Tema da redação do Enem 2026 é ‘a valorização do SUS como direito universal’
Proposta deste domingo (08) propõe debate sobre saúde pública e cobra dos candidatos análise crítica, repertório e proposta de intervenção

ISABELA PALHARES E LUCAS LEITE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O tema da redação do Enem 2026 é “A valorização do SUS como direito universal”. A proposta foi apresentada aos candidatos neste domingo (8), durante o primeiro dia de provas do exame, que também incluiu questões de linguagens, códigos e suas tecnologias e ciências humanas.
O tema foi anunciado pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini.
Nos últimos anos, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão responsável pela prova, tem escolhido temas ligados à visibilidade de grupos sociais historicamente marginalizados, como “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” (2025), “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil” (2024) e “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil” (2023).
O tema da redação é tradicionalmente um dos momentos mais comentados do exame, tanto entre candidatos quanto entre professores e especialistas, por refletir debates sociais, culturais e políticos atuais.
Para Nathan Sena, professor de Redação do Elite Rede de Ensino o tema é acessível ao estudante, mas vê risco em nos candidatos confundirem “valorização” com fazer “elogio” ao SUS.
“Valorizar o SUS não significa ignorar seus desafios. Pelo contrário: uma discussão consistente pode reconhecer problemas de financiamento, infraestrutura, gestão ou acesso e, justamente a partir deles, defender mecanismos de fortalecimento do sistema”, diz.
Daniela Toffoli, professora de Redação do Curso Anglo, da Cogna Educação, avalia que o tema deste ano rompe com a tradição dos últimos três anos, em que o Enem vinha abordndod recorder mais explícitos para grupos específicos da sociedade. Para ela, o aluno precisa também fazer esse movimento analítico.
“Neste ano, podemos dizer que a prova manteve o padrão de cobrar uma problemática social clássica, mas mudou um pouco essa estrutura. Não trouxe um recorte explícito de gênero, raça ou idade, ou seja, de um grupo social minoritário, como aconteceu nos anos anteriores.”
Ela também ressalta a importância de o aluno ter uma visão crítica. “Se o comando fala em valorização do SUS como direito universal, o que o candidato precisa entender é a lógica implícita da banca: se é necessário valorizar, é porque, atualmente, o serviço é desvalorizado. E, se precisa ser um direito universal, é porque o acesso ainda não acontece de forma universal na prática.”
Isabela Canella, professora de redação da Escola SEB Lafaiete AZ, também alerta para a diferença na proposta de redação deste ano. “Ele foge um pouco do formato tradicional do Enem, por não trazer uma abordagem explícita sobre os desafios. O aluno precisa lembrar que a redação exige uma problematização e uma proposta de intervenção. Por isso, além de defender a importância do SUS, é necessário apontar problemas relacionados à sua falta de valorização, como a insuficiência de investimentos governamentais e de reconhecimento da importância do sistema.”
Marcus Barcelos , Coordenador de Português do Bernoulli Educação, diz que os alunos podem recorrer a diversos repertórios para tratar do assunto, como a vacinação da Covid.
“O sanitarista Sérgio Arouca permite relacionar saúde e democracia, enquanto Drauzio Varella contribui para a defesa do sistema e da medicina preventiva. O complexo de vira-lata, de Nelson Rodrigues, fundamenta críticas à inferiorização das instituições nacionais; já as ‘cidadanias mutiladas’, conceito de Milton Santos, permitem discutir a distância entre direitos formalmente assegurados e seu exercício efetivo.”
Maria Aparecida Custódio, professora do Laboratório de Redação do Objetivo, também destaca que seria importante o candidato trazer exemplos de serviços prestados pelo SUS. “Caberia, no desenvolvimento da redação, apresentar alguns exemplos dos serviços prestados pelo SUS, como a universalização, os transplantes e a vacinação entre outros. A proposta de intervenção deveria consistir, entre outras possibilidades, em ampliação da abrangência do SUS, bem como aumento de recursos orçamentários e valorização dos profissionais de saúde.”
A tarefa exige dos participantes a produção de um texto dissertativo-argumentativo, conforme o formato tradicional do exame, que deve defender um ponto de vista sobre o tema proposto, com base em argumentos consistentes e uma proposta de intervenção que respeite os direitos humanos.
A correção da redação considera cinco competências, que avaliam desde o domínio da norma padrão até a capacidade de propor soluções viáveis e éticas. São elas:
- Competência 1: Domínio da norma culta escrita.
- Competência 2: Compreensão e desenvolvimento do tema.
- Competência 3: Organização e defesa de argumentos.
- Competência 4: Coesão e coerência na argumentação.
- Competência 5: Proposta respeitando direitos humanos
Cada competência vale até 200 pontos, somando um total máximo de mil pontos.
O Inep reforçou na Cartilha do Participante a importância da autenticidade textual. O órgão orientou que os candidatos evitem o uso de “repertórios de bolso” citações genéricas, frases feitas e introduções prontas que circulam nas redes e cursinhos.
Neste domingo, os portões dos locais de prova foram abertos ao meio-dia e fechados às 13h. Os participantes começaram a resolver as 90 questões objetivas e a escrever a redação a partir das 13h30. O tempo máximo de realização foi de cinco horas e meia, com término às 19h.
Mais de 5,05 milhões de candidatos estão inscritos no Enem 2026. O segundo dia de exame será no próximo domingo (15), com questões de matemática e ciências da natureza.
Veja todos o temas da redação do Enem
TEMA – EDIÇÃO
- Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira – 2025
- Desafios para a valorização da herança africana no Brasil – 2024
- Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil – 2023
- Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil – 2022
- Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil – 2021
- O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira – 2020
- O desafio de reduzir as desigualdades entre as regiões do Brasil – 2020
- Democratização do acesso ao cinema no Brasil – 2019
- Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na Internet – 2018
- Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil – 2017
- Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil – 2016
- A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira – 2015
- Publicidade infantil em questão no Brasil – 2014
- Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil – 2013
- Movimento imigratório para o Brasil no século 21 – 2012
- Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado – 2011
- O trabalho na construção da dignidade humana – 2010
- O indivíduo frente à ética nacional – 2009
- Como preservar a floresta amazônica – 2008
- O desafio de se conviver com a diferença – 2007
- O poder de transformação da leitura – 2006
- O trabalho infantil na realidade brasileira – 2005
- Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação – 2004
- A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo? – 2003
- O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais de que o Brasil necessita? – 2002
- Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar interesses em conflito? – 2001
- Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional? – 2000
- Cidadania e participação social – 1999
- Viver e aprender – 1998
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