentos, uma rotina que ajuda a dimensionar as dificuldades enfrentadas pelos primeiros servidores da localidade.

Professoras atuaram antes da emancipação

Na época em que as duas educadoras trabalhavam, Mutunópolis ainda não era um município independente.

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O povoado havia crescido a partir da ocupação da região por pioneiros, entre eles João Gonçalves Pacheco, pai de Aparecida e apontado como fundador da cidade. Casas simples e uma capela formaram o núcleo inicial, que recebeu moradores de outras partes de Goiás e também de Minas Gerais.

Em 1953, a localidade foi elevada à condição de distrito e permaneceu administrativamente ligada a Porangatu. Essa dependência ajuda a explicar por que as professoras precisavam se deslocar até a cidade vizinha para receber o pagamento.

Trajeto era feito quando nem bicicleta havia na cidade

O relato preservado pelos registros municipais dá uma dimensão ainda maior do esforço. Segundo a história oficial de Mutunópolis, naquele período praticamente não havia meios de transporte disponíveis no povoado.

Um registro sobre os pioneiros afirma que, em 1953, não existia sequer bicicleta na localidade. O primeiro caminhão mencionado na história municipal só apareceria depois, adquirido pela prefeitura.

Nesse contexto, os 42 quilômetros atribuídos às professoras representam muito mais do que uma simples viagem entre cidades. Era um deslocamento realizado em uma região ainda em processo de formação urbana e de abertura de caminhos.

Aparecida era filha do fundador da cidade

Aparecida Gonçalves Peixoto tinha ligação direta com a própria formação de Mutunópolis. Ela era filha de João Gonçalves Pacheco, identificado nos registros municipais como um dos responsáveis por organizar o povoamento e incentivar sua transformação em distrito.

Etelvina Peixoto aparece ao lado dela como uma das pioneiras da educação local entre 1953 e 1956.

A história das duas professoras foi incorporada inclusive ao Plano Municipal de Educação, documento oficial que reproduz o relato dos deslocamentos a Porangatu e reconhece a participação das educadoras nos primeiros anos do ensino na região.

Mutunópolis conquistou autonomia em 1958

A situação administrativa começou a mudar alguns anos depois. Mutunópolis foi desmembrada de Porangatu pela Lei Estadual nº 2.105, de 14 de novembro de 1958, e o novo município foi oficialmente instalado em 1º de janeiro de 1959.

Décadas depois, o município mantém uma rede de ensino própria e também integra a Coordenação Regional de Educação de Porangatu. Segundo o Censo de 2022, Mutunópolis tinha 3.564 habitantes.

A caminhada das primeiras professoras permanece como um dos episódios mais curiosos da história local e um retrato das dificuldades enfrentadas por quem ajudou a estruturar a educação na cidade antes mesmo de ela conquistar autonomia.

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Rebeca Ferreira

Rebeca Ferreira

Estudante de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária do Portal 6. Atua na equipe desde setembro de 2026.