Ser a primeira é uma conquista. Não ser a última é o nosso compromisso
Foram necessários 133 anos para que uma mulher fosse eleita para presidir o Legislativo anapolino

Quando fui eleita presidente da Câmara Municipal de Anápolis, em janeiro de 2025, sabia que estava vivendo um momento importante da minha trajetória política. Mas, ao olhar para a história da nossa cidade, compreendi que aquela conquista era muito maior do que eu.
Foram necessários 133 anos para que uma mulher fosse eleita para presidir o Legislativo anapolino. Mais de um século de decisões, debates e transformações até que uma mulher chegasse, pelo voto de seus colegas, ao principal posto de liderança da Câmara Municipal.
Confesso que esse número me provoca sentimentos diferentes. Sinto orgulho por fazer parte dessa história, mas também me pergunto quantas mulheres, ao longo de todos esses anos, tiveram capacidade, coragem e vontade de ocupar esse espaço, mas não conseguiram, simplesmente por serem mulheres.
Desde 1892, quando teve início a história do Legislativo de Anápolis, apenas 15 mulheres foram eleitas vereadoras. Quinze! Um número menor do que as 23 cadeiras que compõem uma única legislatura atualmente.
A primeira delas foi a professora Francisca Miguel, eleita em 1947. Imagino os desafios que enfrentou em uma época em que a política era um ambiente ainda mais distante da realidade feminina. E reconheço que, mesmo depois de tantas conquistas, ainda enfrentamos barreiras que têm origem no mesmo preconceito.
Hoje, somos cinco vereadoras na Câmara de Anápolis. Ainda somos poucas, mas cada uma de nós representa uma história de coragem, trabalho e superação de barreiras.
Aprendi que ocupar um espaço de poder não significa apenas chegar a ele. Significa compreender a responsabilidade que temos com quem veio antes e, principalmente, com quem virá depois. E foi justamente essa compreensão que me fez assumir um compromisso: não bastava ser a primeira mulher a presidir a Câmara. Eu precisava fazer com que essa conquista produzisse mudanças reais.
Ainda como vereadora, apresentei iniciativas voltadas à igualdade de gênero nas contratações da Câmara Municipal. Também fui autora do projeto que criou a Galeria das Ex-Vereadoras, um espaço de reconhecimento às mulheres que ajudaram a construir a história política de Anápolis. Porque preservar essa memória é também combater a ideia de que a política sempre foi, ou deve continuar sendo, um lugar de homens.
Mas foi ao assumir a presidência que tive a oportunidade de transformar esse compromisso em decisões administrativas. Hoje, mais de 50% dos cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões da nossa gestão são ocupados por mulheres. Não apenas em funções de apoio, mas em posições de chefia, coordenação, planejamento e tomada de decisões.
Faço questão de destacar esse dado porque ele representa algo muito concreto. Significa mulheres participando das decisões, apresentando soluções, liderando equipes, administrando recursos e contribuindo diretamente para os rumos da instituição.
Mais do que abrir vagas, procurei construir um ambiente em que essas profissionais tivessem voz, autonomia, respeito e confiança para exercer suas funções. Porque não adianta permitir que uma mulher ocupe uma cadeira se suas ideias não são ouvidas quando ela se senta à mesa.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem chega primeiro: não apenas ocupar o espaço conquistado, mas ajudar a transformar a maneira como esse espaço é compartilhado.
Não acredito que as mulheres devam ocupar cargos de liderança simplesmente por serem mulheres. Acredito que nenhuma mulher deva deixar de ocupá-los por essa razão. Nossa capacidade não pode ser medida pelo gênero, mas pelo trabalho, pela competência, pelas ideias e pelo compromisso que assumimos com a sociedade.
Também não acredito que a presença feminina, por si só, resolva todas as desigualdades. Mas sei que oportunidades precisam existir para que a competência possa ser demonstrada. E, quando uma mulher tem a possibilidade de liderar, outras passam a enxergar essa possibilidade para si mesmas.
Como mulher, mãe e vereadora, conheço as muitas responsabilidades, escolhas e desafios que fazem parte da nossa trajetória. Sei o quanto precisamos conciliar diferentes papéis e quantas vezes somos cobradas a demonstrar uma capacidade que, em outros espaços, costuma ser presumida.
Por isso, quando penso na minha passagem pela presidência, não quero que ela seja lembrada apenas pelo fato histórico de ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo. Quero que também seja reconhecida pelas oportunidades que ajudamos a criar, pelas profissionais que tiveram seu trabalho valorizado e pela demonstração cotidiana de que mulheres podem exercer funções de comando com responsabilidade, competência e segurança.
Quero que as meninas que hoje visitam a Câmara, que conhecem a nossa história e que observam as mulheres ocupando posições de liderança entendam que aqueles espaços também lhes pertencem. E que não precisem esperar outros 133 anos para ver uma mulher presidindo esta Casa.
Tenho muito orgulho de ser a primeira mulher eleita presidente da Câmara Municipal de Anápolis. Mas o significado dessa conquista não está apenas em ter chegado até aqui. Está também no que fazemos com a oportunidade de estar aqui.
Porque uma conquista individual ganha um sentido muito maior quando se transforma em oportunidade coletiva.
Ser a primeira é uma honra que levarei para sempre. Mas contribuir para que outras mulheres encontrem portas abertas, tenham suas vozes respeitadas e possam chegar ainda mais longe é o legado que desejo deixar.
Ser a primeira é uma conquista. Não ser a última é o nosso compromisso.
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